Por Alexandre Sampaio*
As eleições se aproximam e, mais uma vez, chama a atenção o espaço reduzido dedicado ao turismo no debate eleitoral. Nas primeiras sabatinas com os candidatos à Presidência, o setor praticamente não apareceu entre os grandes temas em discussão. Em uma delas, realizada pela TV Globo com seis presidenciáveis, não houve sequer uma pergunta sobre turismo. Ao mesmo tempo, novamente vemos poucas lideranças oriundas do trade entre os nomes que disputam os principais cargos eletivos do País.
Não se trata de defender candidaturas corporativas, mas de reconhecer uma contradição: somos um setor cada vez mais relevante e ainda diminutos nos espaços onde são tomadas as decisões que determinam nosso futuro.
Os números dimensionam essa importância. Em 2025, segundo o WTTC, Viagens e Turismo responderam por 9,8% da economia mundial e sustentaram 366 milhões de empregos. No Brasil, a CNC calcula que as atividades turísticas respondem por 8,1% do PIB. Também nunca recebemos tantos visitantes estrangeiros. Segundo o Ministério do Turismo, foram 9,3 milhões em 2025, crescimento de 37,1% em relação ao ano anterior, deixando US$ 7,9 bilhões no País.
Ainda assim, há uma distância evidente entre esses resultados e o espaço reservado ao setor na discussão política. O turismo aparece nos programas de governo de diferentes candidatos, mas permanece como um capítulo desses documentos, não como uma pauta central e compromisso de campanha.
Essa distância não é nova. Somos lembrados quando o Brasil bate recordes de visitantes ou quando um destino ganha projeção internacional. Na hora de definir políticas que afetam diretamente quem empreende e trabalha no setor, porém, ainda não conseguimos conquistar espaço.
A desoneração da folha é um exemplo dessa falta de equilíbrio. Instituída em 2011 e prorrogada ao longo dos anos, a política beneficiou 17 setores, entre eles tecnologia da informação, construção civil, indústria têxtil, comunicação e transportes. Turismo, hotelaria e alimentação, embora sejam atividades intensivas em mão de obra e tenham a geração de empregos como uma de suas principais características, ficaram de fora do benefício.
Os números tornam essa exclusão ainda mais difícil de compreender. O turismo encerrou 2025 com 2,3 milhões de empregos formais, o equivalente a quase 5% dos postos de trabalho do país. Ainda assim, não recebeu o mesmo tratamento concedido durante anos a outros segmentos sob o argumento de estimular a contratação e preservar empregos. Se o objetivo da política era proteger atividades que dependem fortemente da mão de obra, deixar a cadeia do turismo de fora revelou uma contradição que precisa ser corrigida a partir de agora.
Quando finalmente tivemos uma política específica de grande alcance para parte importante da cadeia, o Perse, o programa teve seus benefícios encerrados antecipadamente em 2025, após a Receita Federal considerar atingido o teto fiscal de R$ 15 bilhões, apesar dos inúmeros questionamentos que defenderam maior transparência e fiscalização para que eventuais utilizações indevidas não penalizassem quem efetivamente tinha direito ao programa.
Esses poucos exemplos são o bastante para nos mostrar por que não podemos esperar que o turismo conquiste sozinho seu espaço na agenda pública. Se temos poucos representantes do trade disputando cargos eletivos, cabe então às entidades e lideranças do setor organizar suas demandas, apresentá-las aos candidatos e cobrar sua execução depois das urnas.
A iniciativa privada vem atuando para facilitar o trabalho do poder publico. Nesse contexto o Vai Turismo, iniciativa da CNC, ganha importância. O projeto reúne propostas construídas com o setor nos estados e as leva aos candidatos, buscando transformar demandas como conectividade, crédito, tributação, qualificação, infraestrutura e segurança jurídica em compromissos de governo.
Mas esse trabalho não termina com a entrega de propostas. Cabe a nós perguntar aos candidatos qual é, concretamente, o compromisso com o turismo e acompanhar, depois das eleições, se aquilo que foi apresentado chegará às políticas públicas.
O turismo brasileiro já provou sua força e sua capacidade de impulsionar a economia. Cabe agora ao setor converter essa relevância econômica em protagonismo político, cobrando dos candidatos compromissos concretos para que o turismo esteja entre as prioridades de quem governará o Brasil e seus Estados.
*Presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) e diretor da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e coordenador do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade (Cetur/ CNC)














