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Alta do combustível pressiona custos de companhias aéreas e turismo

Analistas apontam impacto também em cruzeiros e operadoras turísticas, com possibilidade de sobretaxas de combustível

Matheus Alves
Matheus Alves
Repórter - E-mail: matheus@brasilturis.com.br

A escalada do conflito envolvendo o Irã provocou aumento expressivo no preço do combustível de aviação, pressionando os custos de companhias aéreas e de outros segmentos do turismo. Analistas do setor avaliam que a alta pode reduzir lucros das empresas e levar a reajustes nas tarifas.

Dez dias após o início da guerra, o preço do querosene de aviação nos Estados Unidos registrava aumento médio de 45%, equivalente a US$ 1,17 adicional por galão, segundo o índice Argus U.S. jet fuel. O combustível representa cerca de um quarto dos custos operacionais das companhias aéreas, o que tende a afetar os resultados financeiros já no curto prazo, especialmente porque a elevação não estava incorporada aos bilhetes vendidos antes do início do conflito, em 28 de fevereiro.

O impacto ao longo dos próximos meses dependerá da duração da guerra e da situação do Estreito de Ormuz. Aproximadamente 20% do petróleo comercializado globalmente passa pela rota marítima, de acordo com a U.S. Energy Information Administration.

Em relatório a investidores, o analista financeiro Michael Linenberg, do Deutsche Bank, estimou que um aumento médio de US$ 10 nas tarifas poderia compensar cerca de US$ 8 bilhões em custos adicionais de combustível. Ainda assim, ele avalia que os lucros previstos para o setor aéreo em 2026 podem ser eliminados caso os preços elevados persistam.

Segundo o analista, companhias com desempenho financeiro mais frágil, como American Airlines, JetBlue Airways e Frontier Airlines, tendem a sofrer maior impacto nas margens operacionais.

“Na ausência de alívio no curto prazo, companhias aéreas ao redor do mundo podem ser forçadas a retirar milhares de aeronaves de operação, enquanto algumas das empresas financeiramente mais frágeis do setor podem interromper atividades”, escreveu Linenberg.

Em entrevista posterior, ele afirmou que as empresas podem antecipar a aposentadoria de aeronaves mais antigas e menos eficientes caso os preços do combustível permaneçam elevados, já que algumas rotas podem se tornar economicamente inviáveis.

Entre as empresas em situação mais sensível está a Spirit Airlines, que recentemente anunciou a intenção de concluir seu processo de recuperação judicial entre o fim da primavera e o início do verão no hemisfério norte.

Tarifas e demanda

De acordo com especialistas, companhias aéreas tradicionais tendem a ter maior capacidade de repassar custos aos passageiros, especialmente no segmento corporativo. Já as empresas de baixo custo enfrentam maior dificuldade para elevar tarifas, uma vez que atendem consumidores mais sensíveis a preços.

Algumas empresas internacionais já anunciaram aumentos tarifários para compensar a alta do combustível, entre elas Qantas, Air New Zealand e Scandinavian Airlines.

Para Scott Keyes, fundador do serviço de assinatura de passagens promocionais Going, companhias aéreas dos Estados Unidos devem inicialmente adotar postura de cautela antes de reajustar preços. “Em uma economia de mercado, as companhias aéreas só podem cobrar o que os consumidores estão dispostos a pagar”, afirma.

Ele observa que aumentos tarifários também ocorreram nas duas ocasiões recentes em que os preços do combustível subiram rapidamente: após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e no período que antecedeu a crise financeira global de 2008.

Impactos em cruzeiros e operadores

O aumento do custo de energia também pode afetar empresas de cruzeiros e operadoras de turismo. Diferentemente de muitas companhias aéreas, alguns grupos de cruzeiros utilizam estratégias de hedge para fixar preços de combustível antes de eventuais aumentos.

Entre as empresas que adotam esse mecanismo estão Norwegian Cruise Line Holdings e Royal Caribbean Group. A Viking informou manter contratos de combustível com preço fixo, especialmente para sua frota de cruzeiros fluviais. Já a Carnival Corporation não utiliza hedge, o que a torna mais exposta às oscilações do mercado.

As companhias de cruzeiros também podem recorrer a sobretaxas de combustível nas tarifas diárias, mas a medida pode gerar insatisfação entre passageiros e até cancelamentos de viagens, segundo o analista Chris Woronka, do Deutsche Bank.

Operadoras que dependem de transporte rodoviário turístico também podem enfrentar custos mais altos. Segundo Ryan Sanders, presidente da Trips Unlimited e diretor de operadores da Motor Coach Family of Brands, muitas empresas de transporte incluem cláusulas contratuais que permitem aplicar sobretaxa de combustível quando os preços ultrapassam determinados níveis.

“Diversas empresas de ônibus turísticos incluem provisões em seus termos e condições que permitem a cobrança de sobretaxa de combustível caso os preços superem um determinado patamar”, conclui.

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