Museu do Ipiranga usa tecnologia de escaneamento 3D aplicada no Coliseu de Roma

Projeto da USP com a Universidade de Ferrara cria modelo digital do edifício histórico para acompanhar a estrutura e orientar ações de conservação preventiva

Rafael Destro
Rafael Destro
Redator - E-mail: Rafael@brasilturis.com.br

O Museu do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, passou por um mapeamento tridimensional a laser para monitorar as condições estruturais do edifício histórico e orientar ações de conservação preventiva. A tecnologia, utilizada anteriormente no Coliseu de Roma, permite registrar superfícies com precisão milimétrica e criar uma representação digital da construção, sem interromper a visitação pública.

O projeto é desenvolvido em parceria entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Ferrara, na Itália. A execução ficou a cargo de pesquisadores italianos que integraram a equipe responsável pelo escaneamento do monumento romano. As duas instituições mantêm uma colaboração científica há duas décadas.

O levantamento foi realizado ao longo de três semanas, entre setembro e outubro de 2026. Para evitar interferências na rotina do museu, o trabalho ocorreu de forma gradual. Ambientes maiores, como o Salão Nobre, foram escaneados às segundas-feiras, quando não há visitação.

Tecnologia registra detalhes da estrutura

O equipamento utilizado pelos pesquisadores é portátil e emite feixes de laser para registrar as coordenadas de pontos nas paredes, nos pisos e nas fachadas. Os dados são reunidos em um arquivo digital que permite analisar as características físicas do edifício.

Ao contrário das medições convencionais, feitas com trenas e referências geométricas, o escaneamento registra as superfícies com precisão de milímetros. A análise das informações permite identificar desníveis, alterações nas paredes e sinais de umidade e mofo.

Marcello Balzani, professor de Arquitetura da Universidade de Ferrara, compara o procedimento a exames médicos que ajudam a identificar alterações antes que se tornem problemas mais graves.

“O edifício respira e se transforma com o tempo. É como fazer uma radiografia, um ultrassom, uma tomografia. A estrutura são os ossos, os caminhos são os músculos, o ar são os pulmões. Temos essa relação corpórea com a arquitetura. E, em uma edificação histórica, isso é ainda mais importante: precisamos mantê-la com saúde”, explica Balzani.

Modelo digital permite acompanhar mudanças

A equipe italiana já havia escaneado o Museu do Ipiranga entre 2017 e 2018, antes das obras de restauração que mantiveram o edifício fechado por nove anos. O novo levantamento permite comparar as condições da construção antes e depois da intervenção.

O resultado é um modelo tridimensional conhecido como gêmeo digital, desenvolvido a partir da metodologia HBIM, sigla em inglês para Modelagem de Informação da Construção Histórica. A ferramenta reúne dados sobre as características físicas do edifício e pode ser atualizada com informações sobre manutenções e intervenções realizadas ao longo do tempo.

Beatriz Kühl, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da USP e coordenadora científica do projeto Ipiranga Digital, explica que o modelo também pode ajudar a identificar a origem de falhas recorrentes e antecipar reparos.

“No modelo digital do museu, nós vamos anotando todas as manutenções e tentando descobrir as causas. Se uma lâmpada queima a cada três meses é porque tem alguma coisa errada com a instalação. Assim, é possível intervir antes de a situação se agravar”, explica Beatriz Kühl.

O ambiente virtual também permite simular cenários associados às mudanças climáticas, como temporais mais intensos e períodos de calor extremo, para avaliar possíveis impactos sobre a construção. A proposta é antecipar problemas, reduzir custos de manutenção e evitar intervenções de maior porte no patrimônio histórico.

Experiência no Coliseu de Roma

A tecnologia também foi utilizada no Coliseu, em Roma, monumento que recebe cerca de 30 mil visitantes por dia. Na Itália, o trabalho exigiu o registro de diferentes intervenções acumuladas ao longo de séculos sobre a estrutura original.

O levantamento gerou aproximadamente 150 terabytes de informações, posteriormente processadas e analisadas pelos pesquisadores. A experiência contribuiu para o desenvolvimento de métodos de documentação e monitoramento aplicáveis a edifícios históricos.

Balzani ressalta que a tecnologia depende da interpretação especializada para produzir resultados relevantes.

“Mais do que a tecnologia, vale o conhecimento das pessoas. O scanner não faz nada sozinho. O diferencial está sempre na capacitação técnica de quem interpreta os dados e extrai sentido daquelas informações. É necessário o talento humano organizando o processo para que a inteligência artificial possa cruzar essas informações a nosso favor. Afinal, quem dá o laudo médico é o médico, e não a máquina”, reforça Balzani.

Museu reúne mais de 450 mil itens

Construído entre 1885 e 1890 e inaugurado em 7 de setembro de 1895, o Museu do Ipiranga foi concebido como monumento em homenagem à Independência do Brasil. Com 130 anos de história, é o museu público mais antigo da capital paulista e tem tombamento nas esferas municipal, estadual e federal.

Seu acervo reúne mais de 450 mil itens, entre objetos, fotografias e documentos que abrangem do século 17 até meados do século 20. O conjunto contribui para o estudo da história e da formação da sociedade brasileira.

Entre as obras mais conhecidas está a pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo, produzida em 1888. A tela representa, de forma artística, o episódio em que Dom Pedro I teria proclamado a separação do Brasil de Portugal.

LEIA MAIS NOTÍCIAS

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, 
necessariamente, a opinião deste jornal

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

MAIS LIDAS

NEWSLETTER

    AGENDA 2026

    Festuris

    REDES SOCIAIS

    PARCEIROS