Cruzeiros devem chegar a quase 800 mil leitos na temporada 2026/2027, diz Clia Brasil

Marco Ferraz prevê recuperação da oferta, mas aponta custos portuários, insegurança jurídica e reforma tributária como desafios para atrair mais navios

Maurício Herschander
Maurício Herschander
Repórter - E-mail: mauricio@brasilturis.com.br

São Paulo (SP) – A temporada brasileira de cruzeiros 2026/2027 deve alcançar quase 800 mil leitos, ante cerca de 670 mil no ciclo anterior, com um navio a mais na oferta nacional. A projeção foi apresentada por Marco Ferraz, presidente da Clia Brasil, em entrevista ao Brasilturis nesta quarta-feira (30), durante a 53ª Abav Expo, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo. Apesar da recuperação prevista, o dirigente considera que o País ainda opera abaixo de seu potencial e precisa reduzir entraves para competir de maneira mais equilibrada com outros mercados internacionais.

Segundo Ferraz, previsibilidade, segurança jurídica e custos operacionais estão entre os principais fatores considerados pelas companhias na definição dos destinos para seus navios. No Brasil, despesas relacionadas a portos, praticagem, terminais de passageiros e rebocadores superam, em média, em mais de 50% os patamares encontrados em mercados como Caribe e Europa, de acordo com o presidente da Clia Brasil.

“Não precisamos ser mais baratos, mas, se a gente conseguir estar em igualdade de condições com os outros países, a gente não perde navio para eles”, afirmou. O trabalho institucional da entidade, segundo Ferraz, inclui interlocução com portos, terminais, agências reguladoras e fornecedores para buscar maior competitividade para a operação brasileira.

A perda de dois navios na temporada anterior, conforme dados citados pelo dirigente, representou impacto de R$ 1,14 bilhão para a economia e cerca de 20 mil empregos. “E isso dói. Muito”, declarou. Para o próximo ciclo, a oferta volta a crescer, mas Ferraz defende que a atração de embarcações não dependa de acontecimentos externos ou de mudanças conjunturais em outros mercados.

O presidente da Clia Brasil citou ainda discussões em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior do Trabalho (TST) relacionadas às regras trabalhistas aplicadas aos tripulantes. Na avaliação de Ferraz, uma solução para o tema poderia abrir espaço para companhias que hoje demonstram receio em destinar embarcações ao mercado brasileiro.

Reforma tributária terá impacto sobre preços

Outro tema acompanhado pela entidade é a reforma tributária. Ferraz afirmou que as mudanças terão consequências sobre os preços pagos pelos consumidores e explicou que a Clia Brasil atua em duas frentes para esclarecer os efeitos das novas regras sobre o setor de cruzeiros.

“Vai ter um impacto de preço para o consumidor, não tem jeito”, disse. Uma das frentes envolve a venda de cruzeiros em terra, operação na qual a entidade trabalha ao lado de associações do setor de viagens para discutir tanto a futura alíquota quanto questões operacionais. Entre os pontos que ainda precisam de definição estão emissão de notas fiscais, momento de recolhimento dos tributos e determinação do fato gerador da operação.

A segunda frente envolve o consumo a bordo. Segundo Ferraz, a norma atualmente aplicada às operações nos navios deixará de existir a partir de 1º de janeiro, o que exige a definição de novas regras para embarcações internacionais e domésticas.

“O impacto é grande. A gente ainda precisa entender como é que vamos emitir uma nota no navio, se não vamos emitir, então vai ser por relatório”, explicou. A Clia mantém conversas com a Receita Federal sobre os procedimentos que deverão ser adotados, e Ferraz espera avanços nas definições nos próximos dois meses.

Três novidades para a temporada

A temporada 2026/2027 também contará com três novidades destacadas pelo presidente da Clia Brasil. A Corazul estreia no mercado brasileiro, enquanto a MSC Cruzeiros terá o MSC Virtuosa pela primeira vez no País e a Costa Cruzeiros contará com o Costa Serena.

“É muito bom que uma companhia tenha decidido abrir e investir no Brasil”, afirmou Ferraz sobre a chegada da Corazul. “Não só eles estão vindo como novidade, mas a MSC traz o Virtuosa pela primeira vez e a Costa traz o Serena. Então, a gente tem três novidades.”

Para o dirigente, o desempenho dessas operações será determinante para a continuidade e eventual expansão da oferta nas próximas temporadas. A Clia Brasil também pretende estimular investimentos em novos destinos, infraestrutura portuária e terminais para criar condições capazes de receber mais embarcações.

Na Abav Expo, a entidade também utiliza o encontro com autoridades e representantes do trade para apresentar as perspectivas da temporada. Ferraz destacou que as companhias associadas estão presentes com estandes e produtos voltados aos agentes de viagens, enquanto a Clia concentra sua atuação institucional no diálogo com secretários estaduais e municipais de Turismo, ministros e agências reguladoras.

“É um espaço fantástico, porque você consegue, em dois, três dias, falar com todo mundo”, afirmou. Para Ferraz, a feira permite aproximar o setor de cruzeiros dos diferentes agentes públicos e privados envolvidos na preparação das próximas temporadas brasileiras.

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