São Paulo (SP) – A necessidade de criar condições para uma nova fase de crescimento da aviação comercial brasileira foi o foco da participação de Celso Ferrer, CEO da Gol Linhas Aéreas, durante o Seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Casa Lide, na capital paulista. O executivo defendeu políticas de desoneração, destacou a importância da infraestrutura aeroportuária e afirmou que a aviação passou por uma “década perdida” entre 2010 e 2020.
Ao iniciar sua apresentação, Ferrer contextualizou a evolução do setor aéreo brasileiro e lembrou que a expansão mais significativa ocorreu nos anos 2000, quando o mercado passou de cerca de 30 milhões para 100 milhões de passageiros transportados por ano. “Depois temos o que chamamos de década perdida, quando o Brasil ficou gravitando em torno de 95 a 100 milhões entre 2010 e 2020”, afirma.
Segundo o executivo, a estagnação do setor teve reflexos diretos sobre o desenvolvimento do turismo e de diversos destinos brasileiros. “O efeito que isso tem no turismo é brutal. Muitos projetos deixaram de ser feitos. Muitos hotéis deixaram de ser construídos no Nordeste”, disse.
Para Ferrer, a retomada do crescimento após a pandemia foi impulsionada por dois fatores principais: os investimentos em infraestrutura aeroportuária e mudanças no comportamento do consumidor.
Ao abordar o primeiro ponto, o CEO da Gol destacou a modernização de aeroportos e a ampliação da capacidade operacional dos principais hubs do país. “As companhias estão do tamanho que estão e estão voando para os destinos que estão voando porque hoje existe infraestrutura”, afirma.
Segundo ele, a conectividade proporcionada pelos aeroportos é fundamental para a viabilidade econômica das rotas e para a expansão da malha aérea nacional. “Grande parte dos passageiros está em conexão. Só a infraestrutura permite que essas companhias montem seus bancos de conexão e alimentem destinos em todo o Brasil”, explica.
Mudança de perfil
Ferrer também chamou atenção para uma mudança no perfil de consumo dos brasileiros. Embora a tarifa média aérea tenha permanecido relativamente estável ao longo dos últimos anos, o executivo destacou que o setor passou a disputar espaço com novas formas de consumo. “A tarifa média gravita em torno de 80 a 100 dólares há anos. Não é uma questão de tarifa. Agora, o brasileiro perdeu 19% da renda durante os últimos dez anos”, afirma.
Na avaliação do executivo, a competição pela renda disponível das famílias passou a incluir plataformas de apostas esportivas e o comércio eletrônico. “Hoje eu disputo com bets, eu disputo com a compra online. As pessoas nas comunidades, abaixo de quatro salários mínimos, passam mais de oito horas na tela sendo estimuladas a fazer outro tipo de consumo mais imediato do que a viagem”, declara.
Apesar dos desafios, Ferrer avalia que a pandemia deixou um legado positivo para o setor ao estimular o interesse dos consumidores por viagens. “Se tem uma coisa boa para comemorarmos desse período horroroso que foi a pandemia, é que as pessoas tomaram a decisão de viajar, de colocar parte do orçamento delas em outra questão”, pontua.
O CEO da Gol também relacionou o crescimento recente da demanda ao fortalecimento de novas modalidades de viagem, entre elas o turismo de incentivo. “É a pessoa que vai fazer a viagem de incentivo e depois vai levar a família porque conheceu aquele destino. Essa cadeia está gerando novas formas de consumo”, afirma.
Desoneração e estímulos
Ao abordar perspectivas para o futuro, Ferrer defendeu que a próxima fase de expansão da aviação brasileira seja baseada em políticas de desoneração tributária e estímulos à conectividade. “A próxima onda tem que vir por uma política de desoneração”, declara.
Como exemplo, citou programas estaduais de redução do ICMS sobre o combustível de aviação, que contribuíram para a abertura de novas rotas e para o desenvolvimento de destinos turísticos. “A Gol não voaria para Jericoacoara se não fosse isso. Foi a primeira empresa a voar com um avião grande para lá”, afirma.
Segundo o executivo, experiências semelhantes também contribuíram para ampliar a conectividade em outros destinos brasileiros e demonstram o potencial de políticas públicas voltadas ao turismo e à aviação.
Ferrer também alertou para os riscos da reforma tributária para o setor, argumentando que a atividade turística possui um forte efeito multiplicador sobre a economia e a geração de empregos. “A reforma tributária está ignorando todo o efeito multiplicador do turismo”, salienta.
Potencial ofuscado
Ao encerrar sua participação, o CEO da Gol reforçou que o Brasil possui condições de ampliar significativamente a participação do turismo na economia nacional. “O turismo representa cerca de 7% do PIB. Quando a gente olha para países com potencial menor que o Brasil, esse percentual é o dobro. O Brasil tem potencial de pelo menos mais 50%”, afirmou.
Para Ferrer, o caminho para atingir esse crescimento passa pela construção de uma agenda comum entre empresas, entidades e governos. “Os bons exemplos estão aí. Existe muito material para colocar nesse debate e construir essa agenda para o turismo e para a aviação”, conclui.







