As OTA’s não são concorrentes dos agentes de viagens

Flávia Coradi
Flávia Coradi
Empreendendo e inovando no Turismo há 22 anos, fundadora da Protur.

Existe uma distorção perigosa no Turismo quando se tenta colocar OTA’s e agentes de viagens no mesmo ringue de competição direta. Essa comparação, além de simplista, ignora a essência de cada modelo de atuação.

Uma boa forma de entender isso é pensar em alimentação. Uma rede de fast food e uma hamburgueria artesanal vendem hambúrgueres. O fast food foi criado para oferecer velocidade, padronização, escala e conveniência. Já a hamburgueria artesanal entrega personalização, atendimento, recomendação e uma experiência construída de forma mais próxima ao cliente. Ninguém espera a mesma experiência dos dois modelos.

No Turismo, acontece exatamente a mesma coisa. As OTA’s são plataformas digitais de distribuição em escala. Foram desenhadas para oferecer autonomia ao cliente final, com foco em volume, automação, disponibilidade e preço competitivo. Elas cumprem muito bem o papel de canal tecnológico de reservas. Já o agente de viagens atua em outra camada da jornada: a da consultoria, da curadoria e da responsabilidade sobre a experiência.

O erro começa quando o mercado tenta transformar o agente em um “concorrente de tarifa”. Isso não apenas distorce o posicionamento da atividade, como reduz seu valor percebido a uma variável que não representa sua principal entrega.

O cliente que compra exclusivamente por preço pode, sim, finalizar uma reserva em uma OTA. Mas o cliente que compra uma viagem completa não está adquirindo apenas um produto. Está comprando orientação, planejamento, segurança e suporte em todas as etapas da jornada. E é exatamente aí que o agente se torna indispensável.

O Turismo não é um ambiente previsível. Mudanças de voo, overbookings, ajustes de hotelaria, regras de documentação e imprevistos operacionais fazem parte da rotina do setor. Quando isso acontece, não é a plataforma que responde com contexto. É o agente que assume a linha de frente.

OTA’s não eliminam o agente de viagens. Elas estruturam o acesso. Agentes não competem com OTA’s. Eles interpretam o acesso. Enquanto a OTA organiza o inventário, o agente organiza decisões. Enquanto a OTA otimiza buscas, o agente otimiza experiências. Enquanto a OTA escala transações, o agente escala confiança.

Mas existe um ponto que precisa ser dito: esse diferencial só existe quando o agente está preparado para entregá-lo. Não basta afirmar que oferece atendimento personalizado. É preciso ter conhecimento, capacitação e domínio dos produtos que vende.

O mercado mudou. O cliente tem acesso à informação, pesquisa destinos, compara preços e chega cada vez mais informado. Nesse cenário, o agente que apenas replica informações disponíveis na internet corre o risco de ser comparado diretamente a uma plataforma.

Por outro lado, o agente que investe em capacitação contínua, conhece profundamente os destinos, entende as necessidades do passageiro e sabe orientar decisões complexas cria algo que nenhuma plataforma consegue automatizar: confiança.

O verdadeiro diferencial está no conhecimento que possui, na segurança que transmite e na capacidade de transformar informação em orientação. A tentativa de competir diretamente com plataformas globais por preço coloca o agente em um jogo em que a margem é sempre pressionada e o valor, constantemente invisibilizado. Isso não é uma estratégia sustentável. É desgaste operacional.

O futuro do Turismo não está na disputa entre canais, mas na compreensão clara de seus papéis.

 

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