Elvas, Portugal – A Convenção Braztoa 2026 marca o início de uma nova etapa de aproximação entre o mercado brasileiro e o Alentejo, em Portugal. Durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (20), no Hotel M’ar de Ar Aqueduto, em Évora, representantes da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) e do Turismo do Alentejo discutiram estratégias para ampliar a presença da região nos roteiros comercializados no Brasil. Entre as prioridades estão a recuperação das pernoites de turistas brasileiros, a apresentação de novos produtos e a transformação da experiência dos operadores no destino em oportunidades de comercialização.
O desafio parte de um cenário de retração. Segundo José Manuel Santos, representante do Turismo do Alentejo, a região registrou 74 mil pernoites de brasileiros em 2025, volume que representa uma queda de 6% em comparação com 2024. Antes da pandemia, o Brasil ocupava a terceira posição entre os mercados emissores internacionais para o destino. Desde então, o Alentejo perdeu cerca de 30 mil pernoites de turistas brasileiros.
Os dados mais recentes de 2026 indicavam uma desaceleração dessa queda. Até agosto, o número de pernoites de brasileiros na região estava 0,7% abaixo do registrado no mesmo período de 2025. Para Santos, a recuperação depende da capacidade de apresentar ao mercado brasileiro uma oferta que ainda é pouco conhecida, apesar da proximidade cultural entre os dois países.
“O mercado brasileiro tem afinidade com aquilo que Portugal oferece, mas ainda não conhece tudo o que existe no Alentejo. É normal que o turista brasileiro comece por Lisboa, pelo Porto ou pelo Algarve. No entanto, quando conhece o Alentejo, muitas vezes já não quer sair da região”, afirma.
Transformar contato em vendas
A realização da convenção na região integra a estratégia do Turismo do Alentejo para recuperar o mercado brasileiro. A proposta é aproximar os operadores dos atrativos, meios de hospedagem, vinícolas, restaurantes e demais fornecedores locais, permitindo que conheçam os produtos presencialmente e avaliem como incorporá-los aos roteiros vendidos no Brasil.
Santos classifica a iniciativa como uma ação inversa de promoção turística, na qual o destino recebe profissionais do mercado emissor em vez de depender exclusivamente da participação em feiras e eventos no exterior. Segundo ele, reunir dezenas de operadores em uma mesma viagem permite apresentar a oferta regional de forma mais abrangente e criar oportunidades de relacionamento comercial.
“Para estarmos com todos esses profissionais, provavelmente teríamos de ir várias vezes ao Brasil, participar de diferentes feiras e, mesmo assim, não teríamos a garantia de encontrar todos. Durante os cinco dias da convenção, conseguimos estar com eles diariamente e proporcionar a oportunidade de conhecer nossa oferta no próprio destino”, explica.
O dirigente acrescenta que a convenção deve funcionar como ponto de partida para uma colaboração continuada com a Braztoa. A intenção é definir, em conjunto com a associação, quais iniciativas poderão ser desenvolvidas no Brasil para ampliar a divulgação e a comercialização do Alentejo, considerando tanto itinerários dedicados à região quanto sua inclusão em viagens que já contemplam Lisboa e outras localidades portuguesas.
Marina Figueiredo, presidente executiva da Braztoa, afirma que a programação foi estruturada para aproximar os operadores de um destino cujas características correspondem a tendências identificadas entre os viajantes brasileiros. A executiva citou o estudo Olhar Braztoa, realizado a cada quatro anos pela entidade, que acompanha o perfil de consumo e as tendências do mercado turístico nacional.
Segundo Marina, o levantamento identifica dez tendências e experiências que influenciam a criação de produtos e a concretização de vendas. Entre elas estão o contato com a natureza, a gastronomia de origem, a imersão cultural e as viagens com ritmo mais tranquilo, características presentes na oferta do Alentejo. “Não estamos falando de tendências de revistas, mas daquilo que faz a venda acontecer, que gera prateleira, produto e comercialização. Quando observamos as dez principais tendências, encontramos o que a região tem para oferecer”, salienta.
Para a presidente executiva, o próximo passo será utilizar a experiência dos operadores durante a convenção para identificar como apresentar esses atributos ao consumidor brasileiro. A avaliação deverá considerar quais produtos têm potencial de entrar nos portfólios das empresas, como podem ser promovidos e quais ajustes são necessários para viabilizar sua comercialização.
“Em apenas dois dias, já temos a percepção de que o destino agrada e desperta interesse em ficar mais próximo do mercado brasileiro. Agora, temos de transformar isso em produto, promoção e comercialização. Os profissionais que estão aqui conhecendo a região também poderão dar um retorno sobre o que é necessário para inserir o destino no mercado”, pontua Marina.
Operadores terão papel na próxima etapa
Fabiano Camargo, presidente do conselho da Braztoa, ressalta que a aproximação institucional é apenas uma parte do trabalho. Na avaliação dele, a convenção colocou os operadores em contato com fornecedores e representantes do destino, mas cabe agora à iniciativa privada transformar as oportunidades identificadas em produtos comercializáveis.
O dirigente destaca que a presença de executivos e responsáveis pela tomada de decisão entre os participantes pode acelerar esse processo. Ao conhecerem o destino diretamente, esses profissionais podem decidir pela inclusão do Alentejo nos portfólios e orientar as equipes de produto e vendas a desenvolver as ofertas.
“Quando o setor público faz esse trabalho de integração e apresentação, e o setor privado quer entrar para fomentar o destino, é aí que avançamos. Neste caso, o setor público já fez seu trabalho. Agora, precisamos cobrar também a participação dos operadores e dos parceiros que estão aqui. O setor privado busca aumentar as vendas, porque é disso que depende diretamente”, afirma Camargo.
O presidente do conselho também demonstra expectativa de que as iniciativas ajudem a reverter a trajetória de queda das pernoites de brasileiros no Alentejo. Para ele, a relação entre o destino e os operadores precisa continuar depois da convenção, com ações capazes de manter a região presente nas estratégias comerciais das empresas.
Camargo cita ainda a possibilidade de promover missões corporativas voltadas a segmentos específicos, como o golfe, reunindo grupos menores de operadores interessados em conhecer determinados produtos. O formato permite trabalhar nichos de mercado sem a necessidade de organizar uma convenção completa.
Questionado sobre a possibilidade de uma nova convenção em Portugal, o dirigente afirma que a associação permanece aberta a propostas de outras cidades e regiões, embora ainda não tenha uma edição portuguesa prevista para 2027. Ele também apontou o custo-benefício como um dos atributos competitivos do país, especialmente em experiências de enogastronomia, quando comparadas a destinos tradicionais de vinho na França e na Itália.

Novos hotéis e experiências
Para ampliar a oferta disponível aos operadores, o Turismo do Alentejo prepara a divulgação de novos empreendimentos e experiências. Santos informou que a região tem 12 novos hotéis previstos para abrir em 2026, distribuídos entre o litoral e o interior. Segundo ele, parte desses projetos está posicionada nos segmentos premium e de alto padrão, acompanhando o desenvolvimento da oferta regional.
A entidade também está organizando materiais digitais para apresentar produtos turísticos e segmentos com potencial de atração de visitantes brasileiros. Entre eles está o turismo de casamentos, incluindo celebrações e renovação de votos. O destino reúne diferentes propriedades e cenários para esse tipo de evento, segmento que também pode gerar receitas para os hotéis por meio da realização de cerimônias e da contratação exclusiva de espaços.
Outra iniciativa envolve a expansão do Dark Sky Alqueva para outras áreas do Alentejo com baixos índices de poluição luminosa. Santos informou que um protocolo para ampliar a iniciativa a toda a região foi assinado no mesmo dia da coletiva. A proposta é aumentar a oferta de locais para observação do céu e dos astros.
O destino também prepara uma plataforma digital com mais de 100 experiências turísticas, que deverá ser lançada em breve. A ferramenta permitirá ao consumidor final consultar e reservar atividades e servirá também como instrumento de trabalho para operadores e demais profissionais do setor. Entre as possibilidades citadas estão passeios noturnos de canoa no lago de Alqueva para observar o céu e hospedagens em hotéis associados à literatura.
Nesse último segmento, o Alentejo foi escolhido pelo Turismo de Portugal como região-piloto para a criação de uma rede de hotéis literários. A previsão apresentada por Santos é que os primeiros seis estabelecimentos integrem a iniciativa até o fim de 2026. A proposta relaciona a hospedagem à literatura portuguesa e aos locais retratados nas obras de autores do país.
A apresentação desses produtos aos operadores brasileiros deverá integrar as próximas etapas da parceria entre a região e a Braztoa. A entidade portuguesa pretende compartilhar informações sobre os novos empreendimentos e experiências para que as empresas avaliem sua adequação aos diferentes perfis de viajantes.
Vendas internacionais
A escolha de Portugal também está relacionada ao peso da Europa no mercado emissor brasileiro. Segundo Marina Figueiredo, aproximadamente 33% a 34% do faturamento e dos embarques internacionais dos brasileiros em 2025 corresponderam a destinos europeus. A executiva destaca que a conectividade aérea e a preferência por voos diretos são fatores relevantes na escolha dos destinos.
Portugal tem uma posição favorável nesse cenário por sua ligação histórica e cultural com o Brasil e pelas conexões aéreas com diferentes cidades brasileiras. Durante a coletiva, Marina mencionou a ampliação de ligações operadas por companhias aéreas que conectam os dois países como um elemento importante para manter o fluxo de viajantes.
Para a presidente executiva, a presença da Europa entre as principais escolhas dos brasileiros não representa uma tendência pontual, mas uma característica consolidada do mercado internacional. A estratégia da Braztoa, portanto, é identificar destinos que possam se beneficiar desse fluxo e oferecer produtos compatíveis com os interesses dos consumidores.
Camargo, por sua vez, destaca a proximidade do Alentejo com Lisboa como uma oportunidade para aumentar a permanência dos brasileiros na região. Em vez de limitar a visita a um passeio de um dia, a proposta é estimular estadias de uma ou duas noites, aproveitando a oferta hoteleira, a gastronomia, os vinhos e os centros históricos de cidades menores.
O dirigente citou Évora, Estremoz e Vila Viçosa entre os destinos que podem compor esses itinerários, além de empreendimentos de alto padrão e propriedades rurais que oferecem experiências de hospedagem. Para ele, o objetivo é demonstrar que o Alentejo pode funcionar tanto como destino principal quanto como extensão de roteiros já comercializados em Portugal.
Parcerias para além do Alentejo
Além do trabalho com o Alentejo, a coletiva abriu espaço para discutir futuras iniciativas da Braztoa em outras regiões de Portugal. Camargo menciona o Centro de Portugal e outras localidades que ainda têm presença limitada nos roteiros brasileiros, destacando a possibilidade de desenvolver ações específicas para aproximar operadores e fornecedores.
Santos também defende a articulação entre regiões portuguesas, considerando que o país costuma ser comercializado em combinação com outros destinos. Ao fim da convenção, os participantes poderão seguir em dois roteiros complementares: um pela Costa Alentejana, com extensão ao Algarve, e outro pelo norte do Alentejo, seguindo para o Centro de Portugal.
A proposta é ampliar o conhecimento dos profissionais sobre diferentes áreas do país e identificar oportunidades de integração entre produtos e itinerários. Para o Turismo do Alentejo, a convenção representa o começo de um trabalho conjunto que deverá avançar com ações de promoção, capacitação e relacionamento comercial.
O Brasilturis viaja a convite da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), sob proteção da Global Travel Assistance (GTA).









