Thiago Borges é diretor comercial do Vale Suíço Resort e presidente do Conselho Diretor da Resorts Brasil no biênio 2026-2027. É graduado em Marketing, com especializações em gestão hoteleira, além de ter concluído o Programa de Excelência em Gestão Hoteleira, em parceria com a FGV. Na Resorts Brasil, atuou como vice-presidente de Relações Institucionais entre 2022 e 2025, período em que participou de importantes pautas para o setor, incluindo a defesa e manutenção do Perse. À frente do Conselho, tem como prioridades o fortalecimento institucional da associação, a inteligência humana e coletiva, a qualificação do suporte aos associados e o crescimento sustentável do segmento de resorts no Brasil.
O mercado brasileiro de resorts entra em uma nova etapa, marcada pela consolidação dos resultados alcançados nos últimos anos e por desafios que exigem maior eficiência das operações. Apesar da demanda continuar aquecida, o setor começa a conviver com um ritmo de crescimento mais moderado, custos operacionais elevados, juros que pressionam novos investimentos e mudanças regulatórias no horizonte. Ao mesmo tempo, tecnologia, inteligência de dados, personalização e novas experiências ganham espaço nas estratégias dos empreendimentos. Em entrevista ao Brasilturis, Thiago Borges, presidente do Conselho da Resorts Brasil, analisa o atual momento do segmento, revisita o ciclo de recuperação pós-pandemia, aponta os principais obstáculos à rentabilidade e revela as tendências que devem orientar os resorts brasileiros nos próximos anos.
Como a Resorts Brasil define o atual momento do mercado brasileiro de resorts?
Eu diria que estamos vivendo um momento de consolidação e transformação. Depois de alguns anos de expansão muito forte da demanda, o setor entra em uma fase de crescimento mais moderado. Os indicadores continuam positivos, mas já não estamos naquele movimento tão acelerado que marcou os últimos anos.
No acumulado de janeiro até junho deste ano, nossa amostra registrou ocupação de 67,3%, crescimento de aproximadamente 5% em relação ao mesmo período de 2025. A diária média avançou 8,2%.
Ao mesmo tempo, crescimento de receita não significa necessariamente crescimento de rentabilidade na mesma proporção. Os resorts também convivem com aumento dos custos operacionais, especialmente em uma atividade intensiva em pessoas e com estruturas bastante complexas. Além disso, o ambiente de juros elevados impacta a atratividade e a viabilidade de novos investimentos, especialmente em projetos hoteleiros, que têm ciclos longos de maturação.
E temos mudanças estruturais importantes no horizonte, como a implementação da reforma tributária e a discussão sobre redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1. Portanto, a agenda do setor está mudando. Continuamos falando de crescimento, mas cada vez mais precisamos falar de produtividade, eficiência, rentabilidade e segurança para investir.
Olhando para os últimos anos, qual foi o melhor período para o mercado brasileiro de resorts e quais fatores foram determinantes para esse desempenho?
O período de retomada após a pandemia foi certamente um dos mais importantes para o mercado brasileiro de resorts. Tivemos uma valorização muito forte do turismo doméstico e uma mudança na própria relação do brasileiro com as viagens de lazer. Produtos capazes de reunir hospedagem, gastronomia, entretenimento, natureza e experiências para toda a família ganharam ainda mais relevância.
É importante reconhecer também o papel do Perse nesse processo de recuperação. O programa foi criado em um momento extremamente crítico para turismo e eventos e contribuiu para dar condições para que empresas atravessassem aquele período, recuperassem sua capacidade financeira e retomassem investimentos.
Ao mesmo tempo, vimos muitos próprios resorts fazendo sua parte. Houve um ciclo importante de reinvestimento em estruturas, renovação de apartamentos, gastronomia, lazer, entretenimento e novas experiências. Ou seja, o aumento da demanda foi acompanhado por uma evolução de vários produtos.
Talvez esse seja o principal legado daquele período: não foi apenas uma recuperação de ocupação e receita. O setor saiu da crise com um produto mais qualificado, maior profissionalização da gestão e uma percepção de valor mais forte junto ao consumidor brasileiro.
Agora, o desafio é diferente: preservar essas conquistas e continuar investindo em um ambiente econômico mais desafiador, no qual custo de capital, custos operacionais e mudanças regulatórias passam a ter peso ainda maior nas decisões empresariais.
O que os indicadores atuais revelam sobre o comportamento da demanda por resorts no Brasil?
Os números continuam mostrando uma demanda saudável, mas já percebemos uma normalização do ritmo de crescimento.
No primeiro semestre de 2026, considerando a mesma base de resorts analisada pelo nosso Radar, a ocupação chegou a 67,3%, frente a 64,1% no mesmo período de 2025. E também houve crescimento no TREVPAR, em 10,5%. Isso é positivo, mas temos que considerar o cenário inflacionário de custos.
Ao mesmo tempo, o consumidor está mais atento ao orçamento e mais criterioso. Portanto, sustentabilidade, para nós, significa conseguir preservar demanda e valor percebido sem perder de vista a rentabilidade das operações. É justamente por isso que temos ampliado a inteligência de dados do setor por meio do Radar Resorts Brasil.
Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelos resorts brasileiros em relação à ocupação, tarifas, custos e rentabilidade?
Acredito que o principal desafio hoje seja preservar a rentabilidade em um ambiente de custos crescentes e profundas transformações operacionais.
Resorts são operações complexas e intensivas em mão de obra. Temos hospedagem, alimentos e bebidas, lazer, manutenção, entretenimento, governança e diversas outras atividades funcionando simultaneamente, muitas delas sete dias por semana.
Por isso, acompanhamos com muita atenção o debate sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1. A discussão sobre qualidade de vida e evolução das relações de trabalho é legítima, mas precisamos avaliar também como uma mudança dessa dimensão será implementada em setores de operação contínua, especialmente em um cenário de pleno emprego e dificuldade de atração de profissionais. Sobretudo, é importante destacar o custo dessa medida no segmento e o potencial impacto nos preços ao consumidor.
Ao mesmo tempo, temos a implementação da reforma tributária, que também exige preparação e modifica o cenário de custos. Em resorts, a Reforma é ainda mais complexa diante da diversidade de fatores.
Nesse contexto, produtividade, tecnologia, qualificação das pessoas e eficiência operacional deixam de ser apenas oportunidades e passam a ser questões estratégicas para a sustentabilidade dos negócios.
O perfil do consumidor de resorts mudou nos últimos anos? Quais são as principais demandas e expectativas do hóspede atualmente?
Mais do que uma mudança radical de perfil, percebemos uma evolução significativa nas expectativas do consumidor.
O hóspede está mais informado, mais conectado e mais exigente em relação à experiência que recebe. Ele não avalia apenas quarto, alimentação ou infraestrutura isoladamente, mas a jornada como um todo: facilidade de reserva, atendimento, gastronomia, entretenimento, bem-estar, conectividade, personalização e relação custo-benefício.
Também percebemos uma valorização maior de experiências com significado. Família, descanso, natureza, gastronomia, wellness e entretenimento passaram a ocupar um espaço importante na decisão de viagem.
Existe ainda uma expectativa crescente por personalização. O hóspede não quer necessariamente mais opções, mas opções que façam sentido para ele.
Por isso, acreditamos que o grande diferencial competitivo dos resorts nos próximos anos será a capacidade de transformar infraestrutura em experiência. Ter uma grande estrutura continuará sendo importante, mas saber utilizar essa estrutura para criar experiências relevantes, fluidas e memoráveis será cada vez mais determinante.
Quais ferramentas, tecnologias e soluções de inteligência de dados estão sendo implementadas pelos resorts para melhorar a gestão, a experiência do hóspede e a rentabilidade?
A utilização de dados deixou de ser uma tendência e passou a ser uma necessidade para a sustentabilidade do setor.
Hoje, os resorts avançam principalmente em soluções relacionadas à gestão de receitas, CRM, distribuição, análise de comportamento do consumidor, automação de processos, personalização da jornada e inteligência comercial. Também existe uma oportunidade crescente para aplicação de tecnologia na gestão energética, hídrica, de alimentos e bebidas e de equipes.
A inteligência artificial deve acelerar esse movimento, principalmente em áreas como previsão de demanda, precificação, atendimento, recomendação de experiências e automação de tarefas repetitivas.
Na própria Resorts Brasil, inteligência e inovação passaram a ocupar posição central no ciclo estratégico 2026–2030.
Entendemos, portanto, que tecnologia não deve ser tratada como um fim. O objetivo é utilizar dados e ferramentas digitais para tomar decisões melhores, operar com mais eficiência e, principalmente, oferecer uma experiência mais relevante ao hóspede.
Quais tendências internacionais devem ganhar força no mercado brasileiro de resorts nos próximos anos, especialmente em áreas como inteligência artificial, personalização, wellness, gastronomia, entretenimento e sustentabilidade?
Vejo todas essas tendências convergindo para uma palavra: experiência.
A inteligência artificial e os dados permitirão conhecer melhor o hóspede e personalizar sua jornada. Wellness deixa de significar apenas spa e passa a envolver alimentação, sono, atividade física, natureza e bem-estar. Gastronomia e entretenimento ganham protagonismo e passam a fazer parte da própria identidade do produto.
Sustentabilidade também deixa progressivamente de ser tratada como uma iniciativa paralela e passa a integrar decisões de gestão, eficiência e posicionamento.
E acredito muito na valorização das experiências conectadas ao território. O viajante busca conforto, mas também quer conhecer histórias, cultura, gastronomia e características daquele destino.
O resort do futuro não será necessariamente aquele que tiver mais estruturas, mas aquele que conseguir transformar sua estrutura em experiências relevantes e memoráveis.
Quais são as principais expectativas da Resorts Brasil para o mercado brasileiro nos próximos três a cinco anos e quais devem ser os próximos passos do setor para sustentar esse crescimento?
Mais do que projetar um novo ciclo de crescimento para os próximos anos, acreditamos que o setor entra em um período em que eficiência, produtividade e rentabilidade estarão no centro das decisões.
Os resorts vêm de anos de desempenho positivo e de investimentos importantes na qualificação dos seus produtos. Agora, enxergamos um cenário de maior pressão sobre os custos das operações, somado às transformações trazidas pela reforma tributária e às possíveis mudanças nas jornadas de trabalho. Para um setor intensivo em mão de obra e com operações complexas, isso exige preparação.
A prioridade será encontrar novas formas de ganhar eficiência sem comprometer a qualidade da experiência entregue ao hóspede. Isso passa por tecnologia, inteligência de dados, revisão de processos, desenvolvimento de pessoas e novos modelos de gestão.
Nesse contexto, a Resorts Brasil tem um papel importante em produzir inteligência, promover benchmarking e estimular a troca de boas práticas, ajudando os associados a encontrar soluções para desafios que são comuns ao setor.
Nos próximos anos, mais do que crescer, nosso desafio será tornar as operações cada vez mais eficientes, produtivas e sustentáveis economicamente, preservando a qualidade e a capacidade de encantar o hóspede que caracteriza o produto resort.









