São Paulo (SP) – A valorização dos destinos brasileiros e a necessidade de ampliar o mercado doméstico de viagens foram os principais temas abordados por John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas, durante sua participação no Seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Casa Lide, em São Paulo.
Em uma apresentação marcada por críticas aos custos da aviação e por um discurso em defesa do turismo nacional, o executivo afirmou que o Brasil precisa aprender a promover suas próprias atrações e incentivar os brasileiros a viajarem mais dentro do país. “O brasileiro não fala bem do Brasil. O brasileiro ganha muito da sua renda dentro do Brasil e gasta seu dinheiro fora do Brasil”, declara.
Ao abordar o tema central do evento, Rodgerson trouxe a reflexão sobre a concentração das viagens de incentivo em destinos internacionais, especialmente Orlando, nos Estados Unidos. “O maior parte das campanhas de venda, de todas as empresas, o grande sonho é ir para Disney. As três empresas têm voo para Disney, mas por que nós não podemos ter sonho de conhecer o Nordeste do Brasil, a Amazonia, as belas praias de Trancoso?”, questiona.
Segundo o CEO da Azul, o crescimento do turismo doméstico depende menos das viagens corporativas tradicionais e mais da ampliação do número de brasileiros viajando por lazer dentro do próprio país. “70% dos viajantes do país estão viajando a negócio. Não é fazer Itaú, Vale ou Petrobras viajarem mais que vai fazer o bolo crescer. O bolo do Brasil vai crescer quando o funcionário dessas empresas decidir viajar dentro do Brasil”, afirma.
Rodgerson também chama atenção para a sazonalidade de destinos turísticos nacionais e para a concentração da demanda em determinados períodos do ano. Como exemplo, citou Trancoso (BA), frequentemente associado a tarifas elevadas durante as festas de fim de ano. “Aqueles mesmos hotéis que todo mundo quer no fim do ano existem durante outras 50 semanas, quando o preço é muito mais acessível”, argumenta.
Gargalos
O executivo destacou ainda a importância da redução do ICMS sobre o combustível de aviação para estimular a conectividade regional. Segundo ele, programas implementados em estados como São Paulo contribuíram para a ampliação da oferta de voos e para o desenvolvimento de destinos turísticos.
“Nós fizemos um grande projeto junto com o governo do Estado de São Paulo para baixar o ICMS e o que aconteceu? Muito mais voos dentro do estado e trazendo pessoas para cá”, relata.
Durante sua apresentação, Rodgerson voltou a criticar os custos operacionais da aviação brasileira e classificou a tributação do setor como um entrave ao crescimento econômico. “Tributar a aviação é a coisa mais burra que você pode fazer”, declara.
Na avaliação do executivo, o impacto vai muito além das companhias aéreas, afetando toda a cadeia turística e milhares de trabalhadores que dependem do fluxo de visitantes. “Se dez milhões de pessoas viajarem menos, são dez milhões de pessoas a menos no Uber, no restaurante, nas pousadas, comprando queijo na praia e gerando renda para outras famílias”, explica.
O CEO da Azul também criticou o custo do combustível de aviação no país. “O Brasil tem o combustível mais caro do mundo. Um país que é abençoado por ter combustível no chão e capacidade para refiná-lo. Não faz sentido”, disse.
Outro ponto abordado foi a judicialização do setor aéreo. Segundo Rodgerson, o volume de ações movidas contra companhias aéreas no Brasil é desproporcional ao tamanho do mercado nacional. “Nós temos 3% dos voos mundiais e 98% dos processos judiciais da aviação do mundo”, afirmou.
Apesar dos desafios, o executivo defendeu que o Brasil tem potencial para ampliar significativamente seu mercado de viagens e alcançar patamares observados em países da região. “Vamos sonhar grande. Não estou falando que vamos chegar onde Europa e Estados Unidos estão. Mas só chegar onde Chile, Colômbia e México estão. Hoje estamos atrás dos nossos pares da região”, declara.
Ao encerrar sua participação, Rodgerson reforçou a importância de estimular o turismo doméstico e ampliar o acesso da população ao transporte aéreo. “Mais de 80% da população brasileira nunca andou de avião. É aí que está a oportunidade de crescimento”, conclui.

