BRL - Moeda brasileira
EUR
5,77
USD
4,91

Parem de ouvir o cliente

Ricardo Hida
Ricardo Hida
CEO da Promonde, formado em Administração e pós-graduado em Comunicação.

Trabalho com o universo do luxo há 30 anos. Nos últimos cinco anos, o mercado foi tomado por toda a sorte de pessoas interessadas no segmento.

A maior parte delas, com pouquíssima experiência, se autointitulou especialista após cursar um curso de final de semana, após a leitura de alguns blogs ou curta experiência na área operacional de alguma empresa do setor.

Acreditaram (e enganaram o mercado) que bastava apenas adaptar receitas de marketing tradicional a um linguajar mais rebuscado. Grave equívoco.

O luxo não nasce da aprovação do mercado, mas de uma convicção anterior a ele.

Muitas marcas começam por análises de público e métricas de comportamento. As que atravessam décadas, porém, estruturam-se a partir de uma visão clara de mundo, de uma estética definida e de valores que não estão permanentemente abertos à negociação.

No marketing tradicional, o cliente ocupa o centro. Escuta-se, adapta-se, otimiza-se. Produtos e discursos são ajustados para maximizar a conversão. Esse modelo é eficiente para escalar negócios, mas não explica o luxo.

O luxo não se constrói a partir do desejo manifesto do cliente, mas da coerência de sua identidade. Não pergunta continuamente o que o público gostaria que ele fosse; afirma o que é e permite que o desejo surja como consequência.

Quando a comunicação gira em torno do cliente, há segurança. Quando gira em torno da história e da visão da marca, há magnetismo. O marketing busca consenso. O luxo aceita a seleção.

Casas como Hermès controlam ritmo e oferta porque entendem que a raridade é parte de sua essência. Ferrari estabelece critérios de aquisição porque a reputação depende de coerência. Em todos esses casos, a marca molda sua clientela, e não o contrário.

No turismo de alto padrão, essa lógica é ainda mais clara.

Um hotel verdadeiramente icônico não nasce de pesquisas sobre preferências médias, mas de uma história territorial, de uma tradição arquitetônica e de uma filosofia de hospitalidade que antecede qualquer expectativa individual. O viajante é atraído porque percebe consistência, densidade e tempo longo.

Destinos consolidados não vendem apenas acomodações; oferecem pertencimento a um universo simbólico. O desejo nasce da narrativa, não da utilidade.

Em um cenário saturado de ofertas padronizadas, a raridade está na convicção. Hotéis que seguem todas as tendências perdem profundidade. Destinos que sacrificam singularidade para agradar a todos diluem sua aura.

Começar pelo cliente maximiza o curto prazo. Começar pela história constrói um desejo duradouro.

No luxo, a capacidade de dizer “não” é estratégica. Limitar acesso ou manter critérios rigorosos não é arrogância; é governança simbólica.

Ao longo da minha trajetória entre marketing, hospitalidade e estudos sobre tradição e construção de sentido, aprendi que marcas fortes conhecem sua narrativa antes de buscar aplauso. Elas existem com tal clareza que atraem aqueles que reconhecem sua linguagem.

O cliente não cria o luxo. O luxo forma sua clientela.

LEIA MAIS NOTÍCIAS

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, 
necessariamente, a opinião deste jornal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

MAIS LIDAS

NEWSLETTER

    AGENDA 2026

    Labace

    REDES SOCIAIS

    PARCEIROS