São Paulo (SP) – O turismo corporativo brasileiro movimenta bilhões de reais, conecta uma extensa cadeia de fornecedores e responde diretamente às decisões tomadas sobre infraestrutura, tributação e desenvolvimento econômico. Para Joice Macieri, presidente do Conselho da Alagev, transformar esse peso econômico em maior participação nos espaços de decisão será uma das prioridades da entidade.
A executiva destacou que sua chegada à presidência do Conselho proporcionou uma nova perspectiva sobre o funcionamento da associação. Depois de quatro anos participando do colegiado, ela passou a acompanhar mais diretamente os bastidores, as demandas dos associados e a construção da agenda institucional.
“Eu estava já na cadeira de conselho há quatro anos e imaginava que sabia tudo. Todos os dias eu aprendo algo novo”, conta. “É um trabalho voluntário, mas de puro amor pela indústria, pelo mercado, pelas pessoas, pelas conexões e, acima de tudo, pela Alagev.”
A relação de Joice com a associação começou há quase sete anos, quando assumia uma posição ligada à gestão de viagens e encontrou na entidade um espaço para adquirir conhecimento e estabelecer conexões profissionais. Agora, do outro lado da estrutura, ela também utiliza sua experiência como gestora para contribuir com as decisões de conteúdo e relacionamento da Alagev.
R$ 205 bilhões colocam setor no centro da discussão
Uma das principais bandeiras da atual gestão é ampliar a presença das viagens e eventos corporativos nas discussões realizadas em Brasília e em outras esferas de decisão. “Nós queremos elevar a voz do corporativo, do turismo corporativo, viagens, eventos e incentivos, para Brasília, para as mesas de decisões”, afirma Joice.
Segundo os dados apresentados pela entidade durante a entrevista, o mercado deverá movimentar aproximadamente R$ 205 bilhões, com expectativa de crescimento ao redor de 5%. Para a presidente do Conselho, a dimensão econômica reforça a necessidade de o segmento participar das discussões que afetam sua operação.
Essa atuação, segundo Joice, precisa preservar uma característica central da Alagev: representar a cadeia, e não interesses individuais. “Quando nós estamos lá representando a Alagev em Brasília, a gente não está falando como Joice ou como Luana. Estamos falando em nome da indústria como um todo. Então, é muito importante que os temas que a gente suba sejam comunitários. Não vão ser temas únicos e exclusivos de uma pessoa ou de uma corporação.”
Entre as questões levadas ao debate público está a infraestrutura necessária para descentralizar viagens corporativas, congressos, convenções e incentivos. A avaliação é de que novos centros de eventos e estruturas hoteleiras, isoladamente, não bastam para desenvolver destinos se não houver conectividade capaz de transportar grandes volumes de participantes. Malha aérea, transporte terrestre e segurança entram, portanto, na equação.
“Se a gente precisa de desenvolvimento de eventos corporativos e incentivos, precisa de uma infraestrutura muito mais preparada para isso. A gente tem visto dificuldade com malha aérea, dificuldade com malha rodoviária e grandes centros de convenções sendo inaugurados”, pontua.
Joice cita destinos fora dos grandes polos tradicionais como exemplos do potencial existente, mas defende planejamento para que o crescimento efetivamente aconteça. Foz do Iguaçu aparece como uma referência de destino que conseguiu desenvolver estrutura consistente para eventos.
“É preciso olhar a infraestrutura regional como um direcionador também de desenvolvimento econômico. Se a gente quer sair dos polos Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, precisa fazer esse spread para outras áreas”, argumenta.
Segurança também aparece entre as preocupações. Para a dirigente, empresas precisam considerar essa variável ao escolher destinos para grandes congressos, convenções e eventos, ao lado de incentivos financeiros e infraestrutura.
A aproximação com o poder público também passa pela construção de propostas. Segundo Joice, uma ação colaborativa desenvolvida no âmbito do setor reuniu mais de 250 ideias destinadas aos candidatos e futuros governantes, com participação ativa da Alagev.
A intenção é criar um repositório de demandas que possam ser incorporadas a planos de governo nas esferas federal e estaduais. Depois das eleições, entretanto, o papel das entidades passa a ser acompanhar sua execução. “A gente tem uma atuação forte no setor, que é fazer com que consiga enxergar os resultados e colocar tração e pressão para que esses governantes coloquem os planos de governo voltados para o turismo em prática”, explica.
Reforma tributária mobiliza associados
A reforma tributária é outra frente que deverá permanecer no centro da agenda. A Alagev criou uma squad dedicada exclusivamente ao assunto e vem produzindo conteúdos técnicos para orientar seus associados diante das mudanças. Segundo Joice, a entidade já chegou à 14ª edição de seu conteúdo dedicado à reforma, com participação de consultores especializados e aprofundamento sobre os impactos para diferentes integrantes da cadeia.

Uma das próximas discussões deverá abordar especificamente os profissionais autônomos. A preocupação está relacionada à forte presença desse modelo de contratação na cadeia de eventos e às dúvidas envolvendo formalização, tributação, crédito, Simples Nacional e segurança jurídica.
A proposta, ressalta a executiva, não é determinar um único caminho, mas fornecer informação para contratantes e contratados tomarem decisões com maior segurança. “A gente está querendo dar uma visão de futuro, do que é possível fazer a partir de agora. Gera dúvida para todo mundo. Todo mundo está com medo do que vem da reforma tributária”, afirma Luana Nogueira, diretora executiva da Alagev.
Existe ainda preocupação com os efeitos das mudanças sobre pequenos fornecedores. Para Joice, decisões puramente tributárias podem provocar desequilíbrios se grandes empresas deixarem de contratar negócios enquadrados no Simples Nacional apenas pela impossibilidade de determinados créditos.
“Nós temos uma cadeia enorme fomentada pelo Simples Nacional. A gente não pode descartar esses fornecedores só porque não está tomando crédito. Também temos que tomar cuidado com a sustentabilidade da cadeia, porque vai gerar um certo desequilíbrio se a gente não se unir”, complementa Luana.
Crescimento com cautela
A própria leitura da Alagev sobre o desempenho do mercado segue essa lógica de cautela. Embora projeções internacionais tenham apontado possibilidade de expansão mais acelerada no Brasil, a associação trabalha com uma estimativa mais próxima da realidade observada entre seus associados.
Os dados acompanhados até agosto indicavam crescimento ao redor de 5%. Mesmo reconhecendo que o segundo semestre tende a ter maior movimentação, a entidade considera difícil alcançar taxas muito superiores no curto prazo. “Se sair do 5% para 7%, a gente vai achar que esse cenário está excelente”, avalia Luana. “A gente prefere traçar um índice mais realista e conservador do que superestimar”, completa.

