BRL - Moeda brasileira
EUR
5,77
USD
4,91

“Ninguém vai escapar disso”: mudanças climáticas desafiam IGs, alerta especialista

Pesquisador francês Jean-Louis Le Guerroué defende equilíbrio entre tradição e prosperidade para manter a relevância das IGs

Maurício Herschander
Maurício Herschander
Repórter - E-mail: mauricio@brasilturis.com.br

Gramado (RS) – As Indicações Geográficas (IGs) surgiram como instrumentos de proteção de nomes e produtos associados a territórios específicos. Mas, diante das transformações ambientais, tecnológicas e sociais que marcam o século XXI, seu papel tende a se ampliar. Essa foi a principal reflexão apresentada pelo pesquisador francês Jean-Louis Le Guerroué durante a palestra “A Indicação Geográfica do Amanhã: Ferramenta de Preservação e Prosperidade Territorial”, realizada nesta quinta-feira (11), na programação do Connection Terroirs do Brasil, em Gramado.

Especialista em patrimônio alimentar e doutor em ciência dos alimentos, Le Guerroué argumentou que as IGs precisam ser compreendidas não apenas como mecanismos de proteção jurídica, mas como ferramentas capazes de contribuir para a preservação da identidade dos territórios e para a construção de um desenvolvimento sustentável de longo prazo. “Como a gente vai preservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, prosperar num mundo em profunda mudança?”, questionou logo no início de sua apresentação.

Segundo o pesquisador, um dos maiores desafios para o futuro das Indicações Geográficas está relacionado às mudanças climáticas. Na avaliação dele, nenhum território ficará imune aos impactos ambientais já observados em diferentes regiões do planeta. “Essa mudança climática vai atingir todo mundo. Ninguém vai escapar disso”, afirmou.

Para Le Guerroué, produtos agrícolas, alimentos e até segmentos do artesanato dependentes de matérias-primas naturais precisarão adaptar seus processos sem perder as características que lhes conferem identidade e reputação.

Além da questão climática, o especialista citou outras transformações que influenciam diretamente o universo das IGs. Entre elas estão a evolução tecnológica, a renovação geracional e as mudanças no comportamento dos consumidores.

Segundo ele, o público atual busca compreender a origem dos produtos, sua autenticidade e seus impactos ambientais e sociais. Não basta mais adquirir um item apenas pela qualidade percebida. “O consumidor hoje em dia é um consumidor ativo. Ele quer saber de onde vem o produto, ele quer saber da autenticidade do produto e da sustentabilidade do produto”, destacou.

Ao abordar o conceito de território, Le Guerroué comparou as regiões produtoras a um organismo dotado de um DNA próprio. Esse patrimônio seria formado por elementos naturais, culturais, sociais, institucionais e simbólicos que, juntos, constroem a identidade de cada localidade.

Entre esses fatores estão biodiversidade, recursos hídricos, saberes tradicionais, gastronomia, relações de cooperação, reputação e reconhecimento histórico.

Na visão do pesquisador, preservar esse patrimônio é tão importante quanto gerar prosperidade econômica. Por isso, ele defendeu um equilíbrio constante entre tradição e inovação. “Se temos um território que só trabalha na preservação sem buscar prosperidade, vai se criar um museu. Mas se a gente buscar prosperidade sem preservação, vai acabar descaracterizando o território”, afirmou.

O pesquisador também dedicou parte da palestra à explicação do conceito de terroir, palavra amplamente utilizada no universo das Indicações Geográficas. Segundo ele, o termo vai muito além das características naturais de uma região.

Para Le Guerroué, terroir é o resultado da interação entre fatores ambientais e humanos construídos ao longo do tempo. É essa combinação que gera tipicidade, autenticidade e reputação. “Esse é o terroir. Todos esses elementos em conjunto”, explicou.

Ao tratar do futuro das IGs, o especialista afirmou que a proteção do nome de um produto continuará sendo importante, especialmente diante de acordos comerciais internacionais. Porém, o conceito tende a ganhar uma dimensão mais ampla. “Hoje em dia, as IGs do mundo inteiro são reconhecidas para ser estratégia de uso territorial”, observou.

Nesse cenário, temas como biodiversidade, governança, inclusão social, sucessão geracional e adaptação climática passam a integrar as discussões sobre o desenvolvimento dos territórios certificados.

Le Guerroué também chamou atenção para a necessidade de ampliar a participação de jovens, mulheres e pequenos produtores nos processos de gestão das Indicações Geográficas. Segundo ele, por se tratar de um bem coletivo, as IGs precisam manter caráter inclusivo e representar efetivamente as comunidades envolvidas.

Outro ponto destacado foi a necessidade de aperfeiçoar os chamados cadernos de especificações técnicas, documentos que estabelecem as regras de produção de cada IG. Na avaliação do pesquisador, esses instrumentos precisarão incorporar, cada vez mais, parâmetros relacionados à sustentabilidade e à resiliência climática.

Apesar dos desafios, o especialista demonstrou otimismo com o cenário brasileiro. Ele destacou a biodiversidade, a diversidade cultural e o crescimento da rede de instituições e profissionais envolvidos com o tema. “O Brasil está num momento muito bom, muito histórico”, afirmou.

Ao encerrar sua participação, Le Guerroué resumiu sua visão sobre o papel das Indicações Geográficas nas próximas décadas. Para ele, o objetivo não deve ser apenas proteger produtos, mas garantir que os territórios permaneçam vivos, relevantes e capazes de gerar oportunidades para as futuras gerações. “Não é só proteger o produto. É proteger os ativos territoriais, o que cria o DNA do território”, concluiu.

LEIA MAIS NOTÍCIAS

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, 
necessariamente, a opinião deste jornal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

MAIS LIDAS

NEWSLETTER

    AGENDA 2026

    Labace

    REDES SOCIAIS

    PARCEIROS