Argentina e Cabo Verde se enfrentam nesta sexta-feira (3) pela Copa do Mundo de 2026, mas a disputa por visibilidade vai além do campo. De um lado, está um destino consolidado entre os brasileiros, com malha aérea em expansão e uma nova campanha para atrair 1 milhão de visitantes do Brasil neste ano. Do outro, um arquipélago africano em ascensão, que tenta transformar a projeção inédita dos Tubarões Azuis no Mundial em uma oportunidade para reposicionar sua imagem turística.
A Argentina chega ao momento com uma estratégia clara para o mercado brasileiro. O país lançou uma ofensiva promocional coordenada por Daniel Scioli, secretário de Turismo, Ambiente e Esportes, com agenda em cidades como Foz do Iguaçu, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Salvador e Recife. A meta é receber 1 milhão de brasileiros em 2026. Entre janeiro e maio, cerca de 250 mil turistas do Brasil chegaram ao país por via aérea, alta de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A conectividade ajuda a sustentar essa ambição. A Latam ampliou de uma para quatro frequências semanais ligando Recife a Buenos Aires durante a temporada de verão. Mais recentemente, o Rio Grande do Norte e a Latam anunciaram o voo sazonal Natal-Buenos Aires, previsto entre 15 de dezembro deste ano e 28 de fevereiro de 2027. Em julho e agosto, a Azul vai reforçar sua malha internacional com a retomada de operações sazonais para Mendoza, na Argentina. A Gol também anunciou operações regulares e sem escalas entre o Rio de Janeiro e Salta, no Norte da Argentina, a partir de dezembro deste ano.
Cabo Verde vive outro momento. O país ainda não tem a escala turística argentina, mas ganhou uma janela rara de exposição internacional com a participação da seleção no Mundial. Jair Fernandes, presidente do Instituto do Turismo de Cabo Verde (ITCV), afirmou à Inforpress que a visibilidade dos Tubarões Azuis exige uma mudança de paradigma na promoção do destino, com mais presença em feiras, eventos internacionais e ações voltadas também à atração de investimentos.
Essa estratégia encontra respaldo na economia do arquipélago. Segundo o Banco Mundial, o turismo representa cerca de 25% do PIB cabo-verdiano, o que torna o setor um dos principais motores do desenvolvimento local. A projeção global da Copa, portanto, chega em um momento em que o país busca ampliar a oferta para além do sol e praia, valorizando cultura, música, gastronomia, natureza, trilhas, ilhas vulcânicas e turismo náutico.
O Brasil aparece como peça importante nesse movimento. Em maio, a Cabo Verde Airlines retomou, após seis anos, a rota direta entre Recife e Praia, capital cabo-verdiana. A operação semanal reduz a distância entre o Nordeste brasileiro e o arquipélago para cerca de quatro horas e reforça o Recife como ponto de conexão entre América do Sul, África e Europa.
Apesar das diferenças de escala, Argentina e Cabo Verde compartilham desafios parecidos. Ambos tentam usar eventos de alta visibilidade para transformar interesse em fluxo turístico real. Também buscam ampliar permanência média, diversificar experiências e reduzir a concentração da demanda em poucos destinos: no caso argentino, para além de Buenos Aires, Bariloche e Mendoza; no caso cabo-verdiano, para além de Sal e Boa Vista.
A Argentina joga com a força de um mercado maduro, reconhecido pelo enoturismo, neve, gastronomia, cultura urbana e natureza extrema, da Patagônia ao Norte do país. Cabo Verde aposta no frescor de um destino emergente, com identidade crioula, ligação histórica com o Atlântico e maior proximidade com o Brasil a partir da nova rota Recife-Praia.
Independentemente do placar desta sexta-feira, os dois países já entram em campo com uma oportunidade rara: transformar a atenção global da Copa em promoção turística.

