A autoestima do Brasil está tão abalada que a indicação do filme “Ainda estou aqui” ao Oscar 2025 gerou uma comoção nacional. Em pleno Carnaval, milhões de brasileiros assistiram a cerimônia mais importante do universo cinematográfico em clima de Copa do Mundo.
Não que o trabalho de Walter Salles não merecesse a torcida. Muito pelo contrário. Trata-se de uma obra de arte que mostra uma produção brasileira sensível, elegante, bem pensada e executada. O oposto do que se vê hoje como produção cultural brasileira-vulgar, superficial e apelativa.
Do mesmo modo, a torcida por Fernanda Torres era legítima. Além do inegável talento, há o carisma que ficou ainda mais evidente na campanha que a atriz pelos diferentes prêmios e indicações.
“Ainda estou aqui” ganhou merecidamente o prêmio de melhor filme estrangeiro. Depois de 25 anos da indicação de Central do Brasil. Primeira lição: mesmo os talentosos milionários precisam esperar muito para ter o devido reconhecimento. Fernanda Torres, por sua vez, mostrou-se ponderada e agradecida no meio de tanta expectativa. Diante da vergonhosa e injusta vitória de Mikey Madison, mostrou fair play, cumprimentando efusivamente a rival e trazendo para o Brasil a segunda preciosa lição, elegância e dignidade devem ser mantidas, a qualquer preço, não apenas como valor pessoal, mas como estratégia profissional a longo prazo. Ao contrário de Sofía Gascón, que se tornou persona non grata depois de se envolver em muitas polêmicas, Fernanda ganhou a admiração e simpatia dos mais importantes profissionais da indústria. Não se trata apenas do velho adágio “saiba entrar, saiba sair”. Vai além. Trata-se de saber circular.
Mais do que isso, Fernanda nos faz refletir sobre participação e protagonismo. Independentemente do Oscar de melhor atriz, sua participação permitiu que sua mãe, Fernandona, também levasse o Oscar, uma vez que a categoria de melhor filme internacional premia o resultado final e todos que participaram.
A terceira lição vem de diferentes políticos da direita conservadora que mostraram verdadeiro patriotismo ao torcer publicamente pela vitória do filme e da atriz, a despeito da posição política oposta às suas. Mostraram coerência entre o discurso patriota e a ação. O que mais se espera hoje das lideranças.
A vitória de Anora indica outra lição preciosa: o sucesso é também circunstancial. Embora os concorrentes fossem melhores, a Academia procurava esse tipo de produção independente e deu a ela o maior número de estatuetas. É evidente que hoje um bom vendedor não é aquele que vende refrigerador para esquimó, e sim aquele que vende pro esquimó aquilo que ele nem sabe que deseja.
Fica também a reflexão: por que o brasileiro mais reclamou do Oscar perdido, em vez de celebrar o Oscar ganho?
Por fim, a última lição vem da própria academia. Como um prêmio, criado há 97 anos, segue mobilizando o interesse de bilhões de pessoas, seguindo praticamente a mesma fórmula? Deixo o desafio para cada leitor encontrar a resposta. Certamente a reflexão pode ser aplicada à vida e aos negócios de todos nós.

