Gramado (RS) – Muito além de bebidas, café e tequila podem ser portas de entrada para conhecer histórias, culturas e comunidades inteiras. Foi justamente essa relação entre produto, território e turismo que pautou o painel “Líquidos com Alma: Quando o Café e a Tequila Escrevem a História de um Território”, realizado nesta quinta-feira (11) durante o Connection Terroirs do Brasil, em Gramado.
O encontro reuniu Cecilia Nakao, diretora-presidente da associação responsável pela Denominação de Origem Caparaó, e Araceli Ramos, diretora de Promoção e Relações Públicas da Jose Cuervo, que compartilharam experiências de como produtos ligados à origem podem impulsionar destinos turísticos e transformar economias locais.
Em comum, os dois exemplos apresentados mostram que o turista contemporâneo busca mais do que belas paisagens. A viagem passa pela vivência, pela gastronomia e pelo contato com tradições que ajudam a explicar a identidade de cada lugar. Nesse contexto, tanto o café produzido nas montanhas do Caparaó quanto a tequila elaborada na região de Jalisco se tornaram símbolos capazes de despertar curiosidade e motivar deslocamentos.
No caso brasileiro, Cecilia Nakao destacou a trajetória do Caparaó, região localizada entre Minas Gerais e Espírito Santo que ganhou notoriedade internacional pela qualidade de seus cafés especiais. Segundo ela, a transformação começou com investimentos em capacitação, melhoria da produção e valorização dos produtores locais.
A dirigente lembrou que o território conviveu durante décadas com baixos indicadores socioeconômicos e com uma imagem associada a cafés de menor qualidade. A mudança ocorreu gradualmente e hoje já se reflete também no Turismo. “Alguns produtores já têm os empreendimentos como meio de hospedagem, meio de alimentação, cafeteria. Eles vão oferecendo esses serviços aos turistas”, explicou.
Nos últimos anos, iniciativas apoiadas pelo Sebrae estimularam a criação de experiências dentro das propriedades rurais. Os visitantes podem acompanhar o processo de produção do café, participar de torrefações, percorrer plantações e até realizar passeios de trator. “Isso tudo vem agregando oportunidade de serviço e de renda pra família toda”, afirmou Cecilia.
Segundo ela, o crescimento do turismo tem contribuído para algo considerado essencial na região: a permanência dos jovens no campo. O sentimento de pertencimento e o orgulho pela produção local passaram a fazer parte da nova geração de cafeicultores. “Os filhos estão ficando na propriedade e estão gostando de produzir Caparaó. Está tendo orgulho, eles estão sentindo pertencimento”, destacou.
Enquanto o Caparaó constrói sua reputação a partir do café, o México já possui um exemplo consolidado na tequila. Araceli Ramos apresentou a trajetória da bebida que se tornou um dos principais símbolos do país e ajudou a transformar uma pequena cidade em um destino turístico internacional. “Quando alguém fala de México, a segunda palavra que vem à mente das pessoas depois de México é tequila”, afirmou.
Ela explicou que a tequila foi a primeira Denominação de Origem reconhecida no México e que sua produção é restrita a determinadas áreas do país. O produto é elaborado exclusivamente a partir do agave azul, planta que leva entre oito e dez anos para atingir a maturidade necessária para a colheita.
Mais do que proteger a bebida, a Denominação de Origem ajudou a fortalecer o orgulho local e a projetar internacionalmente a identidade mexicana. “O mais importante de uma denominação de origem é ter um produto que nos identifique como cultura, história, tradição e raízes”, disse.
A executiva também relatou sua participação na criação do Mundo Cuervo, complexo turístico inaugurado em 2003 na cidade de Tequila. O projeto nasceu quando a destilaria percebeu que visitantes buscavam conhecer não apenas a bebida, mas todo o processo produtivo e a cultura associada a ela.
Hoje, o empreendimento já recebeu quase três milhões de visitantes e se tornou um dos principais atrativos turísticos do México. O sucesso incentivou outras destilarias a abrirem suas portas, dando origem à Rota da Tequila. “Agora viajamos pela comida, pelos momentos, pelo que vivemos, pelo que sentimos”, afirmou Araceli ao comentar as mudanças no comportamento dos turistas.
Segundo ela, o desenvolvimento do destino só foi possível porque a comunidade local participou do processo desde o início. Em vez de importar mão de obra de outras cidades, a empresa investiu na capacitação dos moradores da região. “O mais importante é trabalhar com a comunidade, transmitir o sentimento de orgulho e pertencimento”, afirmou.
Ao final do painel, as duas especialistas convergiram em um ponto central: produtos de origem têm valor econômico, mas seu impacto vai muito além dos negócios. Quando associados a experiências autênticas, eles ajudam a preservar tradições, fortalecer comunidades e criar destinos capazes de atrair visitantes interessados em conhecer histórias por meio dos sabores.
No Caparaó, o café se tornou uma ferramenta para renovar perspectivas e manter famílias no campo. Em Tequila, a bebida ajudou a construir um destino reconhecido mundialmente. Dois exemplos distintos, mas unidos pela mesma lógica: quando um território entende o valor daquilo que produz, seus sabores passam a contar histórias que atravessam fronteiras.







