Há decisões que não entram em atas. Não aparecem em relatórios. Não viram números de mercado nem gráficos de crescimento. Mas acabam dizendo muito sobre o que uma associação realmente representa. No dia 29 de abril, enquanto a Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas completava 23 anos de história, uma mudança silenciosa de agenda revelou mais do que qualquer discurso institucional poderia traduzir.
A celebração, inicialmente prevista para o dia 28 em nossa redação, teve que ser remarcada para a última terça-feira (5) para que este jornalista pudesse se recuperar de um problema de saúde. O gesto, simples à primeira vista, acabou funcionando como símbolo de algo que a própria Alagev vem tentando construir há mais de duas décadas: uma comunidade onde as conexões extrapolam o networking e passam a fazer parte da vida das pessoas.
Em um mercado conhecido pela velocidade, pela pressão constante e pela necessidade de decisões em tempo real, a humanização talvez seja hoje um dos ativos mais valiosos da entidade. E foi justamente essa percepção que permeou a conversa com Luana Nogueira, diretora executiva da Alagev, e Joyce Macieri, presidente do Conselho da entidade.

Mais do que celebrar uma trajetória consolidada, o encontro acabou se transformando em um retrato do momento vivido pela Alagev: uma entidade que olha para tecnologia, governança, inteligência artificial e profissionalização, mas que insiste em preservar o senso de pertencimento em um setor frequentemente consumido pela urgência.
“Uma associação viver 23 anos é muita resiliência, muito trabalho contínuo. É o esforço de muitas pessoas que, voluntariamente, estiveram na liderança da Alagev ao longo desse tempo. Pessoas que passaram, outras que permaneceram, mas todas ajudando a construir essa pavimentação sólida”, destaca.
A fala carrega o peso de um mercado que opera praticamente sem pausas. O turismo corporativo e os eventos vivem em estado permanente de adaptação. Crises geopolíticas, mudanças econômicas, conflitos internacionais, instabilidades aéreas e novas demandas corporativas alteram cenários diariamente. Para Luana, sobreviver nesse ambiente exige mais do que estratégia. Exige propósito.
“O nosso mercado é 24 horas por dia, sete dias por semana. Se a gente não tiver pessoas capacitadas, resilientes e apaixonadas pelo que fazem, já teríamos sucumbido”, afirma.
A sensação de pertencimento talvez explique parte da força construída pela entidade ao longo dos anos. Não por acaso, durante a conversa, as executivas repetem diversas vezes palavras como “acolhimento”, “escuta”, “compartilhamento” e “conexão”. Estes termos é justamente o que ajudam a explicar por que tantos profissionais enxergam a associação quase como uma extensão da própria carreira.
Jornada de conhecimento
A própria trajetória de Joyce traduz isso. Formada em Letras e com mais de duas décadas de atuação como secretária executiva, ela entrou no universo das viagens corporativas sem experiência prévia no setor. O primeiro contato com a Alagev veio justamente em um momento de insegurança profissional.
“Eu não sabia nem como começava o meu dia. Estava apenas apagando incêndios”, relembra. “Foi dentro da Alagev que encontrei pessoas dispostas a compartilhar conhecimento sem julgamento”, contou.
A executiva conta que buscou cursos, capacitações e conexões para entender um mercado extremamente técnico e dinâmico. O que encontrou, segundo ela, foi uma rede de apoio que ajudou não apenas na construção profissional, mas também no desenvolvimento de confiança. “Essa é a chave da Alagev. É um hub de conexões onde você encontra clientes, fornecedores e pessoas dispostas a ajudar”, diz.
Essa visão acabou moldando uma das principais prioridades da atual gestão: transformar educação em ferramenta estratégica para toda a cadeia do turismo corporativo. Nos últimos meses, a entidade acelerou investimentos em capacitação, ampliou a oferta de cursos gratuitos para associados, criou novos webinars e passou a discutir temas sensíveis para o setor, como reforma tributária, sustentabilidade financeira e profissionalização da cadeia.
Mas a proposta vai além do ensino tradicional. A Alagev também começou a incorporar inteligência artificial aos seus processos educacionais por meio da “DeIA”, plataforma desenvolvida para atuar como assistente de aprendizado e suporte aos profissionais do setor.
Segundo Luana, o objetivo é acompanhar a mudança no comportamento das novas gerações e adaptar a forma de transmitir conhecimento. “O jeito tradicional de ensinar mudou muito. Hoje tem gente que consome um conteúdo de 30 segundos e já consegue absorver um conceito importante. Precisamos conversar com todos os públicos”, explica.
Participação mais ativa do que nunca
Ao mesmo tempo em que olha para inovação, a entidade também intensificou o trabalho institucional e político. A associação passou a participar de grupos ligados ao programa Vai Turismo, iniciativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), levando pautas do turismo corporativo para discussões com governos estaduais e federais.
A movimentação busca reforçar o peso econômico do segmento. Segundo dados citados pela entidade, o mercado de viagens e eventos corporativos movimenta cerca de R$ 148 bilhões e segue batendo recordes sucessivos. “O corporativo sustenta grande parte da cadeia turística. Ele mantém demanda aérea linear ao longo do ano e ajuda a equilibrar sazonalidades”, afirma Luana.
A executiva defende que o setor precisa ganhar mais protagonismo dentro das políticas públicas, especialmente quando o assunto envolve infraestrutura, conectividade aérea e desenvolvimento regional.
João Pessoa, por exemplo, foi citada durante a conversa como um caso emblemático. A cidade vive forte expansão hoteleira e recebe novos investimentos em resorts e centros de eventos, mas ainda enfrenta gargalos de acesso aéreo e logística. “Não adianta ter cinco mil apartamentos em resorts se a conectividade não acompanha”, pontua.
A associação também ampliou a profissionalização interna. A atual gestão implementou metodologias de OKR, criou comitês estratégicos dentro do conselho e estruturou processos para garantir continuidade institucional independentemente das trocas de liderança. “Não dá para depender apenas da memória das pessoas. Precisamos construir legado”, comentou Luana.
Essa preocupação com continuidade se conecta diretamente à essência da entidade. Ao longo da entrevista, fica evidente que a Alagev entende o turismo corporativo como um organismo coletivo, onde ninguém cresce sozinho. O exemplo mais emblemático dessa lógica apareceu justamente em um dos momentos mais delicados citados durante a conversa: o gerenciamento de crise envolvendo colaboradores em Dubai durante os conflitos no Oriente Médio.
Joyce relembra que precisou montar planos emergenciais de retirada de funcionários e familiares da região, recorrendo imediatamente à rede criada dentro da associação. “Na mesma noite já havia webinar, benchmark e troca de informações sobre rotas seguras”, conta.
Em um mercado que vive da operação contínua, o suporte mútuo se torna quase uma necessidade de sobrevivência.
E talvez seja exatamente por isso que a celebração dos 23 anos tenha ganhado um significado ainda mais simbólico após a mudança de data. Porque, no fim, a decisão de esperar alguém se recuperar para comemorar junto não fala apenas sobre gentileza. Fala sobre memória coletiva, sobre relações que ultrapassam contratos e sobre um setor que, apesar da pressão diária, ainda tenta preservar algo raro no ambiente corporativo contemporâneo: humanidade.
É justamente essa combinação entre estratégia e afeto que parece sustentar a Alagev depois de mais de duas décadas. Uma entidade que fala de números bilionários, inteligência artificial, governança e advocacy, mas que ainda encontra espaço para lembrar que, antes de qualquer operação, reserva ou evento, existem pessoas.
Meus sinceros parabéns à Alagev!








