Etnoturismo no coração do Mato Grosso

Projeto desenvolvido pelo povo Haliti-Paresi, em Tangará da Serra (MT), propõe uma imersão que vai além da visitação convencional

Felipe Lima
Felipe Lima
Chefe de Redação - E-mail: felipe@brasilturis.com.br

Durante muito tempo, visitar uma aldeia indígena significava assistir, à distância, a apresentações culturais previamente organizadas para turistas. Em muitos casos, o contato limitava-se a algumas horas de convivência, uma demonstração de dança, a venda de artesanato e o retorno para hotéis instalados nas cidades vizinhas. Nos últimos anos, porém, esse modelo começou a dar lugar a uma nova forma de turismo, baseada na convivência, no intercâmbio cultural e no protagonismo das próprias comunidades. 

É nesse contexto que surge uma das iniciativas mais estruturadas de etnoturismo em operação no País. Desenvolvido em parceria entre a comunidade Haliti-Paresi, a Vivalá Turismo Sustentável e o Instituto Bancorbrás, o projeto transforma a visita às aldeias em uma experiência de intercâmbio cultural, em que os próprios indígenas assumem o protagonismo da operação turística, da condução das atividades e da transmissão de seus conhecimentos. A iniciativa alia geração de renda, valorização cultural e conservação ambiental, tornando-se uma referência para o turismo de base comunitária no Brasil.

A aproximadamente 250 quilômetros de Cuiabá, no município de Tangará da Serra, a Terra Indígena Paresi recebe grupos reduzidos de visitantes para uma experiência que não se resume à observação da cultura local. Ao contrário, o roteiro foi estruturado para que o turista participe do cotidiano da comunidade, compartilhe refeições, percorra trilhas conduzidas pelos próprios indígenas, conheça histórias transmitidas oralmente entre gerações e descubra como os conhecimentos ancestrais continuam presentes na vida contemporânea daquele povo. 

O roteiro acontece nas aldeias Kakyalarekwa e Serra Dourada, onde os visitantes permanecem durante toda a programação. É neste cenário que as comunidades se transformam em espaços de aprendizado. Não existem apresentações encenadas exclusivamente para quem chega de fora. As atividades fazem parte de um conjunto de experiências pensado para apresentar aspectos da cultura Haliti-Paresi de forma respeitosa e participativa, permitindo que cada visitante compreenda, aos poucos, como funciona a dinâmica da vida comunitária.

Logo na chegada: “Jikyaka“. A expressão Aruak, utilizada para dar as boas-vindas, marca o início de uma imersão em que o visitante deixa de ser tratado como espectador. A hospitalidade é um dos elementos mais evidentes desde os primeiros minutos na aldeia. Crianças circulam livremente entre as casas, famílias seguem suas atividades diárias e os guias indígenas apresentam o território sem pressa, explicando que o principal objetivo da visita não é mostrar uma cultura preservada em um passado distante, mas compartilhar uma forma de viver que continua em constante transformação, sem perder sua essência.

Essa mudança de perspectiva também altera a forma como o turismo é compreendido. Em vez de consumir uma experiência pronta, o visitante é convidado a participar dela. O resultado é uma convivência mais próxima, baseada no diálogo e na troca de conhecimentos. Durante os dias de permanência na aldeia, as diferenças culturais deixam de ser barreiras para se tornarem ponto de partida para conversas sobre território, educação, espiritualidade, preservação ambiental e organização comunitária.

A cultura que se aprende brincando

Entre as primeiras atividades propostas pela comunidade estão as brincadeiras tradicionais. À primeira vista, elas podem parecer apenas momentos de descontração, especialmente porque costumam reunir crianças, jovens e adultos em torno de desafios coletivos. No entanto, cada jogo carrega significados que ultrapassam o entretenimento.

As atividades apresentam habilidades valorizadas historicamente pelo povo Haliti-Paresi, como coordenação motora, resistência física, concentração, cooperação e respeito às regras coletivas. Em vez de assistir a demonstrações, os visitantes participam das brincadeiras, (como peteca, cabeçobol e arco e flecha) ao lado dos moradores da aldeia, aprendendo os movimentos, compreendendo suas origens e, principalmente, experimentando uma interação que acontece de forma espontânea.

É comum que, além dos líderes da aldeia, as crianças também assumam o papel de instrutoras com correções de movimentos, explicação de regras e incentivo a quem participa pela primeira vez. A inversão de papéis provoca uma mudança significativa na dinâmica da visita. O turista deixa de ocupar a posição de quem observa para assumir a de aprendiz, criando um ambiente em que o conhecimento circula naturalmente entre diferentes gerações e culturas.

A experiência também revela como atividades aparentemente simples desempenham papel importante na preservação da identidade cultural. Em um cenário de rápidas transformações sociais, manter vivas essas práticas significa fortalecer vínculos comunitários e garantir que os conhecimentos transmitidos entre gerações continuem fazendo parte do cotidiano das novas gerações.

A natureza como protagonista da experiência

É na relação entre os indígenas e o território que o visitante começa a compreender a dimensão do conhecimento acumulado por esse povo ao longo de séculos. A programação inclui caminhadas por áreas preservadas, mas classificá-las simplesmente como trilhas ecológicas seria reduzir o alcance da experiência. Cada percurso é conduzido por indígenas que transformam a floresta em uma sala de aula ao ar livre, onde árvores, ervas, cursos d’água e formações naturais deixam de ser apenas parte da paisagem para revelar funções, significados e histórias.

Ao contrário das caminhadas convencionais em unidades de conservação, em que a atenção costuma estar voltada para a observação da fauna e da flora, os roteiros realizados nas aldeias Haliti-Paresi procuram apresentar o território a partir da perspectiva de quem o habita há gerações. O ritmo é lento, permitindo que cada parada se transforme em uma oportunidade de aprendizado.

As ervas medicinais ocupam lugar de destaque durante o percurso. Algumas são utilizadas para aliviar dores e inflamações, outras ajudam no tratamento de problemas respiratórios e digestivos, enquanto determinadas espécies possuem aplicações específicas na alimentação, na construção das habitações ou na produção de utensílios e artesanato. Desta forma, os guias explicam como esse conhecimento foi sendo transmitido entre gerações e permanece integrado ao cotidiano da comunidade.

O visitante percebe rapidamente que a floresta não representa apenas um recurso natural. Ela é parte da própria identidade do povo. Cada espécie possui um papel dentro de um sistema de conhecimentos que combina observação, experiência prática e tradição oral. Em muitos momentos, a conversa deixa de tratar exclusivamente das plantas para abordar a maneira como os indígenas compreendem a relação entre ser humano e natureza, um conceito bastante diferente daquele predominante nos centros urbanos.

Essa visão também aparece nas histórias compartilhadas durante o percurso. Determinados locais carregam narrativas que ajudam a explicar a origem de animais, rios e elementos da paisagem. Outros representam espaços de importância espiritual para a comunidade. Assim, a caminhada ganha uma dimensão cultural que ultrapassa o aspecto ambiental, permitindo ao visitante compreender que o território indígena é também um território de memória.

Os trajetos são considerados de baixa dificuldade, com percursos que chegam a aproximadamente cinco quilômetros, tornando a atividade acessível para pessoas com diferentes níveis de preparo físico. Ainda assim, o deslocamento exige atenção ao clima característico da região. As altas temperaturas registradas durante o dia tornam indispensáveis o uso de roupas leves, chapéu, protetor solar e hidratação constante, recomendações que fazem parte da preparação dos participantes antes mesmo do início da expedição.

Entre rios de águas transparentes

O calor típico mato-grossense encontra alívio nas águas que cortam o território Haliti-Paresi. Ao longo da programação, os visitantes têm a oportunidade de conhecer rios de águas cristalinas que se transformam em espaços de contemplação e lazer, sempre acompanhados pelos anfitriões da comunidade.

Mais do que um momento de descanso após as caminhadas, o banho de rio representa outra oportunidade para compreender a relação dos indígenas com o ambiente natural. A água ocupa papel central na organização do território, no abastecimento das aldeias e nas histórias que fazem parte da tradição oral. Durante as conversas, os visitantes descobrem que muitos desses cursos d’água também aparecem em narrativas ancestrais que ajudam a explicar a origem da paisagem e dos próprios povos que habitam a região.

Entre os cenários mais marcantes da experiência está uma lagoa cuja formação lembra o desenho de um coração. Cercada pela vegetação típica do Cerrado, ela se tornou um dos cartões-postais do roteiro e costuma surpreender pela transparência da água e pelo contraste entre os tons de verde da mata e o azul refletido no espelho d’água.

Apesar do forte apelo visual, os próprios guias procuram conduzir a visita para além das fotografias. O objetivo é estimular a contemplação e a interação com o ambiente e reforçar a importância da preservação daquele ecossistema, que faz parte do território tradicional dos Haliti-Paresi. A experiência, nesse sentido, acompanha uma tendência crescente do turismo de natureza, em que o contato com ambientes preservados está diretamente associado à educação ambiental e ao respeito pelos modos de vida das comunidades locais.

A simplicidade como forma de hospitalidade

Outro aspecto que costuma surpreender os visitantes é a hospedagem. Diferentemente do que ocorre em empreendimentos voltados ao turismo convencional, a proposta não busca reproduzir o conforto de um hotel dentro da aldeia. O objetivo é proporcionar uma experiência compatível com a rotina da comunidade, preservando o equilíbrio entre acolhimento e autenticidade.

Os participantes passam a noite em barracas montadas dentro das hatis (construções circulares cobertas por palha que caracterizam a arquitetura tradicional Haliti-Paresi), equipadas com colchão inflável, saco de dormir e cobertores. Embora simples, a estrutura oferece as condições necessárias para o descanso durante a permanência na aldeia. A organização da expedição orienta os visitantes a levarem roupas adequadas tanto para o calor intenso registrado durante o dia quanto para as baixas temperaturas que podem ocorrer durante a madrugada.

A mudança de temperatura surpreende quem associa o Mato Grosso apenas ao calor constante. Por isso, além das roupas leves utilizadas nas atividades diurnas, a lista de equipamentos recomendados inclui casacos, agasalhos e pijamas apropriados para as noites mais frias. A preparação faz parte da própria experiência, reforçando a necessidade de adaptação às condições naturais do território.

As refeições, por sua vez, são preparadas pela própria comunidade e seguem o padrão da culinária cotidiana das famílias locais. Arroz, feijão, carnes, peixes, frango, legumes, verduras, frutas e sucos compõem um cardápio caseiro, servido em ambiente coletivo e pensado para atender às necessidades dos grupos durante toda a programação.

Esses momentos funcionam como espaços de convivência. É ao redor da mesa que muitas conversas acontecem de maneira espontânea, permitindo aos visitantes conhecer detalhes sobre o cotidiano da aldeia, a organização das famílias, as atividades produtivas e as mudanças observadas pela comunidade ao longo dos últimos anos. O convite é para compartilhar, ainda que por poucos dias, a vida como ela acontece na aldeia.

Histórias que atravessam gerações

Ao fim do dia, quando o calor intenso começa a diminuir, as atividades se concentram nas hatis. É nesse ambiente que um dos aspectos mais importantes da cultura indígena ganha protagonismo: a oralidade.

Sentados em círculo, visitantes acompanham narrativas transmitidas há gerações pelos anciãos da comunidade. Diferentemente das sociedades que registram grande parte de sua história em livros e documentos escritos, entre muitos povos indígenas a memória coletiva continua sendo preservada por meio da palavra.

As histórias abordam a origem do povo Haliti-Paresi, a criação dos rios, dos animais, da floresta e dos elementos naturais que compõem o território. Mais do que explicar acontecimentos, essas narrativas apresentam valores, formas de organização social e maneiras de compreender a relação entre o ser humano e a natureza. O objetivo? Fazer com que todo esse conhecimento seja repassado e, sobretudo, nunca seja esquecido.

É justamente essa dimensão que diferencia a experiência de uma simples visita cultural. O visitante não recebe apenas informações sobre os Haliti-Paresi. Ele passa a compreender como esse conhecimento é construído, compartilhado e preservado ao longo do tempo.

Essa programação pode ganhar um cenário ainda mais aconchegante ao redor da fogueira, onde novas conversas acontecem de forma espontânea. Sem roteiros rígidos ou apresentações formais, indígenas e visitantes compartilham experiências enquanto o fogo ilumina o centro da aldeia. O ambiente favorece perguntas, troca de histórias e reflexões sobre temas que vão desde os desafios enfrentados pelos povos originários até as transformações vividas pelas comunidades nas últimas décadas.

Nesse momento, muitos visitantes compreendem que o principal diferencial da experiência não está nas atividades em si, mas na oportunidade de estabelecer uma convivência genuína, ainda que por poucos dias, com uma realidade pouco conhecida pela maioria dos brasileiros. Para tamanha grandiosidade de uma experiência que surpreende os mais distintos perfis de público, só resta agradecer. Em Aruak, Ehekore!

18 anos em prol do turismo comunitário

Os avanços do projeto de etnoturismo Haliti-Paresi também refletem uma rede de parcerias construída para garantir que a atividade turística gere impactos positivos para as comunidades envolvidas. Entre os principais apoiadores da iniciativa está o Instituto Bancorbrás, braço de investimento social do Grupo Bancorbrás, que completou 18 anos de atuação em julho, consolidando uma estratégia voltada ao desenvolvimento de territórios por meio do turismo responsável, do fortalecimento de organizações sociais e do protagonismo comunitário.

Criado em 2008, o Instituto vem ampliando sua atuação em iniciativas que utilizam o turismo como ferramenta de transformação social, apoiando projetos que unem geração de renda, valorização cultural e conservação ambiental. A parceria com a Vivalá Turismo Sustentável e o povo Haliti-Paresi é um exemplo dessa estratégia, ao contribuir para a estruturação de um modelo de turismo de base comunitária em que os próprios indígenas conduzem as experiências e permanecem como protagonistas da atividade.

Segundo Roberta Abreu, gerente executiva do instituto, o Instituto também vem direcionando esforços para a capacitação de profissionais do setor, o fortalecimento de pequenos empreendedores e o desenvolvimento de iniciativas que ampliem o impacto social do turismo. Entre elas está o Capacita Bancorbrás, programa voltado à formação de guias de turismo cadastrados no Cadastur, além de projetos desenvolvidos em parceria com o Sebrae para incentivar o empreendedorismo em destinos brasileiros.

Ao celebrar a maioridade institucional, o Instituto também apresentou uma nova identidade visual, inspirada na ideia de transformação e continuidade, e reforçou seu compromisso com um modelo de atuação baseado na colaboração entre comunidades, organizações sociais, empresas e poder público. 

“O Turismo não é o fim, mas pode ser um meio de transformação social”, resume Roberta, ao destacar que iniciativas como a desenvolvida junto aos Haliti-Paresi demonstram o potencial da atividade para preservar identidades culturais, gerar oportunidades econômicas e promover o desenvolvimento sustentável dos territórios.

Para os próximos anos, o Instituto pretende ampliar o apoio a projetos que fortaleçam o protagonismo das comunidades locais, incentivando modelos em que os próprios moradores participem das decisões sobre o desenvolvimento turístico de seus territórios e da construção de soluções alinhadas às suas necessidades e vocações. Nesse contexto, experiências como a dos Haliti-Paresi representam não apenas um roteiro turístico diferenciado, mas um exemplo de como a cooperação entre iniciativa privada, organizações sociais e comunidades pode transformar o turismo em uma ferramenta efetiva de inclusão e desenvolvimento.

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