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Acessibilidade e as restrições alimentares

Ricardo Shimosakai
Ricardo Shimosakai
Especialista em acessibilidade, inclusão e turismo, criador da Turismo Adaptado.

Quando se fala em acessibilidade no turismo, o debate ainda costuma parar na arquitetura: rampas, elevadores, quartos adaptados. Tudo isso é necessário, mas está longe de ser suficiente. Existe uma exclusão muito mais cotidiana, silenciosa e recorrente, que passa direto pelo prato do hóspede ou do turista: as restrições alimentares.

Para quem convive com doença celíaca, alergias alimentares, intolerâncias, diabetes, restrições metabólicas ou dietas terapêuticas, viajar não é apenas escolher destino, hotel ou restaurante. É avaliar risco. Comer fora pode significar desconforto, adoecimento ou até uma emergência médica. Isso não é preferência pessoal, não é “opção alimentar” e muito menos frescura. É acessibilidade básica, ligada à saúde, à segurança e à autonomia.

O setor de turismo, porém, ainda trata o tema como exceção, quando ele já é regra para milhões de pessoas. Cardápios genéricos, informações incompletas, ausência de descrição clara de ingredientes e respostas vagas como “acho que não tem” criam um cenário de insegurança. Some-se a isso equipes despreparadas para lidar com o tema e cozinhas sem protocolos mínimos, e o resultado é previsível: o turista deixa de consumir, deixa de confiar ou simplesmente deixa de ir. A alimentação faz parte da jornada turística tanto quanto o quarto, o transporte ou o passeio. Ignorá-la é comprometer toda a experiência, mesmo que o restante do serviço seja impecável.

Um empreendimento que comunica com clareza, não promete o que não pode cumprir e entrega segurança real vira referência, fideliza e passa a ser indicado espontaneamente. O contrário também acontece: uma experiência ruim se espalha rápido, especialmente em comunidades que trocam informações com rigor, porque sabem que errar custa caro.

A boa notícia é que a acessibilidade alimentar não exige soluções mirabolantes. Exige método, organização e compromisso. Mapear as restrições atendidas, descrever ingredientes de forma objetiva, adotar símbolos claros, treinar equipes para responder com segurança, controlar contaminação cruzada quando aplicável e, acima de tudo, comunicar com honestidade. Dizer “não atendemos” é sempre melhor do que dizer “atendemos” sem saber como. É totalmente possível elaborar comidas deliciosas sem alguns ingredientes estratégicos como açúcar, leite ou glúten, apreciadas por qualquer tipo de pessoa. 

Acessibilidade não é fazer tudo para todos. É garantir uso seguro, funcional e previsível para quem se propõe a atender. No turismo, isso significa permitir que a pessoa coma sem medo, participe sem improviso e viaje com autonomia. O setor que entende isso não está apenas sendo inclusivo, está sendo inteligente. Porque acessibilidade também se come – e quem percebe isso antes sai na frente, inclusive no debate qualificado que veículos como o Brasilturis ajudam a pautar.

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