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“Turismo do Brasil faz um trabalho medíocre”, declara Jerome Cadier, CEO da Latam

Executivo critica a falta de planejamento de longo prazo, alerta para impactos da reforma tributária e defende maior integração entre os setores do turismo

Matheus Alves
Matheus Alves
Repórter - E-mail: matheus@brasilturis.com.br

São Paulo (SP) – Uma das falas mais contundentes do Seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Casa Lide, em São Paulo, veio de Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil. Durante sua apresentação, o executivo afirmou que o turismo brasileiro não consegue transformar seu potencial em resultados concretos e classificou o desempenho coletivo do setor como “medíocre”.

“Se individualmente cada um de nós acha que faz um trabalho bom, coletivamente o setor do turismo do Brasil faz um trabalho medíocre. Medíocre”, reiterou o CEO da Latam.

Ao comparar o desempenho brasileiro com o de outros mercados, Cadier apontou que países com menos atrativos turísticos conseguem resultados superiores em volume de visitantes e conectividade aérea. “O Chile tem o dobro de passageiros por habitante por ano do que o Brasil”, ressalta.

O executivo destacou que muitos visitantes estrangeiros se surpreendem positivamente quando conhecem o país e argumentou que o Brasil possui vantagens competitivas naturais que não estão sendo convertidas em crescimento turístico. “As pessoas não conhecem, as pessoas não vêm para cá. É fácil vender o Brasil. Por que as pessoas vão para o Caribe?”, questiona.

Segundo Cadier, o principal problema não está na oferta turística, mas na incapacidade do setor de atuar de forma coordenada e construir uma agenda de longo prazo. “Nosso trabalho coletivamente aqui é medíocre. Temos que reconhecer isso, para poder entender por quê”, afirma.

Reforma tributária

Outro tema que dominou sua participação foi a reforma tributária. Embora tenha reconhecido a importância da medida para a economia brasileira, o CEO da Latam alertou para os impactos que a nova estrutura poderá trazer para a aviação e para toda a cadeia do turismo.

“A reforma tributária é boa no Brasil, é necessária e a intenção por trás dela é impecável. Contudo, quando ela se aplica a alguns setores, é uma bomba atômica. É um desastre”, declara.

De acordo com Cadier, a Latam desembolsa atualmente cerca de R$ 2 bilhões por ano em tributos. Com a implementação das novas regras, esse valor poderá chegar a R$ 6 bilhões anuais.

“A Latam paga por ano R$ 2 bilhões em impostos hoje. Com a reforma tributária implementada, isso vai passar para R$ 6 bilhões. É importante dizer, no entanto, que quem paga isso não é a Latam. Quem paga é o cliente, é quem está voando”, pontua, explicando que o aumento da carga tributária será inevitavelmente repassado aos passageiros, afetando a demanda por viagens e reduzindo a competitividade do setor.

Quanto aos esforços do setor para reduzir os impactos da reforma tributária, o executivo reconheceu que falta uma articulação mais ampla entre companhias aéreas, agências de viagens e demais segmentos da cadeia turística. “Falta um trabalho integrado. Eu vou confessar que temos trabalhado muito em como pensar a passagem aérea e não tem colaborado com o setor para pensar o ecossistema”, admite.

Segundo Cadier, o impacto da reforma será sentido tanto nas operações domésticas quanto internacionais. No caso dos voos internacionais, ele afirma que o Brasil passará a adotar uma tributação superior à praticada em grande parte do mercado global. “O Brasil vai se colocar absolutamente como pária cobrando sobre uma coisa que ninguém cobra”, declara.

Jerome Cadier Latam
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, apresentando suas perspectivas sobre o setor. Crédito: Evandro Macedo/Lide
Insegurança à longo prazo

Durante sua apresentação, Cadier também criticou a falta de visão estratégica para o desenvolvimento do turismo e da aviação no país. Segundo ele, investimentos em aeronaves exigem previsibilidade e planejamento de longo prazo, algo que ainda não existe no ambiente regulatório brasileiro.

“Uma aeronave custa entre US$ 40 milhões e US$ 200 milhões. Você não toma uma decisão dessa olhando curto prazo. Você toma uma decisão dessa olhando muito longo prazo”, afirma.

Na avaliação do executivo, a ausência de políticas contínuas impede uma expansão mais acelerada da aviação comercial brasileira. “Que bom que ano passado foi um recorde. Estamos parados há 15 anos. O grande desenvolvimento da aviação foi entre 2000 e 2008. Depois, empacamos”, relata.

Cadier também criticou a elevada rotatividade no comando do Ministério do Turismo ao longo das últimas décadas. “Foram 20 anos e 20 ministros do Turismo. Tem uma coisa muito errada nisso. Que ministro do Turismo consegue implementar alguma coisa de longo prazo? Nenhum consegue. Porque o seguinte desfaz tudo o que o anterior fez”, comenta.

Agenda conjunta

Ao final de sua participação, o CEO da Latam voltou a defender uma agenda conjunta para o turismo brasileiro e reforçou que a atividade precisa ser tratada como uma prioridade nacional. “A grande alavanca de crescimento desse país é o Turismo. Precisamos pensar mais no longo prazo, reconhecer que está fazendo um trabalho medíocre”, declara.

Encerrando sua fala, Cadier afirmou que a insatisfação com o desempenho do setor é justamente o que o motiva a continuar defendendo mudanças estruturais. “Eu sou movido pela dor. A dor de ver países que avançaram muito mais do que nós avançamos, com muito menos capacidade para avançar. O convite aqui é: vamos encontrar uma solução, porque não dá para continuar assim”, conclui.

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