Morte em montanha-russa da Six Flags nos Estados Unidos levanta debate sobre segurança

Acidente no parque Six Flags Over Georgia deixou um homem morto e quatro menores feridos; companhia suspendeu preventivamente nove atrações semelhantes na América do Norte

Maurício Herschander
Maurício Herschander
Repórter - E-mail: mauricio@brasilturis.com.br

A morte de um visitante após ser arremessado de uma montanha-russa no Six Flags Over Georgia, nos Estados Unidos, reacendeu as discussões sobre os protocolos de segurança e a fiscalização de atrações em parques de diversões. O episódio ocorre em um cenário no qual fabricantes e operadores desenvolvem equipamentos cada vez mais rápidos e com quedas acentuadas, em busca de experiências de maior intensidade para o público.

A vítima foi identificada como Hassan Jihad Ibn Kariem, de 42 anos, funcionário de uma escola de Atlanta. Segundo a polícia do condado de Cobb, ele foi projetado para fora de seu assento na última segunda-feira (12), durante uma volta na montanha-russa Goliath. O homem atingiu outros visitantes antes de cair da estrutura da atração. Quatro passageiros, todos menores de idade, também ficaram feridos, mas sem risco de morte. As autoridades da Geórgia ainda não esclareceram as circunstâncias que provocaram o acidente.

Inaugurada há aproximadamente duas décadas, a Goliath possui uma queda de 61 metros e alcança velocidades de até 112 quilômetros por hora. Diferentemente de montanhas-russas com inversões e movimentos em espiral, a atração privilegia a velocidade e as descidas de grande inclinação. Após o acidente, a Six Flags determinou a suspensão temporária de nove equipamentos semelhantes em parques da América do Norte, como medida preventiva.

A fabricante da atração, Bolliger & Mabillard, informou que está “investigando ativamente o incidente e não fará novos comentários até compreender melhor o que aconteceu.” A apuração deverá examinar as condições operacionais e os mecanismos de segurança do equipamento para identificar possíveis fatores associados à queda do passageiro.

Fiscalização varia entre os estados americanos

Nos Estados Unidos, a regulamentação de montanhas-russas instaladas permanentemente em grandes parques de diversões não é atribuição direta do governo federal. A responsabilidade cabe aos estados, que adotam diferentes exigências de inspeção e fiscalização. O modelo provoca questionamentos sobre a ausência de critérios uniformes de segurança em todo o território americano.

Ed Markey, senador de Massachusetts, já apresentou propostas para modificar essa estrutura regulatória. Segundo o parlamentar, existe uma lacuna na legislação federal que permite à Comissão de Segurança de Produtos de Consumo fiscalizar atrações itinerantes, mas impede sua atuação sobre equipamentos permanentes instalados em grandes parques temáticos.

Na Geórgia, o órgão estadual responsável pelas inspeções anuais das atrações é o Escritório do Comissário de Seguros e Segurança contra Incêndios. Garrison Bennett, porta-voz da instituição, informou que as autoridades realizam uma “análise aprofundada e abrangente” das circunstâncias da morte registrada na segunda-feira.

Em âmbito internacional, parques de diversões costumam adotar normas técnicas estabelecidas pela ASTM, organização responsável por padrões que abrangem desde o projeto e a construção das atrações até os limites de aceleração e força aos quais os passageiros podem ser submetidos.

Dennis Speigel, consultor especializado em parques temáticos e ex-presidente da Associação Internacional de Parques de Diversões e Atrações, explicou que o setor utiliza diferentes níveis de inspeção. Segundo ele, as seguradoras também exercem pressão sobre os operadores, diante dos elevados custos que podem resultar de acidentes.

“Com os mecanismos de controle e equilíbrio existentes, os parques temáticos são realmente alguns dos lugares mais seguros do planeta”, afirmou Speigel na terça-feira (13).

Dados da indústria apontam que, em 2024, foram registradas 1,27 lesão grave e notificável a cada milhão de viagens em montanhas-russas. Consideradas todas as atrações dos parques, o comportamento dos visitantes esteve associado a 66% dos ferimentos naquele ano, enquanto fatores técnicos responderam por 15% e questões operacionais, por 9%.

Jakob Wahl, atual presidente da associação internacional do setor, manifestou condolências à família de Kariem na quarta-feira (14).

Especialistas analisam mecanismos de segurança

Martin Lewison, especialista em montanhas-russas e professor do Farmingdale State College, considera difícil imaginar uma falha mecânica em um equipamento como a Goliath, em razão das características de seu projeto. A atração utiliza uma barra de contenção abdominal conhecida como clamshell, que é posicionada sobre o quadril do passageiro.

O mecanismo funciona por meio de um sistema de travamento com catraca, responsável pelos estalos percebidos quando a barra é abaixada. Segundo Lewison, o equipamento possui componentes redundantes, destinados a manter a segurança mesmo diante da eventual falha de uma das peças.

“Eles são confiáveis. Não são tão avançados tecnologicamente a ponto de os parques temáticos terem dificuldades para operá-los”, explicou o especialista.

Antes da partida, os operadores também contam com um sistema eletrônico que apresenta uma luz verde para cada assento quando o dispositivo de contenção está devidamente travado. Em condições normais, a composição não deveria receber autorização para sair da estação enquanto todos os mecanismos de segurança não estivessem acionados.

Acidentes anteriores motivaram alterações em atrações americanas. Em 2022, um adolescente de 14 anos morreu após cair de um equipamento em Orlando, na Flórida, porque o dispositivo de contenção não havia travado corretamente devido às dimensões de seu corpo. Em 2013, uma mulher de 52 anos morreu ao ser projetada de seu assento na montanha-russa Texas Giant, no Six Flags Over Texas.

Após o acidente de 2013, a Six Flags modificou os acolchoamentos das barras de segurança e os cintos da atração. A empresa também instalou um assento de teste na entrada, para permitir que os visitantes verificassem antecipadamente se poderiam utilizar o equipamento com segurança.

Nick Mendenhall, testemunha do acidente ocorrido na Geórgia, afirmou ter utilizado a Goliath mais de uma dezena de vezes nas últimas semanas. Segundo ele, os funcionários verificavam os dispositivos de contenção antes de cada partida.

“Há dois funcionários, um de cada lado do trem, e eles pressionam as barras com as mãos para garantir que estejam travadas todas as vezes. Nunca os vi deixar de fazer isso”, relatou Mendenhall.

Regras de inspeção apresentam diferenças regionais

Na Califórnia, atrações novas ou modificadas precisam receber aprovação do Departamento Estadual de Relações Industriais. O órgão realiza inspeções anuais diretamente ou considera avaliações efetuadas pelos próprios responsáveis pelos equipamentos, conforme os procedimentos previstos na regulamentação local.

A Flórida, por sua vez, dispensa seus maiores parques temáticos, incluindo Walt Disney World e Universal, das inspeções estaduais de segurança. Esses empreendimentos mantêm procedimentos próprios de fiscalização, mas são obrigados a comunicar ocorrências de ferimentos e mortes. No Texas, as avaliações são conduzidas principalmente por inspetores particulares contratados pelos operadores ou por suas seguradoras.

Já o Arizona, onde está localizado o Six Flags Hurricane Harbor Phoenix, não possui uma agência estadual encarregada de regulamentar ou inspecionar atrações de parques de diversões. A legislação exige avaliações particulares anuais, enquanto a responsabilidade pela aplicação das regras permanece, em grande parte, com as autoridades locais.

As diferenças entre os modelos de fiscalização voltaram ao centro do debate após o acidente na Geórgia. Embora ocorrências fatais em montanhas-russas sejam consideradas extremamente raras, o episódio levanta questionamentos sobre a eficácia dos mecanismos de contenção, a padronização das inspeções e as responsabilidades dos operadores na prevenção de acidentes.

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