Existe uma contradição interessante no marketing dentro do Turismo: nunca tivemos tanta informação sobre o consumidor e, ainda assim, nunca foi tão comum oferecer praticamente a mesma coisa para todo mundo. “Conheça o paraíso”, “viva experiências inesquecíveis”, “pacote imperdível”, “até 10 vezes sem juros”. Mudam o destino, a foto e o preço, mas a lógica continua quase sempre a mesma.
O problema é que o viajante mudou. Ele pesquisa, compara, acompanha criadores, consulta avaliações e começa até a pedir ajuda para IA antes de decidir. A tecnologia tornou a informação abundante e, quando a informação deixa de ser escassa, ela também deixa de ser diferencial. Mesmo assim, boa parte do marketing continua tentando fazer a mesma coisa: colocar mais uma oferta na frente do consumidor.
Talvez esteja na hora de admitir que estamos ficando bons demais em vender aquilo que ninguém pediu. Uma pessoa não acorda pensando que precisa de sete noites em um hotel quatro estrelas. Ela quer descansar, comemorar alguma coisa, conhecer alguém, fugir da rotina ou proporcionar aos filhos uma experiência que eles vão lembrar por muitos anos. O hotel, o voo e o destino são meios para chegar a esse desejo. O marketing deveria começar justamente por aí.
A personalização também precisa deixar de ser confundida com colocar o primeiro nome do consumidor em um e-mail. Duas pessoas podem comprar a mesma passagem para Salvador e estar comprando viagens completamente diferentes. Uma quer praia e descanso; outra quer gastronomia, música e vida noturna; uma terceira pode estar viajando para reencontrar a família. O destino é o mesmo, mas o significado não.
A inteligência artificial torna essa contradição ainda mais evidente. Hoje conseguimos produzir campanhas, imagens, vídeos e ofertas em poucos minutos, mas também reproduzimos mais rapidamente a mesma comunicação de sempre. Destinos, hotéis e agências repetem natureza, gastronomia, hospitalidade, preço e “experiências inesquecíveis” até transformarem o Turismo em uma grande vitrine de coisas parecidas. Se todos dizem que são únicos, ninguém é.
A IA pode acelerar a comunicação, mas não cria diferenciação. E, em um mercado cada vez mais parecido, ser realmente diferente deixa de ser escolha e passa a ser estratégia. Se a IA pode fazer todo mundo falar mais, o marketing precisa descobrir quem merece ser ouvido.
O marketing precisa, portanto, mudar a pergunta. Em vez de “como vender mais?”, talvez seja mais estratégico perguntar “o que temos de relevante para dizer?”. Um hotel pode vender tranquilidade em vez de diária. Uma agência pode construir autoridade em um tipo específico de viagem. Um destino pode deixar de comunicar apenas seus atrativos e começar a construir uma personalidade própria.
O sucesso do negócio não será definido por quem produzir mais conteúdo, comprar mais mídia ou gerar mais ofertas com IA. Será de quem conseguir transformar informação em relevância e oferta em preferência. Porque, quando todos podem aparecer e vender praticamente as mesmas coisas, a vantagem passa a estar justamente em saber o que não oferecer.
O Turismo não precisa de mais ofertas. Precisa de marcas que entendam o que as pessoas realmente estão procurando.









