A União Europeia avança no desenvolvimento do euro digital, uma versão eletrônica da moeda emitida pelo Banco Central Europeu (BCE). Inspirado em parte na infraestrutura pública do Pix, o projeto busca ampliar a autonomia financeira do bloco e reduzir a dependência de empresas estrangeiras no processamento de pagamentos.
A iniciativa ganhou força em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos e às discussões sobre a participação de companhias norte-americanas no sistema financeiro europeu. Atualmente, quase dois terços dos pagamentos com cartão realizados na zona do euro são processados por empresas não europeias.
Além de bandeiras como Visa e Mastercard, serviços amplamente utilizados por consumidores e viajantes, como Apple Pay, Google Pay e PayPal, também são controlados por empresas dos Estados Unidos. Segundo autoridades europeias, essa concentração pode representar um risco para a soberania financeira e a continuidade dos meios de pagamento no continente.
“quase dois terços dos pagamentos com cartão na zona do euro são processados por empresas não-europeias”, afirmou Alessandro Giovannini, assessor do projeto de euro digital no BCE. De acordo com ele, 13 dos 21 países da zona do euro não contam com um sistema nacional de cartões para pagamentos cotidianos em estabelecimentos físicos ou no comércio eletrônico.
“O euro digital reduzirá a dependência de soluções não europeias. Nenhuma outra iniciativa tem a mesma ambição de fortalecer, de forma estrutural, a soberania europeia”, afirmou.
Diferenças entre o euro digital e o Pix
Embora o modelo brasileiro seja citado como referência, os dois projetos possuem características diferentes. O Pix é um sistema de pagamentos instantâneos administrado pelo Banco Central do Brasil, enquanto o euro digital será uma moeda eletrônica emitida pelo BCE.
A expectativa é que o recurso possa ser utilizado em lojas físicas, compras on-line e transferências entre pessoas, inclusive por meio de dispositivos móveis. O plano prevê versões com funcionamento on-line e off-line, ampliando as possibilidades de uso em diferentes situações.
Para o turismo, a criação de uma infraestrutura europeia de pagamentos poderá atingir transações realizadas por visitantes em hospedagens, restaurantes, lojas, atrações e outros serviços. A proposta, no entanto, ainda depende da conclusão do marco regulatório e da realização dos testes previstos pelo bloco.
Projeto-piloto previsto para 2027
O Banco Central Europeu pretende iniciar a fase experimental do euro digital em 2027, com previsão de colocá-lo em circulação até 2029. O BCE já selecionou 36 prestadores de serviços de pagamento, incluindo Deutsche Bank e UniCredit, para participar dos preparativos do projeto-piloto.
A Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu também aprovou um plano para o desenvolvimento das versões on-line e off-line da moeda. A expectativa é que a regulamentação seja definida ainda em 2026.
Desde a apresentação da proposta pela Comissão Europeia, em 2023, os países integrantes do bloco discutem o modelo de funcionamento da nova moeda. A definição mantém o Banco Central Europeu responsável pela infraestrutura, estrutura semelhante à do Pix, administrado pelo Banco Central brasileiro.
O avanço europeu ocorre enquanto o Pix também passou a integrar as tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O governo norte-americano argumenta que o sistema brasileiro afeta empresas privadas do país por operar em uma infraestrutura pública e regulada pelo Banco Central.

