Viajar representa liberdade, mas, para pessoas cegas ou com baixa visão que utilizam cão-guia, essa experiência ainda depende do nível de preparo do setor turístico. Apesar de o Brasil possuir legislação que garante o acesso do cão-guia a ambientes públicos e privados de uso coletivo, incluindo hotéis, restaurantes, aeroportos e atrativos turísticos, situações de constrangimento e desinformação ainda são frequentes. O direito está assegurado, porém a experiência nem sempre acompanha a norma.
A Lei nº 11.126/2005 e o Decreto nº 5.904/2006 determinam que pessoas com deficiência visual podem circular com seus cães-guia sem cobrança adicional ou restrições de acesso. Mesmo assim, dúvidas operacionais persistem, geralmente associadas à falta de treinamento das equipes.
Parte do problema está na compreensão equivocada de que o cão-guia seria um animal de estimação, quando, na realidade, ele é um recurso de tecnologia assistiva treinado para garantir mobilidade segura e autonomia. Durante o trabalho, o animal precisa manter concentração constante, razão pela qual interações como tocar, chamar ou oferecer alimento não são apropriadas.
No Turismo, essa compreensão impacta diretamente a experiência do visitante. Ambientes desorganizados, comunicação pouco clara e profissionais inseguros aumentam o esforço necessário para atividades simples, enquanto os atendimentos preparados tornam a jornada mais fluida e confortável. Pequenas atitudes, como direcionar a comunicação à pessoa e explicar rotas ou serviços de forma objetiva, fazem grande diferença na percepção de hospitalidade.
As viagens aéreas representam um ponto especialmente sensível. Companhias aéreas são obrigadas a transportar gratuitamente o cão-guia na cabine, junto ao passageiro, sem cobrança extra e sem que o animal seja tratado como bagagem. Ainda assim, passageiros frequentemente enfrentam dúvidas no check-in, solicitações indevidas de documentos ou falta de orientação adequada durante o embarque e as conexões. O preparo das equipes aeroportuárias e das companhias é fundamental para garantir embarque seguro, acomodação adequada e previsibilidade ao viajante, reduzindo o estresse em uma etapa já naturalmente complexa da viagem.
Investir na recepção adequada de pessoas acompanhadas de cão-guia exige mais mudança cultural do que investimento financeiro. Treinamentos simples e protocolos claros costumam eliminar a maior parte dos problemas. Além de cumprir a legislação, empresas e destinos fortalecem sua reputação e ampliam seu alcance junto a um público que viaja acompanhado e valoriza experiências inclusivas.
O turismo acessível avança quando a inclusão deixa de ser vista como exceção e passa a integrar o atendimento cotidiano. Receber bem uma pessoa com cão-guia não é apenas cumprir uma regra, mas reconhecer o direito de viajar com autonomia e dignidade, um princípio essencial para um turismo verdadeiramente aberto a todos.

