A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 no Senado Federal, na quarta-feira (14), colocou em evidência os desafios de adaptação das empresas brasileiras às possíveis mudanças na jornada de trabalho. No turismo, setor marcado pela necessidade de atendimento contínuo e pela dificuldade de contratação de profissionais, a discussão envolve a reorganização das equipes, o aumento potencial dos custos operacionais e a preservação da qualidade dos serviços.
A hotelaria está entre os segmentos mais diretamente afetados por uma eventual alteração na legislação, já que grande parte dos empreendimentos mantém operações durante 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. Algumas companhias, entretanto, já iniciaram experiências com jornadas alternativas, em busca de melhores condições de trabalho e maior capacidade de retenção de funcionários.
Com 38 anos de atuação, presença em 18 estados e 108 propriedades administradas, a Atrio Hotel Management mantém um programa de gestão de pessoas que contempla remuneração, benefícios, condições de trabalho e estratégias de atração de talentos. A possibilidade de substituir a escala 6×1 já vinha sendo analisada pela administradora, que iniciou um projeto-piloto em dois hotéis de seu portfólio.
“Essa era uma decisão esperada e que, sem dúvida, traz impactos para o setor. Afinal, a hotelaria, como atividade essencialmente prestadora de serviços, depende de pessoas, e tudo o que impacta essa dimensão tem repercussão direta no negócio”, afirma Paulo Melega, vice-presidente da empresa.
Segundo o executivo, as principais dificuldades deverão ocorrer durante a fase inicial de adaptação. “Nos médio e longo prazos, algumas questões que hoje representam aumento direto de custos poderão ser amenizadas com o uso de tecnologia e aumento de produtividade”, diz.
A Atrio avalia que os impactos não serão uniformes, pois dependem do porte, das características operacionais e da sazonalidade de cada empreendimento. Entre os principais desafios estão a necessidade de reorganizar as escalas para acomodar mais folgas e a proposta de redução da jornada semanal de 44 para 42 horas, com previsão de alcançar 40 horas em dois anos.
“As duas mudanças pressionam os custos com mão de obra, pois exigem um número maior de pessoas para garantir a cobertura das escalas de trabalho. Como se trata da principal linha de custo operacional de um hotel, o impacto é relevante”, avalia Paulo Melega.
Custos operacionais e produtividade
Para Danila Bernardi, sócia-diretora da área de terceirização de processos financeiros da Athros Auditoria e Consultoria, a discussão exige equilíbrio entre os benefícios proporcionados aos trabalhadores e a capacidade das empresas de absorver os efeitos econômicos da redução da jornada.
“Os impactos serão diferentes conforme o setor. Empresas que operam sete dias por semana, como hotéis, restaurantes, hospitais e parte do comércio, precisarão avaliar cuidadosamente suas escalas. A redução da jornada sem diminuição salarial pode exigir novas contratações e elevar o custo da folha. Dependendo da atividade e das margens do negócio, parte desses custos poderá ser repassada aos preços. É uma transição que exige planejamento e análise individualizada”, avalia Danila.
A especialista também destaca o papel da tecnologia na reorganização das operações. Embora ferramentas de automação possam contribuir para compensar a diminuição das horas trabalhadas, os resultados dependerão das características de cada atividade. A adoção dessas soluções também poderá modificar o perfil das funções e a quantidade de profissionais necessários em determinados processos.
No Grupo Schultz, que completa quatro décadas de atuação no turismo, a escala 5×2 já faz parte da rotina da maioria dos colaboradores. A exceção envolve profissionais responsáveis pelo plantão comercial aos sábados, organizado em sistema de rodízio.
“Nosso time jurídico está finalizando um plano de ação que orientará os próximos passos, mas o fato é que acreditamos que a mudança seja positiva para os colaboradores e para a empresa”, diz Ana Santana, diretora-geral do Grupo.
Hotel em São Paulo reduz rotatividade após adotar escala 5×2
Uma experiência prática de reorganização das jornadas ocorre no Tryp by Wyndham São Paulo Paraíso, empreendimento com 263 apartamentos na capital paulista. Em fevereiro de 2024, o hotel substituiu a escala tradicional pelo modelo 5×2 em todos os departamentos, medida que atualmente contempla 49 colaboradores.
Após mais de dois anos de implementação, a administração identificou uma redução expressiva na rotatividade de funcionários. O índice anual de turnover passou de 6% para 2,5%, queda relativa de aproximadamente 58%. Em contrapartida, a mudança representou um acréscimo de cerca de 10% na folha de pagamento.
De acordo com Patrícia Garcia, gerente-geral do empreendimento, a adoção da nova jornada foi incorporada à política de gestão de pessoas, com atenção à qualidade de vida dos colaboradores e à necessidade de tornar a hotelaria mais atrativa para profissionais qualificados.
“Quando decidimos adotar a escala 5×2, sabíamos que haveria um impacto financeiro e que precisaríamos reorganizar a operação. Mas também entendíamos que a dificuldade de atrair e reter profissionais era um dos grandes desafios da hotelaria. Hoje, com a redução do turnover anual de 6% para 2,5%, temos um indicador concreto de que investir na qualidade de vida das equipes pode trazer benefícios para o negócio. O custo precisa ser considerado, mas não pode ser analisado isoladamente dos ganhos em estabilidade, engajamento e qualidade do atendimento”, afirma Bruno Guimarães.
Além da diminuição da rotatividade, a administração do hotel identificou avanços nos indicadores de satisfação dos hóspedes, associados à melhoria da qualidade do atendimento. O resultado sugere que, embora a reorganização das jornadas implique despesas adicionais, os benefícios relacionados à estabilidade das equipes e à experiência dos clientes também precisam integrar a avaliação financeira dos empreendimentos.









