O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). A investigação concluiu que falhas da companhia aérea, da tripulação e da fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuíram para o acidente, que provocou a morte de 62 pessoas.
Segundo o documento, a aeronave ATR 72-500 não deveria ter sido liberada para o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). O avião apresentava falhas conhecidas no sistema de proteção contra gelo (Airframe De-Icing), condição incompatível com a previsão de formação de gelo durante a rota.
Além disso, o relatório aponta que a aeronave foi liberada para decolagem mesmo com uma falha no limpador de para-brisa. Conforme as regras operacionais, o voo não poderia ser despachado caso houvesse previsão de chuva no período próximo à decolagem e ao pouso.
Durante o voo, a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo desde a subida, situação que persistiu ao longo do trajeto. O acúmulo de gelo comprometeu o desempenho do ATR, provocando perda de velocidade, estol aerodinâmico, perda de controle e queda sobre uma área residencial.
Ao todo, o Cenipa listou 39 conclusões na investigação. Entre os principais fatores apontados estão:
- presença de gelo severo durante o voo;
- falha no sistema de degelo da asa direita;
- emissão de pelo menos oito alertas de baixa velocidade e degradação de desempenho sem a execução dos procedimentos previstos;
- conversas pessoais entre os pilotos, que reduziram a atenção ao monitoramento da aeronave;
- erro na tentativa de recuperação do estol, quando o copiloto puxou o manche em vez de empurrá-lo;
- falhas de manutenção e ausência de registro de panes no diário de bordo;
- cultura de “normalização de desvios”, na qual falhas deixavam de ser registradas para permitir a continuidade das operações;
- deficiência nos processos de gerenciamento de risco e fiscalização da Anac.
O relatório também informa que a aeronave entrou em parafuso chato antes do impacto, completando cinco rotações durante a queda. A velocidade de descida chegou a aproximadamente 14 mil pés por minuto, equivalente a cerca de quatro quilômetros por minuto.
Aeronave não deveria ter decolado
O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado do Cenipa, declarou que a aeronave apresentava dez itens com falhas antes da decolagem. “Não poderia ter sido despachado a aeronave nesse horário em virtude da falha no limpador de para-brisa”, salienta Fróes.
“A aeronave não poderia ter previsão de decolagem se houvesse previsão de chuva uma hora antes e uma hora depois após a previsão da decolagem. Isso também valia para o horário estimado de pouso para a decolagem de destino ou na localidade da alternativa”, acrescenta o tenente-coronel.
Além das condições operacionais, o Cenipa verificou que a tripulação demorou a reconhecer a degradação do desempenho causada pelo gelo e não executou, em tempo adequado, os procedimentos previstos pelo fabricante para abandonar a área de formação severa de gelo e manter a velocidade mínima de segurança. O relatório ressalta, contudo, que os pilotos possuíam habilitação e treinamento específicos para esse tipo de operação.
Recomendações à ATR e à Anac
O relatório apresenta quatro recomendações à European Union Aviation Safety Agency (EASA), para encaminhamento à fabricante ATR. Entre elas estão:
- revisão dos alertas de desempenho degradado para exigir resposta imediata dos pilotos;
- aprimoramento dos procedimentos para operação em condições de gelo;
- ampliação dos dados registrados pela caixa-preta, incluindo informações sobre o sistema de degelo e comandos dos pilotos;
- revisão do sistema de monitoramento de desempenho da aeronave para ampliar a consciência situacional da tripulação.
À Anac, o Cenipa recomendou:
- verificar se todas as empresas que operam aeronaves ATR no Brasil incluíram em seus manuais os procedimentos atualizados de ajuste de velocidade;
- revisar os processos de comunicação entre aeronaves e equipes de solo;
- aprimorar os processos internos de fiscalização;
- divulgar os resultados da investigação às companhias aéreas;
- acompanhar a implementação das recomendações pela autoridade europeia.
O relatório também aponta que auditorias realizadas pela Anac antes do acidente identificaram não conformidades relacionadas à manutenção das aeronaves da Voepass, à rastreabilidade de componentes e ao registro de panes. Entretanto, segundo a investigação, essas informações não resultaram em medidas capazes de mitigar os riscos identificados.
Em nota, a Anac informou que realizará análise técnica das conclusões e das recomendações no prazo de até 120 dias.
Voepass se manifesta
Em nota, após divulgação do relatório do Cenipa, a Voepass afirmou que o acidente foi “o episódio mais difícil da história” da companhia e reiterou solidariedade às famílias das vítimas.
Leia a nota na íntegra:
“A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.
A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário”.
Relembre o acidente
O voo 2283 da Voepass caiu em 9 de agosto de 2024 durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo, entre elas 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram.
Após o acidente, o Cenipa iniciou a investigação técnica para identificar fatores contribuintes e propor medidas preventivas, enquanto a Polícia Federal abriu inquérito para apurar eventual responsabilização criminal.
Em março de 2025, a Anac suspendeu as operações da Voepass e, três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a realização de voos comerciais. O relatório final do Cenipa reúne recomendações destinadas ao aprimoramento da segurança operacional e não tem finalidade de atribuição de culpa ou responsabilização criminal.







