Aroldo Schultz, fundador e presidente do Grupo Schultz, iniciou sua trajetória no turismo ainda jovem e, em 1986, criou a Schultz Vistos, empresa que deu origem a um grupo hoje formado por marcas como Schultz Operadora, Schultz Portugal, Vital Card, TZ Seguros e TZ Systems, que reúne POTA e Wikitravel. Neste ano, a empresa completa 40 anos e oficializa sua atuação como Grupo Schultz, em uma nova fase institucional marcada por diversificação, tecnologia e fortalecimento das marcas.
Aos 40 anos de história, o Grupo Schultz chega a um momento que combina memória, reposicionamento e futuro. Em entrevista ao Brasilturis, Aroldo Schultz revisita o início da empresa, nascida em seu quarto com meio salário mínimo, relembra os movimentos que moldaram sua atuação no Turismo, analisa o papel do agente de viagens diante da tecnologia e antecipa projetos ligados à inteligência artificial, ao turismo doméstico e à organização de dados do setor. Confira!
Quais foram os momentos mais determinantes nesses 40 anos do Grupo Schultz?
São 40 anos, então é muita coisa. Mas eu acho que um dos pontos mais determinantes foi o início. Eu tinha 17 anos e fui levado a pedir demissão da empresa em que trabalhava porque tinha levado para casa um formulário de visto americano. Foi uma situação injusta. Acabei saindo com meio salário mínimo e, como era meu segundo emprego, eu não queria sujar minha carteira de trabalho.
Daquele mal surgiu a grande oportunidade da minha vida, que foi empreender. Até então, eu nunca tinha imaginado isso. Eu não tinha experiência, era tudo muito novo. Em 1986, nasceu a empresa de vistos, no meu quarto, com meio salário mínimo. A partir dali, as coisas foram crescendo.
Outro momento importante foi quando percebi que precisávamos ser conhecidos no Brasil inteiro. Só que não tínhamos dinheiro para anunciar em grandes veículos. Não havia internet, não havia fax, era a época do telex. Então criamos uma revista chamada Vistos News, com informações sobre exigências de visto para diferentes países. As agências pediam e nós enviávamos gratuitamente. Sem querer, aquilo virou um case e a Schultz começou a ser conhecida de norte a sul do Brasil na área de vistos consulares.
Quando olha para o grupo hoje, qual foi a principal transformação do modelo de negócios?
A principal transformação foi operacional. Antigamente, para fazer qualquer coisa, você precisava mandar e-mail, fax ou telex e esperar horas por uma resposta. Hoje tudo é instantâneo, tudo funciona via sistema e banco de dados. Eu faço uma reserva de circuito Europa Mundo em dois minutos, emito um bilhete aéreo rapidamente, compro hotel e, em breve, será possível comprar seguro viagem falando com o WhatsApp.
Isso poupou tempo do agente de viagens. Ao mesmo tempo, criou um grande obstáculo, que é saber selecionar fornecedores. Hoje há muitos fornecedores e qualquer um pode usar tecnologia. Mas isso não significa que todos sejam sérios. O mercado, às vezes, esquece a história das empresas. Alguém nasce hoje e parece ser igual a quem está há décadas no setor, mas não é. Existe tradição, existe respeito e existe histórico.
Quais são os principais diferenciais competitivos do Grupo Schultz atualmente?
Um dos principais diferenciais é que sempre investimos muito em tecnologia. Somos parceiros reais dos agentes de viagens e nossa estrutura é focada em atendê-los de manhã, à tarde e à noite. Somos uma das poucas empresas em que os executivos estão acessíveis. Meu celular está disponível na internet. O nosso intuito é resolver o problema.
Outro diferencial é a solidez. Em 40 anos, não ficamos comprando Mercedes ou Ferrari. Compramos sedes próprias. Temos sede própria em Curitiba, São Paulo, Santos e Caxias do Sul. Isso dá patrimônio e segurança ao agente de viagens. Caso aconteça algum erro, temos estrutura para resolver. Muitas empresas aparecem muito na mídia, fazem eventos de gala, mas vivem pagando aluguel. Quando vem uma crise, são as primeiras a fechar.
Também somos uma empresa enxuta. Um amigo meu de Brasília me apelidou de “Enxultz”, porque fazemos com poucas pessoas o que outras empresas fazem com equipes enormes. Isso também é gestão.
Como avalia a evolução do consumidor nesses 40 anos?
O consumidor está cada vez mais independente. Com as consultas virtuais e a inteligência artificial, ele se sente mais seguro para fazer tudo sozinho. Só que alguns acabam se prejudicando. Comprar um bilhete é rápido, leva dois minutos. Resolver um problema com o bilhete é outra história.
Muitos consumidores foram direto às fontes, acharam que o agente de viagens era dispensável e agora começam a voltar atrás. Eles estão selecionando melhor esse profissional. O bom agente de viagens, o agente técnico, que sabe escolher fornecedores e cuidar do cliente, continua tendo muito futuro. Eu costumo dizer que o agente de viagens é o anjo da guarda do viajante. Ele acompanha o cliente no início, no meio e no fim.
O agente de viagens, então, não perde relevância diante da inteligência artificial?
Não. A inteligência artificial veio para agregar. Ela vai estar cada vez mais presente na nossa vida, mas a curadoria humana continuará sendo fundamental. Conforme o prompt que você faz, a IA pode te dar a resposta mais bonita do mundo. Ela pode dizer que uma empresa é maravilhosa, mostrar fotos bonitas e criar um roteiro perfeito. Mas quem garante que aquilo é confiável?
É aí que entra o profissional do turismo. A IA não substitui o agente de viagens; ela interage com ele. Quem souber usar a inteligência artificial com o apoio de um humano, seja agente, operador ou curador, terá uma vantagem enorme.
Como o Grupo Schultz está incorporando essa tecnologia?
Nós começamos antes da explosão da inteligência artificial e hoje acredito que estamos à frente do mercado. Por meio da plataforma Wikitravel, queremos organizar o turismo em nível nacional e, quem sabe, mundial. A ideia é estruturar bancos de dados com informações confiáveis, a partir das Instâncias de Governança Regionais, da regionalização do turismo, dos municípios e dos atrativos.
Também estamos desenvolvendo o nosso concierge de inteligência artificial. Você entra em qualquer cidade, informa seu perfil, se é econômico, médio ou premium, se viaja com família, criança ou pet, se quer lazer ou aventura, e ele cria um roteiro. Depois, o usuário pode escolher um agente de viagens para orçar aquele roteiro. O agente é livre para trabalhar com o operador que quiser, seja Schultz ou qualquer outro.
Aqui no Paraná, fizemos um acordo com a Abav-PR para carregar todas as agências associadas na plataforma. Se funcionar bem, queremos expandir para a Abav em todo o Brasil e, depois, para outras agências.
Também mencionou novidades para a Vital Card. O que está sendo preparado?
Queremos lançar uma funcionalidade em que o cliente possa fazer toda a interação por WhatsApp. A pessoa poderá dizer que vai viajar para Paris, depois Croácia e China, informar a idade dela, da esposa, dos filhos, o número de dias e perguntar qual seguro é indicado. O sistema vai orientar, apresentar o orçamento e permitir dar sequência à emissão. Tudo via WhatsApp.
Isso mostra como a tecnologia pode simplificar o processo sem tirar a importância do agente de viagens. A lógica é tornar a venda mais rápida, mais simples e mais eficiente.
A pandemia mudou a atuação da Schultz?
A pandemia foi uma desgraça em muitos sentidos, mas, para a Schultz, trouxe uma transformação importante: nos colocou no mercado doméstico. Nós tentávamos entrar no Brasil e não conseguíamos. Hoje vendemos metade internacional e metade nacional. Isso foi resultado daquele momento difícil.
Continuamos expandindo para países do Leste Europeu, Ásia e América do Sul, mas sem esquecer o Brasil. Estamos trabalhando Alagoas, a região de Piranhas e Rio São Francisco, Jalapão, Minas Gerais, cidades históricas, Paraná, Curitiba, litoral e Morretes. Também vamos lançar novamente um roteiro rodoviário envolvendo Curitiba, Morretes, Ilha do Mel, Joinville, Pomerode, Blumenau e Florianópolis, pensando especialmente no público do Nordeste.
Acredita que o Brasil ainda é pouco explorado turisticamente?
Muito. As pessoas não precisam ir apenas para Veneza, Barcelona, Roma ou Paris. Temos Marechal Mallet, aqui perto de Curitiba, uma cidade polonesa lindíssima. Temos Prudentópolis, Ponta Grossa, Guaraqueçaba, Ilha do Mel. Há muita coisa bonita no Brasil para ser explorada.
O turismo ainda é muito novo dentro do Brasil. As coisas estão começando a acontecer e o governo começa a dar mais atenção ao setor. Isso é importante. No Paraná, por exemplo, não temos nenhum resort no litoral. Agora há redes estrangeiras estudando vir para cá. Isso pode ser muito importante para o estado, para gerar renda e para ajudar a combater o overtourism em destinos já saturados.
Os 40 anos são mais um momento de celebração ou de reposicionamento?
São os dois. É celebração porque foram 40 anos de luta, mas essa luta não foi só minha. Foi uma luta da minha equipe. Se você fizer uma enquete com as pessoas que estão comigo, verá que muitas estão há mais de 10 anos, 15 anos, e algumas há mais de 33 anos.
Nós somos uma empresa rígida no trabalho, exigimos entrega, mas somos flexíveis no comportamento. Nunca contratei alguém para ganhar mais ou menos por ser homem, mulher, ter bigode, cabelo comprido, ser careca, preto ou branco. O que vale é a eficiência. Acho que isso faz as pessoas se sentirem acolhidas.
Tudo que conquistamos nesses 40 anos foi graças à equipe que acreditou, aos fornecedores que continuam conosco e aos agentes de viagens que seguem confiando no nosso trabalho.
Qual é o maior legado da Schultz para o turismo brasileiro?
O maior legado é o respeito que conquistamos. Respeito da equipe, dos fornecedores, dos agentes de viagens e também dos consumidores. Embora a Schultz não seja uma marca promovida diretamente ao público final, muitos consumidores chegam à agência e dizem que querem viajar com a Schultz. Isso é importante.
Também acho que nosso legado é ter construído uma empresa séria, com pés no chão. Nós não fazemos investimento maior do que a perna. Crescemos com cuidado, com seriedade e com compromisso. Esse é o legado.
Como imagina o Grupo Schultz nos próximos 10 anos?
Aroldo Schultz: Vamos estar muito diferentes. A evolução da inteligência artificial é assustadora. O que antes acontecia em 10 anos agora acontece em um. Tenho certeza de que estaremos muito mais distribuídos. O Brasil é pequeno para nós. Temos muito espaço para crescer.
O Wikitravel é uma solução escalável em nível mundial. Se não for ele, vamos nos adaptar e criar outra coisa, porque a evolução é constante. O que hoje é novidade e me empolga, na segunda-feira pode deixar de ser. Se você não pensar assim, você morre. Mas, mesmo com toda essa velocidade, eu continuo valorizando as pessoas. O agente de viagens ainda será, por muito tempo, o parceiro do consumidor.
Que mensagem deixa para o mercado neste momento de comemoração?
O turismo é uma indústria envolvente, uma indústria de muito futuro. As pessoas vão viajar cada vez mais. Se será com o auxílio da inteligência artificial ou não, o futuro vai dizer. Mas espero que continue existindo a curadoria dos agentes de viagens e que nós estejamos entre os melhores operadores para realizar os sonhos das pessoas, dando tranquilidade, confiabilidade e novas oportunidades.
Todo empreendedor precisa sonhar, mas também precisa realizar. Um passo de cada vez.

