São Paulo (SP) – O cenário de juros elevados no Brasil impõe desafios à economia, mas não impede o avanço da atividade hoteleira. A avaliação foi apresentada por Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), durante a palestra “Perspectivas da Economia Brasileira”, realizada nesta segunda-feira (14), no VIII Fórum Nacional de Hotelaria, promovido pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), no Hotel Pullman Vila Olímpia, em São Paulo.
Ao relacionar o ambiente macroeconômico com o desempenho da hotelaria, Bentes afastou uma visão excessivamente pessimista para o setor. Mesmo diante de uma taxa básica de juros em patamar elevado, o economista avaliou que a atividade hoteleira possui condições para atravessar o cenário econômico atual.
“Não é terra arrasada. A relação do setor de hotel e economia é perfeitamente compatível com uma taxa de juros de 14% ao ano”, afirmou. Segundo Bentes, o quadro merece atenção porque o País parte de um nível de 15% ao ano, apontado por ele como o maior patamar da taxa básica de juros da economia brasileira em duas décadas.
Para turismo e hotelaria, o custo elevado do crédito possui efeitos que ultrapassam os investimentos empresariais. Juros altos também atingem a capacidade de consumo das famílias, fator relevante para atividades que dependem da renda disponível, como viagens e hospedagens. Bentes citou dados da CNC que indicam endividamento entre as famílias brasileiras e relacionou esse cenário ao desequilíbrio das contas públicas.
De acordo com o economista, 32% das famílias estão endividadas no País. A pressão sobre o orçamento doméstico, somada ao custo do crédito, cria um ambiente mais complexo para o consumo e, por consequência, para setores ligados a despesas discricionárias. Na avaliação apresentada durante o fórum, a situação fiscal brasileira está entre os principais elementos que ajudam a explicar a manutenção dos juros em níveis elevados.
Contas públicas entram no debate da hotelaria
Bentes também chamou atenção para o tamanho da dívida pública, citada por ele em patamar equivalente a 82% do Produto Interno Bruto (PIB). O economista criticou comparações do endividamento brasileiro com o de países desenvolvidos e argumentou que as características de cada economia precisam ser consideradas.
Na análise do economista-chefe da CNC, a dificuldade do governo em administrar suas contas exige juros elevados para financiar a dívida pública. Esse quadro interfere na economia como um todo e chega à cadeia de turismo por diferentes caminhos, desde o custo de financiamento de novos projetos até o orçamento disponível para viagens.
Apesar dos obstáculos, Bentes procurou separar o ambiente macroeconômico desfavorável de uma perspectiva de retração inevitável para a hotelaria. Sua avaliação indica que o setor pode apresentar desempenho positivo mesmo sob condições monetárias restritivas, embora a redução dos desequilíbrios fiscais possa criar um cenário mais favorável para empresas e consumidores.
O economista também defendeu maior participação do empresariado no debate sobre as contas públicas e a eficiência do Estado. Para ele, empresários devem cobrar dos atuais e futuros representantes políticos propostas concretas para reduzir despesas ineficientes e melhorar a administração pública.
“Eu gostaria de resumir, fazer essa conexão final, convocando vocês para pressionarem os políticos ou os potenciais políticos: o que eles vão fazer para reduzir o peso do Estado no Brasil?”, questionou Bentes. O economista ponderou que essa discussão não deve significar cortes indiscriminados em áreas essenciais, mas uma busca por maior eficiência na utilização dos recursos públicos.
Para a hotelaria, o recado final vinculou as perspectivas do setor às condições gerais da economia. Mesmo com espaço para crescimento em um cenário de juros altos, Bentes apontou que equilíbrio fiscal, menor pressão tributária e melhora das condições de crédito podem oferecer bases mais favoráveis para investimentos, consumo e viagens no País.













