Gramado (RS) – Em um evento dedicado à valorização dos territórios, das Indicações Geográficas e dos produtos de origem, a discussão sobre compliance pode parecer distante dos temas mais tradicionais ligados ao Turismo e à gastronomia. No entanto, para Fabiano Machado Rosa, advogado especialista em compliance, reputação, ética e integridade estão diretamente ligadas ao valor que consumidores atribuem a produtos, marcas e experiências. Foi essa a principal mensagem da palestra “Compliance como Proteção de Reputação de Produtos e Serviços”, realizada nesta quinta-feira (11), durante o Connection Terroirs do Brasil, em Gramado.
Ao longo da apresentação, Rosa propôs uma reflexão sobre o conceito de compliance sob uma perspectiva positiva. Segundo ele, embora o termo tenha ganhado espaço recentemente em razão de escândalos corporativos e investigações financeiras, sua essência está ligada à conformidade e à construção de uma cultura ética dentro das organizações. “Compliance é uma palavra do idioma inglês que quer dizer conformidade, estar em conformidade com alguma coisa”, explicou.
O palestrante destacou que a prática vai além do cumprimento de leis e regulamentações. Para ele, trata-se de criar sistemas de integridade capazes de sustentar negócios no longo prazo, independentemente do setor de atuação.
Para ilustrar a importância da reputação na geração de valor, Rosa apresentou dois exemplos opostos. O primeiro foi o açafrão de La Mancha, produto protegido por denominação de origem e reconhecido mundialmente por sua qualidade e rastreabilidade. O segundo foi o chamado “diamante de sangue”, associado a trabalho escravo, conflitos armados e violações de direitos humanos.
Enquanto um produto ganha valor por estar vinculado a processos sustentáveis e transparentes, o outro perde espaço no mercado por carregar uma origem marcada por ilegalidades. “A proibição do diamante de sangue não é derivada da sua origem geográfica. Ela é derivada de uma origem não limpa”, afirmou.
A partir dessa comparação, o advogado argumentou que reputação se tornou um dos ativos mais relevantes para empresas, produtos e destinos turísticos. Segundo ele, a percepção construída pelos consumidores pode impulsionar ou comprometer completamente um negócio. “Reputação atrai e reputação repele”, resumiu.
Na avaliação do especialista, essa lógica se aplica especialmente aos setores de turismo, gastronomia e hospitalidade, nos quais a experiência do cliente está diretamente ligada à confiança. Um produto ou serviço não é avaliado apenas por sua qualidade final, mas também pelos processos que o tornam possível.
Rosa citou o caso das denúncias de trabalho análogo à escravidão envolvendo a cadeia vitivinícola do Rio Grande do Sul, episódio que gerou repercussão nacional e afetou a imagem do setor.
Sem entrar na discussão sobre responsabilidades individuais, ele observou que a repercussão demonstrou como questões ligadas à ética e às condições de trabalho podem impactar a percepção do público sobre um produto. “Reputação entra no centro daquilo que você pode extrair daquilo que você produz”, afirmou.
Ao longo da palestra, o especialista também chamou atenção para mudanças no comportamento dos consumidores. Segundo ele, decisões de compra passam cada vez mais por critérios relacionados a valores, sustentabilidade e responsabilidade social.
Nesse contexto, empresas que ignoram questões como inclusão, respeito aos colaboradores, condições de trabalho e impactos ambientais tendem a enfrentar dificuldades para manter a confiança do mercado. “Você vai construindo elementos que atraem ou que repelem”, observou.
Outro ponto destacado foi a relação entre reputação e experiência. Para Rosa, a escolha de um restaurante, hotel, vinícola ou destino turístico raramente acontece apenas por fatores funcionais. Histórias, símbolos, reconhecimento e credibilidade exercem papel decisivo nesse processo.
Como exemplo, ele citou a criação do Guia Michelin. Segundo o advogado, o famoso sistema de classificação surgiu para incentivar viagens e estimular o consumo turístico, transformando reputação em um poderoso instrumento de atração. “Você viaja porque a reputação atrai”, disse.
Na reta final da apresentação, Rosa defendeu que a sustentabilidade precisa ser compreendida de forma ampla, incluindo aspectos ambientais, econômicos e de governança. Para ele, a perenidade dos negócios depende da capacidade de construir relações de confiança ao longo do tempo.
Nesse sentido, compliance não deve ser visto apenas como um mecanismo de prevenção de problemas jurídicos, mas como uma estratégia para garantir a longevidade de empresas e produtos. “Não é mais uma era em que você terceiriza culpas. As culpas são suas”, afirmou ao abordar a responsabilidade das organizações sobre toda a cadeia produtiva.
Encerrando sua participação, o advogado relacionou o tema da reputação ao propósito do próprio Connection Terroirs do Brasil. Em um ambiente dedicado a produtos carregados de identidade, história e tradição, a construção de confiança se torna tão importante quanto a qualidade daquilo que chega ao consumidor. “Eu saio de casa para comer, para beber com a minha esposa, para viajar, atraído por reputações, por sabores, por sons, por experiências”, concluiu.







