Elvas, Portugal – A Europa precisa ampliar sua presença promocional no Brasil e desenvolver relações comerciais mais próximas com o mercado turístico brasileiro. Essa é a avaliação de Tom Jenkins, CEO da European Tourism Association (ETOA), que vê espaço para aumentar a participação do País no fluxo de visitantes para o continente. Durante a Convenção Braztoa 2026, em Portugal, o executivo defendeu uma atuação mais ativa dos destinos europeus na América do Sul e reconheceu que a aproximação com o mercado brasileiro ainda precisa avançar.
“Precisamos pensar mais em ir ao Brasil e começar a nos promover. Acho isso importante. Somos muito complacentes em relação à América do Sul e deveríamos fazer mais por lá. Esta é uma chamada de atenção para mim também”, afirma Jenkins. Segundo ele, a ETOA participou de uma feira em São Paulo há vários anos e precisa retomar a presença no País.
O executivo não identifica resistência específica à aproximação com o mercado brasileiro. Para ele, a distância geográfica é o principal obstáculo, embora considere o Brasil relativamente mais acessível do que destinos mais consolidados como Japão e Austrália. A avaliação, porém, não diminui o interesse pelo mercado, que Jenkins considera relevante para a estratégia de expansão das relações entre operadores internacionais e fornecedores europeus.
Relevância cultural e econômica
Na avaliação do CEO da ETOA, a importância do Brasil para o turismo europeu está relacionada a três fatores: o tamanho do mercado, os vínculos culturais com o continente e as características da economia brasileira. “Vocês fazem parte de uma diáspora cultural europeia mais ampla. Falam português, e não mandarim ou malaio. A cultura europeia integra a formação cultural de vocês”, afirma. Para Jenkins, essa proximidade contribui para tornar a Europa um destino com referências culturais familiares aos brasileiros.
O executivo também destaca que o Brasil representa uma economia com dinâmica própria em relação aos mercados da América do Norte e da Ásia. Na visão dele, essa característica torna o País uma frente de interesse específica para os destinos europeus, que buscam ampliar sua presença em diferentes mercados emissores.
Apesar de defender uma aproximação mais intensa, Jenkins faz uma ressalva sobre seu conhecimento do mercado brasileiro, reconhecendo que ainda não dispõe de experiência suficiente para apontar aprendizados específicos que o turismo europeu poderia incorporar das operações brasileiras.
ETOA
A ETOA representa empresas envolvidas na comercialização de viagens para a Europa em diferentes mercados internacionais. Entre seus associados estão operadoras de turismo, atacadistas e distribuidores on-line, além de destinos, hotéis, atrações, fornecedores de serviços terrestres e outros prestadores ligados à cadeia turística.
Jenkins explica que a associação trabalha com dois grandes grupos de membros: empresas que comercializam produtos europeus e organizações interessadas em estabelecer relações comerciais com esses compradores. A estrutura reúne negócios com diferentes modelos de atuação, desde operadoras voltadas diretamente ao consumidor até grandes distribuidores e plataformas digitais.
Essa diversidade permite à entidade atuar na aproximação entre os responsáveis pela distribuição de viagens e os fornecedores que recebem os visitantes. No caso brasileiro, uma presença mais frequente da ETOA e de destinos europeus em eventos e iniciativas comerciais poderia ampliar os contatos com operadores e facilitar o desenvolvimento de produtos direcionados ao público nacional.
A Convenção Braztoa 2026, realizada no Alentejo, integra esse contexto de aproximação entre fornecedores europeus e empresas brasileiras. Para Jenkins, a participação de operadores do Brasil em Portugal também evidencia a dimensão cultural dessa relação. “É ótimo ver tantos operadores de turismo emissivo do Brasil em Portugal. É quase como um reencontro com uma casa cultural. É muito bom ver as pessoas chegarem a um lugar onde todos falam português”, afirma.
Promoção do Alentejo
Jenkins também defende a promoção do Alentejo entre os operadores brasileiros. O executivo afirma conhecer a região de visitas anteriores e destaca a diversidade de paisagens e características geográficas entre suas diferentes áreas. Ao comentar o sul do Alentejo, menciona a presença de montanhas e lagos, além de condições climáticas influenciadas pela proximidade da Serra de Monchique e pelas correntes de ar do Atlântico. Sobre Elvas, onde ocorre parte da programação da convenção, destaca as características da cidade e de seu conjunto histórico.
A avaliação do CEO da ETOA acompanha o esforço do Turismo do Alentejo para ampliar o conhecimento do destino no Brasil. Durante a convenção, representantes da região e da Braztoa discutiram formas de transformar a experiência dos operadores em oportunidades de comercialização, com a inclusão de produtos locais em roteiros vendidos no mercado brasileiro.
A estratégia envolve tanto viagens dedicadas ao Alentejo quanto sua integração a itinerários que já incluem Lisboa e outras regiões portuguesas. Para os destinos europeus, a aproximação com os operadores é uma etapa para ampliar a distribuição dos produtos e identificar oportunidades em mercados emissores com potencial de crescimento.
Jenkins questiona retorno de investimentos em megaeventos
Durante a entrevista, Tom Jenkins também questionou a expectativa de que grandes eventos esportivos, como Jogos Olímpicos e Copas do Mundo, gerem benefícios turísticos duradouros. O CEO da ETOA citou a experiência de Londres, cuja Olimpíada teve custo muito superior ao inicialmente previsto.
“Quando Londres conseguiu os Jogos Olímpicos, todo mundo enlouqueceu. Diziam que era a melhor coisa que já havia acontecido à cidade e que custaria apenas 5 bilhões de libras. O custo chegou a 25 bilhões de libras”, relata. Segundo Jenkins, a expectativa de atrair milhões de visitantes adicionais também não se concretizou como previsto.
O executivo mencionou ainda Sydney, onde, segundo seu relato, foram construídos cerca de 40 mil quartos de hotel em função dos Jogos, parte dos quais teria sido convertida para outros usos posteriormente. Barcelona, por sua vez, foi citada como exemplo de instalações esportivas que ficaram subutilizadas após a competição.
“Constroem-se estruturas para um evento único que não acontece da maneira esperada. Você vai a Barcelona e vê estádios com grama crescendo. E Barcelona é o exemplo bem-sucedido”, afirma Jenkins, citando ainda o caso do Brasil como ainda mais crítico.
A avaliação acompanha a posição crítica que Jenkins já expressou publicamente sobre o impacto dos Jogos Olímpicos no turismo. Em entrevista à Travel Weekly em 2024, o executivo afirmou que os Jogos não são, por natureza, um evento turístico e que o aumento de visitantes motivados pela competição não necessariamente compensa a redução de outros viajantes.









