Navios avançam na descarbonização, mas os portos acompanham esse ritmo?

Relatório da Clia aponta avanço de combustíveis alternativos, tratamento de águas residuais e eficiência, mas infraestrutura portuária ainda limita ganhos

Kamilla Alves
Kamilla Alves
Gestora Web - E-mail: milla@brasilturis.com.br

A indústria global de cruzeiros ampliou a adoção de tecnologias ambientais nos últimos anos, com avanços em conexão elétrica nos portos, flexibilidade de combustíveis, eficiência energética e tratamento de águas residuais. Os dados fazem parte do relatório Environmental Technologies and Practices (ETP) 2026, divulgado nesta quarta-feira (16) pela Cruise Lines International Association (Clia).

Um dos principais avanços está na capacidade de conexão dos navios à energia elétrica em terra, conhecida como Onshore Power Supply (OPS). O número de embarcações das companhias associadas à Clia equipadas com a tecnologia passou de 55, em 2018, para 193 atualmente, mais que triplicando no período.

Esses navios representam 65% das embarcações consideradas no indicador e 72,5% da capacidade reportada. Além disso, 47 unidades deverão receber a tecnologia por retrofit e outras 39 novas embarcações já estão previstas com o sistema.

O OPS permite desligar os motores enquanto o navio permanece atracado, desde que o porto tenha infraestrutura compatível. Nesse ponto, porém, existe um descompasso: apenas 40 portos no mundo onde cruzeiros fazem escala, menos de 3% do total, possuem ao menos um berço equipado com OPS.

Combustíveis ganham espaço na transição

O relatório também aponta uma redução da participação do óleo combustível pesado (HFO). Dados reportados à Organização Marítima Internacional (IMO) mostram que o combustível representava 74,2% do consumo informado pelos navios de passageiros em 2019. Em 2024, a participação caiu para 60,6%.

No sentido contrário, combustíveis não classificados como HFO passaram de 25,8% para 39,4%. O grupo inclui diesel e gasóleo marítimos, combustíveis com menor teor de enxofre, GNL e outras alternativas reportadas. No levantamento da própria Clia, os não-HFO alcançaram 40,3% do consumo das companhias associadas em 2025.

A flexibilidade dos motores também avançou. Em 2018, apenas um navio da frota associada à entidade possuía motor multifuel enquadrado no indicador. Atualmente são 30 embarcações. A projeção chega a 56 em 2030 e 69 até 2039, considerando a carteira de encomendas de agosto.

Na Europa, a Clia analisou dados verificados da base EU THETIS-MRV. Entre 2018 e 2025, o consumo médio de combustível por navio reportado caiu cerca de 18,5%, enquanto as emissões médias de CO₂ por embarcação recuaram aproximadamente 19,4%.

“Os dados mostram, ano após ano, que as companhias continuam investindo em tecnologias, combustíveis e capacidades operacionais que tornam a frota global mais eficiente”, afirma Bud Darr, presidente e CEO da Clia.

Água e resíduos também entram nos investimentos

O relatório mostra que 293 navios, equivalentes a 98,7% das embarcações reportadas, conseguem produzir água doce a bordo. Desse grupo, 218 possuem capacidade para produzir teoricamente 100% de suas necessidades, reduzindo a dependência do abastecimento nos destinos.

No tratamento de águas residuais, 249 navios possuem sistemas avançados, os chamados AWTS. O número era de 136 em 2018. Atualmente, a tecnologia está presente em 83,8% das embarcações reportadas e representa 86,2% da capacidade analisada.

A gestão de resíduos apresenta outros movimentos. Digestores microbianos para resíduos alimentares estão presentes em 137 navios, ante 103 em 2022. Já sistemas de gaseificação capazes de transformar resíduos em energia permanecem menos disseminados e aparecem em sete embarcações.

O levantamento de 2026 considera tecnologias instaladas nos navios em operação ao longo de 2025. A amostra reúne 297 embarcações oceânicas, equivalentes a 98% da capacidade global das companhias associadas naquele ano. Atualmente, as 45 companhias oceânicas membros da Clia operam 327 navios e aproximadamente 692 mil leitos inferiores.

Para a entidade, a evolução tecnológica dos navios precisa ser acompanhada por investimentos fora das embarcações. A disponibilidade em escala de combustíveis renováveis e de menor emissão, além da expansão da infraestrutura energética nos portos, será necessária para ampliar o potencial das tecnologias já incorporadas pela frota.

LEIA MAIS NOTÍCIAS

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, 
necessariamente, a opinião deste jornal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

MAIS LIDAS

NEWSLETTER

    AGENDA 2026

    REDES SOCIAIS

    PARCEIROS