São Paulo (SP) – A hotelaria brasileira deve chegar a 2027 com crescimento mais moderado, após registrar sinais de desaceleração ao longo deste ano. Apesar da perda de ritmo, a escassez de novos hotéis e a manutenção das receitas acima da inflação criam uma perspectiva favorável para o setor. A análise foi apresentada por Cristiano Vasques, sócio-diretor da HotelInvest, durante a palestra “Panorama da Hotelaria HI e FOHB”, nesta segunda-feira (14), no VIII Fórum Nacional de Hotelaria, promovido pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), no Hotel Pullman Vila Olímpia, em São Paulo.
Com base no levantamento desenvolvido pela HotelInvest em parceria com o FOHB, Vasques mostrou que os principais indicadores da hotelaria urbana ainda avançam, porém em velocidade inferior à registrada em 2025. No agregado de 12 das principais capitais brasileiras, a ocupação cresceu 0,8% no primeiro semestre de 2026, ante alta de 3% no mesmo período do ano passado. A diária média também perdeu fôlego: após crescer 6% acima da inflação em 2025, registrou avanço real de 1,5% neste ano. O movimento levou o RevPar a uma alta de 2,3% acima da inflação, distante do crescimento próximo a 10% observado no ano anterior.
“Há crescimento, mas esse crescimento está cada vez mais devagar. E isso diz muito sobre o que vem pela frente”, afirmou Vasques. Segundo o executivo, a ocupação dos hotéis urbanos permaneceu relativamente estável nos últimos três anos, enquanto as diárias tiveram trajetória mais favorável. Nos últimos seis meses, no entanto, esse segundo indicador também passou a mostrar sinais de estabilidade.
O cenário possui relação direta com as condições macroeconômicas. Vasques citou os juros elevados, o endividamento das famílias e empresas e as incertezas ligadas às eleições como fatores que limitam o avanço da demanda. Em sua avaliação, o crescimento recente da economia e da própria hotelaria encontrou suporte na expansão do emprego e do crédito, mas esses motores apresentam menos espaço para sustentar novos saltos de consumo.
Poucos hotéis novos alteram equação do mercado
Se a demanda dá sinais de acomodação, a oferta também enfrenta obstáculos. Segundo a pesquisa apresentada, existem 178 hotéis em construção ou desenvolvimento no Brasil para os próximos cinco anos, ante 152 contabilizados no início de 2026. Os projetos representam aproximadamente 26 mil quartos, ou cerca de cinco mil novas unidades habitacionais por ano.
Para Vasques, o volume é baixo diante do tamanho do mercado brasileiro. A nova oferta representa crescimento próximo de 1% ao ano, resultado das dificuldades para financiar projetos hoteleiros. Juros altos, falta de funding e custos de construção figuram entre os principais entraves apontados pelos desenvolvedores.
O cenário chega ao ponto de alterar a decisão de investidores. Segundo Vasques, cerca de 80% dos estudos de mercado elaborados pela HotelInvest terminam sem a continuidade do empreendimento após a análise de retorno.
“Os clientes falam assim: ‘Obrigado, mas eu não vou seguir adiante em desenvolver esse hotel, porque essa rentabilidade ajustada ao risco não faz sentido. É melhor eu deixar o dinheiro aplicado em nota do Tesouro Nacional’”, relatou. Para ele, parte dos empresários deve aguardar maior clareza após as eleições e um ambiente de juros mais favorável antes de retomar decisões de investimento.
A baixa entrada de novos hotéis, porém, ajuda a equilibrar um mercado no qual a demanda também cresce menos. Vasques destacou que, mesmo com a desaceleração, as receitas permanecem acima da inflação em grande parte dos destinos e proporcionam margens consideradas saudáveis. Para 2027, sua expectativa é de estabilidade ou crescimento baixo das receitas, com diferenças relevantes de acordo com cada cidade.
Resorts encontram espaço no mercado internacional
Nos resorts, o cenário traz perspectivas adicionais. O segmento registrou crescimento de receita próximo de 5% acima da inflação no primeiro semestre e mantém níveis elevados de ocupação. Segundo Vasques, alguns empreendimentos alcançam entre 80% e 85% ao longo do ano, ainda com forte dependência do público doméstico.
Para o executivo, a entrada de mais viajantes estrangeiros no Brasil abre uma frente ainda pouco explorada pelos resorts nacionais. “Tem um mundo gigantesco de potencial de demanda no exterior para trazer. Então eu sou relativamente otimista com o mercado de resorts”, declarou. A oportunidade passa por disputar clientes com destinos internacionais já estabelecidos, como Caribe e Sudeste Asiático.
Vasques encerrou a análise com uma perspectiva cautelosa para o próximo ano. O comportamento da demanda dependerá do rumo da economia, mas a ausência de um ciclo expressivo de novas aberturas reduz o risco de desequilíbrio entre oferta e procura. “Se (a crise de demanda) não for severa, não tem oferta nova, a gente deve ter mais um ano bom. Com gostinho de que podia ser um pouco melhor”, concluiu.

