Rio de Janeiro (RJ) – Uma mensagem recebida no celular ao entrar em um shopping foi o ponto de partida escolhido por Cadu Coelho para abrir sua palestra durante o A-List Talks, realizado no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Em vez de começar falando sobre leis, contratos ou regulamentações, o advogado empresarial, que deu sequência à apresentação de Cris Bulsoni, preferiu mostrar algo muito mais próximo da realidade dos agentes de viagens: como seus dados pessoais circulam diariamente sem que eles percebam.
“Entrei no shopping e recebi uma mensagem no WhatsApp dizendo que havia ofertas disponíveis para mim. Fui clicando por curiosidade e comecei a perceber quantas empresas estavam envolvidas naquele processo. A pergunta é: como essas empresas sabem quem eu sou?”, provocou.
A partir dessa experiência cotidiana, Coelho conduziu uma apresentação voltada à proteção de dados, segurança da informação e boas práticas empresariais. Segundo ele, a maioria das pessoas ainda associa dados pessoais apenas a informações como CPF, RG ou endereço, quando, na realidade, o conceito é muito mais amplo.
“Os nossos dados somos nós. Não é só CPF ou identidade. São nossos hábitos, nossos gostos, nossos comportamentos, nossa localização e tudo aquilo que permite identificar quem somos”, explicou.
O especialista chamou atenção para o fato de que essas informações se transformaram em um ativo valioso para empresas de tecnologia, plataformas digitais e até criminosos. “Existe muito dinheiro envolvido. Os dados são analisados, agrupados e comercializados. Hoje existe um mercado inteiro construído em torno dessas informações”, relembra.
Ao contextualizar a importância do tema, Coelho lembrou que a proteção de dados ganhou status de direito fundamental no Brasil e passou a integrar a Constituição Federal. Para ele, isso demonstra que o assunto deixou de ser uma preocupação exclusiva de grandes corporações e passou a fazer parte da rotina de qualquer empresa que mantenha relacionamento com clientes.
“O que estamos protegendo não é um documento. Estamos protegendo a privacidade das pessoas. É por isso que esse tema se tornou tão relevante”, reforça o profissional.
Ao direcionar a discussão para a realidade das agências de viagens, o advogado destacou que o setor lida diariamente com um volume expressivo de informações sensíveis. Passaportes, cartões de crédito, documentos de menores de idade, comprovantes financeiros e dados de viagem circulam constantemente entre clientes, fornecedores e equipes comerciais.
“Vamos ser sinceros: quantos de vocês recebem documentos pelo WhatsApp? Quase todos. E aí começa o problema. Com algumas informações já é possível abrir contas, contratar serviços e até aplicar fraudes”, alertou.
Segundo Coelho, um dos principais erros das pequenas e médias empresas é acreditar que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige investimentos complexos ou estruturas robustas de tecnologia. Na prática, muitas vulnerabilidades podem ser reduzidas por meio de procedimentos simples.
“Não deixem dados pessoais armazenados no WhatsApp sem necessidade. Apaguem informações que já cumpriram sua finalidade. Criem processos. Organizem onde esses dados ficam guardados. Segurança da informação começa muito antes da tecnologia”, pontuou.
O palestrante também destacou que a proteção de dados deve ser encarada como uma questão de reputação empresarial. Para ele, multas e processos podem gerar impactos financeiros, mas o dano à imagem costuma ser ainda mais difícil de reparar.
“Dinheiro você consegue medir. A reputação não. Às vezes estamos falando de empresas construídas ao longo de décadas, de negócios familiares, de relacionamentos desenvolvidos durante anos. Um problema de segurança pode comprometer tudo isso”, instigou.
Outro ponto enfatizado durante a apresentação foi a necessidade de treinamento interno. De acordo com Coelho, muitas falhas acontecem não por má-fé, mas pela falta de orientação das equipes.
“Não adianta criar regras se elas não forem aplicadas por todos. Segurança da informação não é responsabilidade apenas do dono da empresa ou do departamento de tecnologia. É uma cultura que precisa envolver toda a equipe”, enfatizou Coelho.
Coelho deixa claro que contratos bem estruturados e políticas claras de tratamento de dados ajudam não apenas a cumprir exigências legais, mas também a trazer mais transparência para a relação com os clientes. “Contrato não é falta de confiança. Contrato é clareza. É segurança para todos os envolvidos. Quando as regras estão bem definidas, todo mundo sabe exatamente quais são seus direitos, deveres e responsabilidades”, complementa.

