São Paulo (SP) – O crescimento global da indústria de cruzeiros marítimos e os desafios para ampliar a competitividade do Brasil dominaram o painel dedicado ao segmento durante o Seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Casa Lide, na capital paulista.
Executivos da MSC Cruzeiros, Costa Cruzeiros e da Associação de Empresas de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil) defenderam investimentos em infraestrutura, redução de custos operacionais e maior coordenação entre setor público e iniciativa privada para evitar que o país perca espaço para outros mercados.
A principal preocupação apresentada pelos participantes foi a diferença de competitividade entre o Brasil e destinos já consolidados. Segundo Dario Rustico, presidente-executivo para as Américas da Costa Cruzeiros, operar um roteiro de sete noites na costa brasileira custa significativamente mais do que em regiões concorrentes.
“Um estudo que encomendei dois anos atrás mostra que operar um roteiro de sete noites no Brasil, competindo com Canárias, Caribe ou Mediterrâneo, é entre 40% e 50% mais caro”, afirma.
De acordo com o executivo, o chamado custo Brasil continua sendo um dos principais entraves para a expansão da oferta de navios no país. Entre os fatores apontados estão taxas portuárias, praticagem, combustível, tributação e incertezas regulatórias.
Rustico destacou que as companhias de cruzeiros competem globalmente pela alocação de embarcações e que os navios são deslocados para mercados considerados mais atrativos do ponto de vista econômico. “Os navios são ativos móveis. Eles vão para onde existe o melhor business case”, disse.
O executivo também criticou a visão de que o Brasil é um mercado exclusivamente sazonal para os cruzeiros. “Não tem temporada no Caribe, na Ásia ou na Europa. Nós temos tudo aqui para ter navios o ano inteiro”, pontua.
Segundo ele, a concentração das operações em poucos meses reduz a atratividade para novos investimentos e limita o potencial de crescimento do setor.
Crescimento global e potencial brasileiro
Antes da discussão sobre os desafios nacionais, Marcos Ferraz, presidente da CLIA Brasil, apresentou um panorama do mercado global de cruzeiros. Segundo ele, a atividade encerrou o último ano com 37,3 milhões de passageiros em todo o mundo e deve ultrapassar 38 milhões ainda em 2026.
A projeção é que o volume global alcance 42 milhões de cruzeiristas até 2029. Apesar desse crescimento, a América do Sul ainda ocupa uma posição modesta no cenário internacional. “Temos 1,2 milhão de cruzeiristas na América do Sul. Quatro em cada dez cruzeiristas do mundo estão no Caribe e um em cada seis está no Mediterrâneo”, declara.
Ferraz destaca ainda a baixa penetração dos cruzeiros no mercado brasileiro. Enquanto cerca de 6% da população dos Estados Unidos realiza uma viagem marítima por ano e a Austrália registra índice de 5,2%, o Brasil apresenta taxa de aproximadamente 0,35%. “Se a gente chegar a 1%, a gente triplica o setor no país”, salienta.
Segundo o executivo, a próxima temporada brasileira deverá movimentar cerca de 830 mil passageiros, ante os 675 mil registrados anteriormente. Somadas as operações de cabotagem e os navios internacionais, a expectativa é que a atividade gere R$ 6 bilhões em impacto econômico e cerca de 93 mil empregos.

Infraestrutura e futuro sustentável
Outro ponto levantado durante o painel foi a necessidade de modernização da infraestrutura portuária brasileira. Rustico aponta que muitos portos nacionais ainda operam compartilhando espaço com cargas e contêineres e não foram projetados para receber os navios mais modernos da indústria.
A preocupação ganha relevância diante das metas globais de sustentabilidade adotadas pelo setor. Segundo ele, uma parcela crescente da frota mundial está sendo preparada para operar com combustíveis alternativos e para utilizar sistemas de fornecimento de energia elétrica em terra.
Na avaliação do executivo, portos que não acompanharem essa transformação correm o risco de perder espaço nas rotas internacionais de cruzeiros.
MSC aposta no potencial do mercado
Representando a MSC Cruzeiros, Adrian Ursilli, diretor-geral da companhia, reforça que a companhia mantém confiança no potencial de crescimento do mercado brasileiro, apesar das dificuldades operacionais.
Segundo o executivo, a atividade exerce um papel importante na retenção de turistas dentro do país por meio da cabotagem. “Através da operação de cabotagem, conseguimos reter o turista dentro do território nacional. Embarcando em Santos, Itajaí ou Paranaguá, ele viaja pelo Nordeste e Sudeste consumindo e fazendo investimentos diretos nesses destinos”, afirma.
Ursilli destacou ainda o papel dos cruzeiros na promoção dos destinos brasileiros. Segundo ele, muitos passageiros conhecem cidades durante as escalas e posteriormente retornam para estadias mais longas. “O hóspede sai satisfeito da escala e diz: ‘Eu quero voltar e ficar uma semana aqui’. Isso acontece muito no Brasil porque muitos brasileiros não conhecem o próprio país”, explica.
Para a próxima temporada, a MSC terá cinco navios operando na região, incluindo o MSC Virtuosa e o MSC Divina. A companhia também trabalha com a perspectiva de trazer a marca de ultra luxo Explora Journeys para roteiros na Amazônia entre 2027 e 2028.
“As dificuldades existem, notamos que o avanço é lento e o futuro às vezes é incerto, mas nós continuamos acreditando no potencial de consumo e no desejo do brasileiro de viajar”, conclui Ursilli.







