São Paulo (SP) – Empreender não significa necessariamente criar uma startup, captar milhões ou buscar uma rodada de investimentos. Para Romero Rodrigues, fundador do Buscapé e atual investidor e sócio da Hero Seguros, a lógica por trás da construção de empresas pode ser aplicada também a uma agência de viagens, independentemente de seu tamanho: identificar a principal restrição do negócio, entender a dor do cliente, testar soluções e avançar etapa por etapa.
Essa foi uma das reflexões apresentadas nesta quarta-feira (9), durante uma nova edição do Hero Talks, realizada na sede da Hero Seguros, em São Paulo. O encontro marcou a inauguração do novo estúdio da companhia e colocou Rodrigues diante de profissionais do mercado para uma conversa sobre negócios, inovação, inteligência artificial, liderança e os desafios que acompanham quem decide construir uma empresa.
A trajetória do empresário ajudou a conduzir a discussão. Rodrigues fundou o Buscapé ainda durante a faculdade, atravessou o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000 e permaneceu no negócio até depois de sua venda, em 2009. Posteriormente, migrou para o universo dos investimentos e passou a utilizar justamente os erros, dificuldades e “cicatrizes” acumulados como empreendedor para avaliar e orientar outros fundadores. “Não existe fórmula de sucesso. Existe que você vai apanhar muito. Se você não apanhar, é porque você não está incomodando. Você não vai fazer uma coisa grande se não incomodar”, resumiu.
Resolva um problema de cada vez
Embora boa parte da conversa tenha partido do universo das startups, Rodrigues fez questão de afastar a ideia de que essas ferramentas servem somente para empresas de tecnologia. Para ele, um dos princípios mais importantes do empreendedorismo é identificar qual problema precisa ser resolvido naquele momento, concentrar esforços nele e somente depois avançar para o próximo.
Ao explicar como funcionam as diferentes etapas de investimento de uma startup, o empresário apresentou uma lógica que pode ser transportada para negócios menores. Em vez de tentar resolver simultaneamente vendas, marketing, tecnologia, atendimento, expansão e novos produtos, a empresa precisa entender qual deles representa seu principal gargalo naquele estágio.

Para uma agência de viagens, por exemplo, a questão pode estar na aquisição de clientes, na conversão dos contatos que já chegam, na eficiência operacional ou no pós-venda. A dimensão da empresa muda, mas o raciocínio permanece. “Não importa o tamanho. Qual é o meu ponto? Onde eu tenho que atacar? O que eu tenho que fazer? Como é que eu me diferencio? Como é que eu vejo a dor do consumidor e redesenho meu processo de venda, meu processo depois do contrato, meu pós-venda?”, provocou Rodrigues.
Essa reflexão ganha uma camada adicional no Turismo, formado por milhares de pequenos e médios negócios. Na avaliação de Rodrigues, estruturas menores possuem uma característica que pode se transformar em vantagem competitiva: agilidade.
Uma grande organização precisa mobilizar equipes, sistemas e diferentes níveis de decisão para alterar um processo. Um pequeno empresário pode identificar um problema e mudar rapidamente a maneira como vende, atende ou se relaciona com o cliente. “Você tem uma vantagem de ser pequeno. Você pode mudar o processo, só precisa olhar no espelho e combinar com o cara que está lá”, afirmou.
Isso não significa, entretanto, mudar constantemente de direção. Um dos alertas apresentados no Hero Talks foi justamente sobre foco. Quando um negócio começa a funcionar, a multiplicação de oportunidades pode levar o empreendedor a tentar ocupar diferentes mercados simultaneamente e perder qualidade naquilo que originalmente o diferenciou. Rodrigues defendeu uma espécie de disciplina de crescimento: reconhecer oportunidades sem permitir que elas desviem recursos das questões realmente prioritárias.
Questione os dogmas do Turismo
Talvez uma das provocações mais diretamente relacionadas ao setor de viagens tenha surgido quando Rodrigues falou sobre os “dogmas” empresariais: processos mantidos durante anos simplesmente porque “sempre foram feitos assim”.
O executivo lembrou que enfrentou essa situação dentro do próprio Buscapé. Uma regra tecnológica criada nos primeiros anos da companhia permaneceu sendo tratada como imutável mesmo depois de o contexto que justificava sua existência ter desaparecido. Para Rodrigues, empresas precisam revisar constantemente essas limitações antes que processos antigos passem a determinar o funcionamento de negócios modernos.
Para ilustrar, ele recorreu justamente à hotelaria. Rodrigues citou o caso hipotético de um voo chegando a Orlando pela manhã com centenas de passageiros que precisarão esperar até a tarde pelo check-in, enquanto quartos desocupados naquela mesma manhã permanecem indisponíveis por causa de uma lógica operacional construída décadas atrás. “Quantos desses dogmas não existem? Já tem um no Turismo. Quantos não existem no seguro viagem e nos outros seguros? E no negócio de vocês?”, questionou.
A provocação chama atenção para o olhar para processos cotidianos com a mesma perspectiva. Horários, formas de pagamento, atendimento, comunicação, construção de pacotes e pós-venda podem carregar regras que já não correspondem ao comportamento atual do viajante.
Produtividade e escuta ativa
A inteligência artificial também ocupou parte relevante do Hero Talks. Rodrigues separou a discussão entre quem desenvolve tecnologias de fronteira e empresas que utilizam ferramentas já existentes para inovar em produtos, serviços e modelos de negócio.

Segundo ele, grande parte das oportunidades brasileiras está justamente na segunda categoria. Não é necessário desenvolver uma nova tecnologia para inovar. É possível utilizar aquilo que já está disponível para solucionar ineficiências e melhorar a experiência entregue ao consumidor.
Esse raciocínio também altera a discussão sobre o impacto da IA no emprego. Rodrigues propôs uma escolha simples para os empresários: utilizar um ganho hipotético de 50% de produtividade para reduzir a equipe ou manter a estrutura e buscar um faturamento 50% maior. “Você vai manter o mesmo número de pessoas, mas, como as pessoas passam a produzir 1,5 vez mais, você vai faturar 50% mais”, apontou.
Na visão do investidor, a oportunidade está em utilizar a tecnologia para potencializar os negócios. Para uma agência, isso pode significar reduzir tarefas repetitivas para que os profissionais concentrem tempo em relacionamento, vendas, curadoria e atendimento, áreas nas quais a capacidade de conhecer o cliente continua sendo determinante.
Outra característica valorizada por Rodrigues é o que o mercado norte-americano chama de coachability, a capacidade de receber uma provocação, refletir sobre ela e decidir racionalmente se deve incorporá-la ao negócio. O comportamento é diferente tanto da teimosia quanto da simples obediência. Segundo ele, os empreendedores que mais se destacam são aqueles que recebem uma sugestão, investigam o problema, conversam com equipe e clientes e transformam aquela provocação em uma solução própria.
“O mais legal é quando você dá uma ideia para o cara e ele pega aquela ideia, começa a pensar, melhorar, lapidar. Conversa com o sócio, com o time, com os clientes”, explicou.
A leitura, também, pode ser aplicada especialmente à relação com o próprio consumidor. Feedbacks, mudanças de comportamento e novas demandas podem funcionar como sinais para revisar produtos e processos, sem que cada nova tendência necessariamente provoque uma mudança completa de estratégia.
Empreender também exige resistência
O encontro ainda abordou um aspecto menos visível da construção de negócios: a pressão sobre quem ocupa posições de liderança. Rodrigues falou sobre síndrome do impostor, saúde mental, esporte, terapia e redes de apoio, reconhecendo que a escalada profissional pode tornar as decisões progressivamente mais solitárias. Para ele, o ambiente atual oferece uma vantagem que não existia quando começou a empreender: acesso muito maior a conhecimento, comunidades, mentores e conteúdos capazes de encurtar a curva de aprendizado.

Ainda assim, não existe tecnologia capaz de eliminar completamente as dificuldades de empreender. Rodrigues encerrou essa parte da conversa recorrendo à ideia de que, em muitos casos, vence quem consegue continuar de pé.“É difícil. É para ser difícil. Tem carreiras mais fáceis. É muito menos glamoroso do que as pessoas olham de fora”, afirmou.
No turismo, onde muitos negócios são comandados diretamente pelos próprios fundadores, a mensagem do Hero Talks encontra terreno particularmente familiar. Entre inteligência artificial, novos modelos de negócio e ferramentas digitais, a principal provocação de Rodrigues foi menos tecnológica e mais empresarial: identificar dores reais, questionar processos antigos, manter foco e utilizar a agilidade como vantagem para continuar evoluindo.














