As enchentes catastróficas que atingiram o Nepal e o Tibete no fim de agosto provocaram destruição em larga escala e enorme perda de vidas, com ao menos 1.386 mortes registradas e milhares de pessoas ainda desaparecidas.
Desde então, a prioridade imediata tem sido, corretamente, o resgate das vítimas, a prestação de assistência às comunidades atingidas e o restabelecimento dos serviços essenciais.
Ao mesmo tempo, desde as enchentes, o Nepal passou a pedir aos turistas internacionais que não cancelem suas viagens. Grande parte do território permanece aberta aos visitantes. Sem o turismo, uma tragédia concentrada em determinadas regiões pode provocar impactos econômicos sobre comunidades espalhadas por todo o país.
Para uma nação tão dependente da atividade turística, uma das questões mais difíceis agora é determinar quando e de que maneira incentivar o retorno dos visitantes.
Um em cada sete empregos depende do turismo
Quase 1,16 milhão de turistas estrangeiros visitaram o Nepal no ano passado, no melhor desempenho do país desde antes da pandemia de Covid.
O turismo responde por aproximadamente 15% dos empregos no Nepal — quase um em cada sete postos de trabalho — e seus efeitos alcançam hotéis, empresas de trekking, guias, carregadores, restaurantes, transportadoras e comunidades remotas. O setor representa ainda cerca de 6% a 8% do Produto Interno Bruto do país.
Experiências anteriores, tanto no Nepal quanto em outros destinos afetados por desastres, porém, mostram que administrar corretamente a recuperação do turismo pode ser uma tarefa mais complexa do que parece.
Estimular o retorno dos visitantes cedo demais pode prejudicar os esforços de recuperação. Esperar por tempo excessivo, por outro lado, pode impor uma segunda crise, desta vez econômica, às comunidades dependentes da atividade turística.
O risco é que os efeitos econômicos do desastre alcancem uma parcela do território nacional ainda maior do que aquela diretamente atingida pelas próprias enchentes.
Lições deixadas por outros desastres
Os turistas não reagem apenas ao risco real, mas também à percepção que constroem sobre ele. Cobertura da imprensa, redes sociais e recomendações oficiais de viagem têm influência direta sobre essa avaliação.
Para quem observa a situação a milhares de quilômetros de distância, a ideia de um “desastre no Nepal” pode rapidamente gerar a impressão equivocada de que “todo o Nepal está inseguro”.
Surge, assim, uma espécie de “área de percepção” do desastre, capaz de alcançar dimensões consideravelmente superiores à região efetivamente afetada pela tragédia.
O Nepal viveu situação semelhante depois dos terremotos de Gorkha, em 2015, que provocaram a morte de mais de 8,8 mil pessoas.
As chegadas internacionais recuaram 32% naquele ano em relação a 2014, apesar de importantes destinos turísticos, entre eles Pokhara, na região do Himalaia, e Chitwan, não terem sido diretamente atingidos.
Imagens de templos, edifícios e comunidades destruídas contribuíram, mesmo assim, para disseminar uma percepção muito mais abrangente de que todo o país havia sido devastado.
O turismo nepalês conseguiu se recuperar nos anos seguintes. O fluxo de visitantes voltou a crescer em 2016 e chegou a 940 mil turistas em 2017, recorde para o país naquele momento.
As autoridades turísticas recorreram à imprensa internacional, a parcerias e às publicações dos próprios viajantes nas redes sociais para mostrar que turistas já retornavam com segurança a diversas regiões nepalesas.
Desafios semelhantes também apareceram em outros destinos turísticos atingidos por catástrofes naturais ao redor do mundo.
As enchentes de Queensland, na Austrália, em 2011, deixaram 33 mortos e causaram danos generalizados sobre uma área comparável, em extensão, aos territórios de França e Alemanha somados.
Um estudo com mais de 2,1 mil potenciais turistas australianos realizado após a tragédia constatou dúvidas entre os entrevistados sobre a capacidade de uma visita ajudar na recuperação, embora muitos se mostrassem dispostos a viajar para apoiar o destino.
Uma das principais conclusões dessa e de outras pesquisas é que os efeitos de um desastre sobre o turismo não necessariamente permanecem limitados às fronteiras geográficas das regiões diretamente atingidas.
Os estudos também indicam que, quando um destino busca acelerar o retorno dos turistas, como o Nepal já procura fazer, os visitantes que estiveram várias vezes na região tendem a apresentar maior disposição para regressar do que aqueles que possuem pouca familiaridade com o local.
Esse comportamento tem importância para a recuperação do turismo nepalês. Isso não significa, porém, que o país deva tentar trazer os visitantes de volta com a maior rapidez possível.
Momento certo e informações confiáveis
Reabrir destinos antes que existam condições adequadas pode colocar os visitantes em risco e pressionar recursos que ainda são necessários para atender às comunidades afetadas.
A confiança dos viajantes precisa ser recuperada por meio da divulgação de informações confiáveis, detalhadas e capazes de oferecer segurança para as decisões de viagem.
À medida que a recuperação avançar, os turistas interessados em visitar o Nepal precisarão saber quais locais específicos continuam afetados, quais estradas e rotas de trekking estão acessíveis, qual infraestrutura já funciona normalmente e onde as autoridades ainda recomendam evitar viagens.
O Nepal já trabalha para divulgar parte dessas atualizações sobre as condições de viagem ao público internacional, inclusive por meio das redes sociais e de publicações identificadas com a hashtag NepalCalling.
Pesquisas realizadas após o ciclone Marcia, em Queensland, também apontaram que a confiança e uma comunicação consistente entre as organizações de turismo tiveram papel decisivo para uma recuperação eficiente do setor.
O objetivo deve ser administrar o retorno da atividade turística de maneira que ela contribua para as comunidades atingidas, sem criar riscos adicionais aos visitantes ou aos próprios moradores.
Pessoas que viajam ao Nepal para visitar amigos e familiares, assim como turistas que já estiveram anteriormente no país, tendem a retornar mais cedo quando houver condições adequadas, devido aos vínculos pessoais mais fortes e ao maior conhecimento sobre a realidade local.
O desafio para o Nepal, portanto, não se resume a decidir quando o país estará novamente “aberto”. Será necessário comunicar com clareza quais regiões estão prontas para receber visitantes e identificar quando a presença dos turistas poderá ajudar as comunidades nepalesas, em vez de dificultar o processo de recuperação.
Os viajantes também devem consultar as recomendações oficiais de seus próprios governos antes da viagem, especialmente informações atualizadas sobre segurança, acesso às regiões afetadas, infraestrutura disponível e eventuais restrições em vigor no Nepal.













