As operadoras e agências são facilitadoras na organização de uma viagem, mas ficam de mãos atadas em relação aos fornecedores. É claro que faz parte da agência escolher bons fornecedores, mas, no caso de pessoas com deficiência, a oferta de fornecedores que tenham acessibilidade é menor. Isso, porém, não é um enorme problema, até porque acontece naturalmente na segmentação turística.
Pacotes turísticos são bastante conhecidos: é como um prato feito, em que você aceita e consome aquilo que está disponível. Mas pessoas com deficiência, em alguns casos, precisam de algo mais personalizado, como, por exemplo, um ônibus turístico que possua equipamento para o embarque e desembarque de uma pessoa em cadeira de rodas. Não é toda empresa que possui esse recurso, mas também não é toda pessoa com deficiência que precisa.
Por isso, uma das coisas mais importantes é conhecer a necessidade do turista com deficiência, entender suas dificuldades, habilidades, necessidades e preferências. Certa vez, quando eu tinha uma operadora de turismo acessível, um cliente entrou em contato querendo uma viagem para a Disney e informou que era cadeirante. Fiz perguntas para entender melhor quais eram as características da deficiência, pois é isso que importa: o tipo de auxílio necessário, e não a deficiência em si.
Ele tinha paralisia cerebral, utilizava cadeira de rodas, mas conseguia ficar de pé e andar curtas distâncias. Além disso, ia acompanhado da esposa, que não possuía deficiência. Assim, foi possível inseri-lo em um grupo convencional, sem a necessidade de uma viagem totalmente personalizada. Na locomoção, ele contava com o apoio da esposa, conseguia acompanhar o grupo e, nos brinquedos e atrações, muitas delas eram adaptadas. Naquelas em que era necessário sair da cadeira para acessar o brinquedo, isso também era possível.
Uma agência inclusiva é uma oportunidade incrível e ainda pouco explorada no Brasil. No exterior, elas já existem. Na África do Sul, por exemplo, encontrei pelo menos cinco agências receptivas que atendiam pessoas com deficiência. O público é enorme: no Brasil, somos milhões, e, se pensarmos no mundo, afinal, receber turistas estrangeiros com deficiência é uma oportunidade ainda maior, esse número ultrapassa um bilhão.
O tamanho do mercado de turismo acessível não pode ser ignorado. Nos Estados Unidos, a Open Doors Organization estima que adultos com deficiência gastam mais de US$ 17 bilhões por ano em viagens. Um artigo de 2015, publicado no Journal of Tourism Futures, que analisou o mercado europeu de turismo acessível, mostrou que 70% das pessoas com deficiência têm capacidade financeira e física para viajar. Isso se traduz em receitas potenciais de até € 88 bilhões até 2025.
Enquanto o mercado turístico trava uma guerra para conquistar turistas convencionais, turistas que precisam de um pouco mais de atenção estão sobrando. É uma ilusão pensar que trabalhar com esse segmento é muito mais difícil. Há exemplos brasileiros de empresas que apostaram nesse caminho e estão colhendo frutos muito significativos.

