O Turismo entra em uma fase em que crescimento, rentabilidade e sustentabilidade passam a coexistir como prioridades estratégicas. A indústria, que historicamente operava com foco em volume, passa agora a lidar com um ambiente mais complexo, em que fatores como experiência, valor percebido e resiliência operacional ganham protagonismo.
Trata-se de uma nova fase para o turismo internacional. Após um ciclo de recuperação acelerada entre 2023 e 2024, o ano de 2025 marca não apenas a consolidação da retomada, mas o início de um período de crescimento mais estável, ainda que cercado por desafios estruturais que devem redefinir o setor ao longo da próxima década.
Dados do relatório da ONU Turismo indicam que o mundo registrou 1,52 bilhão de chegadas internacionais em 2025, um crescimento de 4% em relação ao ano anterior e cerca de 60 milhões de turistas adicionais em circulação global. O resultado confirma a resiliência da demanda, mesmo diante de um cenário marcado por inflação nos serviços turísticos, instabilidade geopolítica e pressões econômicas em diferentes regiões.
Mais do que um avanço pontual, o desempenho sinaliza um retorno ao padrão histórico de crescimento do setor. Antes da pandemia, entre 2009 e 2019, o turismo internacional avançava, em média, 5% ao ano. Agora, com a recuperação consolidada, a indústria retoma essa trajetória, ainda que em ritmo mais moderado e com novas dinâmicas de consumo.
Esse movimento também é refletido na curva de evolução apresentada no material da ONU Turismo, que mostra o colapso de 2020, seguido por uma recuperação progressiva até atingir, em 2025, níveis equivalentes ou até superiores ao período pré-pandêmico.
Demanda resiliente, mas mais seletiva
Apesar do crescimento consistente, o comportamento do turista global mudou. O avanço de 2025 ocorreu em um contexto de custos mais elevados, com inflação ainda pressionando serviços como hospedagem, transporte aéreo e alimentação.
Ainda assim, a demanda se manteve sólida ao longo do ano, com leve desaceleração no último trimestre. Segundo o relatório, o quarto trimestre registrou crescimento de 3%, abaixo dos 4% observados no verão do hemisfério norte, tradicionalmente o período de maior movimentação .
Esse cenário revela um novo padrão de consumo: o viajante continua disposto a viajar, mas passa a priorizar custo-benefício, planejamento antecipado e experiências com maior valor agregado. A tendência é reforçada pelo próprio painel de especialistas da ONU Turismo, que aponta que os turistas devem seguir mais atentos ao orçamento, mesmo em um ambiente de recuperação econômica gradual.
Receitas crescem mais que chegadas
Se o volume de viajantes confirma a retomada, o desempenho financeiro do setor evidencia uma transformação ainda mais relevante. Em 2025, as receitas internacionais do turismo atingiram aproximadamente US$ 1,9 trilhão, enquanto as receitas totais de exportação chegaram a US$ 2,2 trilhões .
O dado mais significativo, no entanto, está na relação entre volume e gasto. Em diversos destinos, o crescimento das receitas superou o aumento das chegadas, indicando um ticket médio mais elevado por viajante.
Esse movimento é resultado direto de três fatores principais: aumento dos preços no setor turístico; maior busca por experiências premium e personalizada; e retomada mais forte de mercados emissores com maior poder aquisitivo
Na prática, o turismo global passa a depender menos de volume puro e mais de qualidade de demanda, um ponto que deve orientar estratégias de destinos e empresas nos próximos anos.
Outro vetor central para o desempenho global é a conectividade aérea. Dados apresentados no relatório indicam crescimento de cerca de 7% tanto na capacidade internacional quanto no tráfego de passageiros até outubro de 2025.
Esse avanço foi acompanhado por melhorias em processos de facilitação de vistos e digitalização de controles migratórios, fatores que contribuíram para reduzir barreiras de entrada e estimular viagens internacionais.
A combinação entre maior oferta aérea e simplificação de acesso cria um ambiente mais favorável à expansão do turismo, especialmente em mercados emergentes, que passam a ganhar protagonismo tanto como emissores quanto como destinos.
Embora o cenário global seja positivo, a recuperação do Turismo não ocorreu de forma homogênea. Algumas regiões já operam acima dos níveis pré-pandemia, enquanto outras ainda apresentam defasagens.
O material da Onu Turismo mostra que, em 2025, o turismo global já superou completamente os níveis de 2019, atingindo cerca de 104% do volume pré-pandêmico. No entanto, essa média esconde diferenças importantes entre regiões.
Enquanto o Oriente Médio lidera em crescimento relativo, operando muito acima dos níveis históricos, a Ásia-Pacífico ainda não recuperou totalmente sua base, impactada por reaberturas mais tardias e restrições prolongadas. Essa assimetria será determinante para os próximos ciclos de crescimento e redistribuição de fluxos turísticos.
Futuro moderado e incerto
As projeções para 2026 apontam continuidade do crescimento, mas em ritmo mais contido. A expectativa da ONU Turismo é de expansão entre 3% e 4%, consolidando um processo de normalização após o forte rebote pós-pandemia .
O índice de confiança do setor permanece positivo, com pontuação de 126 em uma escala de 0 a 200, indicando expectativa de mais um ano sólido, embora ligeiramente abaixo do otimismo registrado em 2025.
Ainda assim, o cenário exige cautela. Entre os principais riscos apontados estão:
- tensões geopolíticas e conflitos regionais
- custos elevados de viagens
- volatilidade econômica global
- eventos climáticos extremos
Ao mesmo tempo, fatores positivos devem sustentar o desempenho do setor, como expansão da conectividade aérea, crescimento de mercados emergentes e grandes eventos internacionais. Entre eles, destacam-se a Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, e os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, na Itália, que devem impulsionar fluxos turísticos globais.
Europa: liderança global
Se o turismo global entra em um novo ciclo, a Europa segue como seu principal eixo estruturante. A região não apenas mantém a liderança histórica, como amplia sua relevância em um cenário de retomada consolidada e crescente sofisticação da demanda internacional.
Em 2025, o continente europeu registrou 793 milhões de chegadas internacionais, um crescimento de 4% em relação ao ano anterior e 6% acima dos níveis pré-pandemia . O desempenho reforça o posicionamento da Europa como principal destino global, concentrando mais da metade do fluxo turístico internacional.
Esse avanço não ocorre de forma homogênea, mas revela um mosaico de dinâmicas internas. A Europa Ocidental segue como principal motor de volume, enquanto a Europa Mediterrânea mantém forte apelo em segmentos de lazer. Já a Europa Central e Oriental apresenta recuperação mais acelerada, ainda que partindo de uma base inferior.
Entre os destaques de desempenho, destinos como Islândia, Uzbequistão e Noruega registraram crescimentos expressivos, impulsionados por estratégias de diversificação de oferta e posicionamento em nichos específicos, como turismo de natureza e experiências culturais autênticas. Ao mesmo tempo, grandes mercados consolidados, como Espanha, Áustria e Países Baixos, mantiveram expansão consistente, ainda que em ritmo mais moderado.
O desempenho europeu está diretamente ligado a três fatores estruturais. O primeiro é a densidade de conectividade aérea e ferroviária, que permite alta capilaridade de deslocamento intra-regional. O segundo é a maturidade da oferta turística, com portfólio diversificado que atende desde o turismo de massa até experiências premium e personalizadas. O terceiro é a capacidade de adaptação do setor, que vem incorporando práticas de sustentabilidade, digitalização e gestão de fluxos
Além disso, a Europa se beneficia de um perfil de demanda altamente qualificado. Grande parte dos visitantes internacionais apresenta alto nível de gasto e maior permanência média, o que contribui para a expansão das receitas, muitas vezes em ritmo superior ao crescimento das chegadas.
Outro ponto relevante é a consolidação de estratégias voltadas à descentralização do turismo. Destinos tradicionalmente saturados passam a estimular a dispersão de visitantes para regiões menos exploradas, criando novos polos de interesse e reduzindo pressões sobre infraestruturas urbanas.
Nesse contexto, a Europa não apenas lidera em volume, mas também se posiciona como referência em gestão turística, inovação e desenvolvimento de produto, elementos que devem sustentar sua competitividade no médio e longo prazo.
Américas: ritmos diferentes de crescimento
O desempenho do turismo nas Américas em 2025 revela um cenário heterogêneo, com crescimento moderado no consolidado e avanços mais expressivos em sub-regiões específicas. Ao todo, o continente registrou 218 milhões de chegadas internacionais, com alta de 1% em relação ao ano anterior .
Por trás desse resultado, a América do Sul se destaca como principal vetor de crescimento. A região avançou cerca de 7%, impulsionada pela valorização de destinos naturais e culturais, pela competitividade relativa de preços e pela retomada gradual da conectividade aérea.
O Brasil lidera esse movimento. Em 2025, o país registrou 9,3 milhões de turistas internacionais, o maior volume de sua história, consolidando-se como principal mercado receptor da América do Sul e ampliando sua relevância no cenário global.
Esse avanço também se reflete na dinâmica regional. Países vizinhos se beneficiam do fortalecimento do fluxo intra-americano, como é o caso do Uruguai, que recebeu mais de 3,6 milhões de visitantes internacionais no período, com forte presença de argentinos e brasileiros .
Segundo Cristian Pos, diretor nacional de Turismo do Uruguai, o desempenho está diretamente ligado à diversidade da oferta regional e à crescente valorização da autenticidade como fator de decisão de viagem. “A América Latina reúne destinos muito diversos, o que gera uma imagem conjunta de grande variedade”, afirma .
Além disso, a região se beneficia de um contexto global no qual destinos considerados estáveis e afastados de tensões geopolíticas ganham competitividade, especialmente junto a mercados europeus e norte-americanos.
Enquanto a América do Sul avança, outras sub-regiões apresentam desempenhos distintos. A América Central cresceu 5%, consolidando-se como destino complementar, enquanto o Caribe manteve estabilidade, impactado por fatores climáticos ao longo do ano.
Já a América do Norte enfrentou desaceleração em mercados-chave, influenciando o resultado geral do continente, ainda que mantenha fundamentos sólidos, sustentados por infraestrutura consolidada e forte conectividade.
Nesse contexto, a realização da Copa do Mundo de 2026 deve funcionar como catalisador de demanda para toda a região, ampliando a visibilidade internacional e impulsionando fluxos turísticos no médio prazo.
Ásia-Pacífico: recuperação expressiva
Após um processo de reabertura mais lento em relação a outras regiões, a Ásia-Pacífico passou a registrar, em 2025, uma das recuperações mais expressivas do turismo internacional. A região alcançou 316 milhões de chegadas internacionais, com crescimento de 13% em relação ao ano anterior, evidenciando um avanço mais acelerado na fase final da retomada .
Apesar do desempenho positivo, o volume ainda se mantém ligeiramente abaixo dos níveis pré-pandemia, refletindo o impacto das restrições prolongadas adotadas por mercados-chave, como China e Japão, que só normalizaram plenamente seus fluxos recentemente.
Esse fator ajuda a explicar a intensidade do crescimento atual. Com a retomada gradual da mobilidade e a reativação da conectividade aérea, a região passa a recuperar participação no turismo global, especialmente no eixo intra-asiático, que historicamente representa a maior parte dos fluxos.
Entre os destaques, o Sudeste Asiático se consolida como um dos principais motores de expansão, impulsionado por destinos como Tailândia, Vietnã e Indonésia, que combinam competitividade de preços, diversidade de experiências e forte presença em mercados internacionais.
Ao mesmo tempo, países como Japão e Coreia do Sul registram crescimento consistente, sustentados por alta demanda reprimida e forte interesse por turismo cultural e urbano.
A retomada da China como mercado emissor também é um elemento-chave para o cenário global. Embora ainda não tenha atingido completamente os níveis anteriores à pandemia, o país volta gradualmente a influenciar fluxos turísticos em escala internacional, impactando diretamente destinos na Ásia, Europa e América do Norte.
Outro vetor relevante é o fortalecimento da classe média em diversos países da região, ampliando o número de viajantes internacionais e contribuindo para o crescimento do turismo emissor.
Do ponto de vista estrutural, a Ásia-Pacífico apresenta um ambiente altamente competitivo, com investimentos contínuos em infraestrutura, tecnologia e digitalização da experiência do viajante. A adoção de soluções digitais para controle migratório, pagamento e serviços turísticos tem acelerado a eficiência operacional e melhorado a experiência do usuário.
Ainda assim, desafios permanecem. A dependência de determinados mercados emissores, a volatilidade econômica e a necessidade de equilibrar crescimento com sustentabilidade ambiental seguem como pontos de atenção para o desenvolvimento da região.
O cenário aponta para uma retomada gradual, porém consistente, com potencial de expansão relevante nos próximos anos, à medida que a conectividade se normaliza e a demanda internacional se consolida.
Oriente Médio: o hub global
Entre todas as regiões, o Oriente Médio se destaca como o principal caso de expansão no turismo internacional no período pós-pandemia. Em 2025, a região registrou 95 milhões de chegadas internacionais, com crescimento de 1% em relação ao ano anterior, mas com um dado mais relevante: o volume já supera em 32% os níveis de 2019 .
Esse desempenho coloca o Oriente Médio como a região que mais avançou em termos relativos no cenário global, consolidando-se como um dos principais hubs turísticos e logísticos do mundo.
O crescimento é sustentado por investimentos massivos em infraestrutura, aviação e desenvolvimento de destinos. Países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar têm adotado estratégias agressivas de posicionamento internacional, combinando promoção turística, facilitação de vistos e expansão de suas companhias aéreas.
A conectividade aérea desempenha papel central nesse modelo. Companhias da região operam como grandes hubs intercontinentais, conectando Europa, Ásia e África e ampliando o fluxo de passageiros em trânsito, que muitas vezes se converte em permanência turística.
Além disso, o Oriente Médio tem investido fortemente em diversificação de produto, com foco em turismo de luxo, eventos internacionais, entretenimento e experiências culturais.
A Arábia Saudita, em particular, surge como um dos mercados mais dinâmicos, com projetos de grande escala voltados à abertura do país ao turismo internacional, dentro de uma estratégia mais ampla de diversificação econômica.
O posicionamento da região também se beneficia de um perfil de viajante com alto poder aquisitivo, além da capacidade de atrair eventos globais, como exposições internacionais, competições esportivas e grandes conferências.
Apesar do crescimento expressivo, o Oriente Médio ainda enfrenta desafios relacionados à percepção de estabilidade em determinadas áreas e à necessidade de consolidar sua imagem como destino turístico além do segmento de luxo. Ainda assim, o ritmo de expansão e o volume de investimentos indicam que a região deve continuar ganhando relevância no cenário global.
África: gradual e potencial crescimento
Na África, o turismo internacional segue em trajetória de recuperação, ainda que em ritmo mais moderado. Em 2025, o continente registrou 74 milhões de chegadas internacionais, com crescimento de 7% em relação ao ano anterior e superando em 7% os níveis pré-pandemia.
O desempenho positivo reflete o fortalecimento de destinos consolidados, como Marrocos, África do Sul e Egito, além do avanço gradual de novos mercados que buscam se posicionar no cenário internacional.
A diversidade natural e cultural do continente permanece como um dos principais atrativos, com destaque para o turismo de natureza, safáris e experiências culturais autênticas, segmentos que têm ganhado relevância junto a viajantes internacionais.
Outro fator importante é o crescimento do turismo intra-regional, impulsionado pela expansão da classe média em alguns países africanos e pelo fortalecimento da conectividade aérea dentro do continente.
No entanto, a África ainda enfrenta desafios estruturais significativos, incluindo limitações de infraestrutura, conectividade internacional restrita em determinadas regiões e questões relacionadas à percepção de segurança.
Apesar dessas barreiras, o potencial de crescimento é elevado. A combinação entre baixa base comparativa, diversidade de oferta e aumento do interesse por destinos menos explorados cria oportunidades relevantes para o desenvolvimento do turismo no continente. A tendência é de avanço gradual, sustentado por investimentos em infraestrutura, promoção internacional e integração regional.







