O Japão participará pela primeira vez do Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado, que chega à 38ª edição entre os dias 12 e 15 de novembro de 2026. A estreia do país terá como destaque um Saquê Bar no Espaço Luxury, ambiente dedicado ao turismo de alto padrão. A proposta é apresentar aos profissionais do setor aspectos da cultura e da gastronomia japonesa por meio de uma das bebidas mais tradicionais do país, cuja produção envolve conhecimentos sobre o arroz, a água, o clima e os métodos de fermentação.
A experiência será conduzida pelo brasileiro Fabio Kenji Ota, fundador da Mega Sake e detentor do título de Sake Samurai, distinção concedida a especialistas que contribuem para a difusão internacional da bebida. Neto de japoneses, Ota visitou o Japão pela primeira vez aos 13 anos e já esteve no país aproximadamente 30 vezes. Em 2023, recebeu a homenagem em Kyoto, passando a integrar um grupo que atualmente reúne apenas 108 profissionais em todo o mundo.
A presença do saquê no Brasil está diretamente relacionada à imigração japonesa, iniciada oficialmente em 1908. Na década de 1930, uma empresa instalada em Campinas, no interior paulista, deu origem à primeira produção comercial da bebida no país. Desde então, o consumo ultrapassou os limites dos restaurantes especializados em culinária oriental e passou a integrar cartas de bebidas e experiências gastronômicas de diferentes segmentos. Atualmente, a Mega Sake atende mais de 500 bares e restaurantes.
Para Marta Rossi, CEO da Rossi & Zorzanello e idealizadora do Festuris, a participação japonesa acompanha uma transformação no comportamento dos viajantes de alto padrão, que demonstram interesse crescente por experiências culturais e gastronômicas associadas à identidade dos destinos.
“Existe uma mudança na forma como o viajante de alto padrão escolhe seus destinos. Hoje ele busca acesso à cultura, à gastronomia e a experiências que dificilmente poderiam ser reproduzidas em outro lugar. A estreia do Japão no Festuris traduz muito desse movimento: é um destino que reúne tradição e uma identidade muito própria, e queremos aproximar o nosso público desse universo”, afirma a CEO.
A programação pretende utilizar o saquê como ponto de partida para apresentar tradições, hábitos e características regionais do Japão. Além das degustações, a iniciativa oferecerá informações sobre os diferentes estilos da bebida, suas possibilidades de harmonização e a relação entre a gastronomia e a experiência turística.
O 38º Festuris será realizado no Serra Park, em Gramado (RS), com a participação de destinos, empresas e profissionais do turismo nacional e internacional. As inscrições para o encontro estão disponíveis no site oficial festurisgramado.com.
Saquê e gastronomia: uma experiência além da culinária japonesa
Segundo Fabio Ota, o saquê possui características que permitem harmonizações com uma variedade de alimentos, inclusive fora da gastronomia japonesa. O especialista explica que a bebida apresenta elevada concentração de umami, considerado o quinto gosto básico, ao lado do doce, salgado, azedo e amargo.
De acordo com ele, a presença de umami pode ser até quatro vezes superior à encontrada no vinho ou na cerveja. Essa característica permite combinações com pratos como pizza, churrasco e queijos, além de preparações tradicionais da culinária oriental. Ota também recomenda a utilização de taças de vinho para apreciar saquês de qualidade, sobretudo aqueles com maior complexidade aromática.
Outro aspecto considerado essencial é a conservação. O especialista ressalta que o saquê deve permanecer refrigerado durante o transporte e o armazenamento, uma vez que a exposição prolongada a temperaturas inadequadas pode comprometer seus aromas e sabores. Na Mega Sake, a importação utiliza contêineres mantidos a -5°C e instalações refrigeradas para preservar as características dos produtos.
A recomendação também vale para rótulos de maior valor, especialmente aqueles produzidos com arroz submetido a processos mais intensos de polimento. Embora essa característica demande maior quantidade de matéria-prima, Ota observa que o nível de polimento não determina, isoladamente, a qualidade da bebida. Esses exemplares também podem apresentar maior sensibilidade às condições de conservação.
Em 2025, o especialista inaugurou em São Paulo o restaurante Miyabi, dedicado à culinária kaiseki, expressão da alta gastronomia sazonal japonesa. A proposta inclui harmonizações elaboradas a partir de testes com diferentes saquês, temperaturas e recipientes, conforme as características de cada ingrediente utilizado nos pratos.
Ota explica que pequenas alterações na origem dos alimentos podem modificar as combinações ideais. Por esse motivo, considera inadequado estabelecer regras universais de harmonização. Entre as possibilidades, destaca a associação de determinados saquês com queijos brasileiros e recomenda que a bebida e o alimento sejam apreciados simultaneamente na boca, para permitir a interação entre os sabores.
Produção e diferentes formas de consumo
Produzido principalmente a partir do arroz, o saquê é uma bebida fermentada, assim como o vinho. Seu processo de fabricação, entretanto, exige a transformação do amido presente no cereal em açúcar antes da fermentação alcoólica, uma vez que o arroz não possui açúcares disponíveis nas mesmas condições encontradas nas uvas.
Apesar de ser frequentemente associado a bebidas destiladas, especialmente por sua utilização em coquetéis semelhantes à caipirinha, o saquê apresenta teor alcoólico geralmente situado entre 13% e 16%, próximo ao de muitos vinhos. Também existem versões com graduação inferior a 10%, destinadas a diferentes preferências e ocasiões de consumo.
A temperatura de serviço é outra particularidade da bebida. Dependendo do estilo, o saquê pode ser consumido gelado, em temperatura ambiente ou aquecido, inclusive a aproximadamente 60°C. No Japão, existem estabelecimentos especializados em versões quentes, embora esse hábito seja menos difundido em países de clima tropical.
Entre suas preferências pessoais, Ota destaca o consumo a cerca de 10°C, temperatura semelhante à utilizada para determinados vinhos brancos leves. Segundo o especialista, quando o produto é transportado e armazenado corretamente, essa condição favorece a percepção dos aromas e das características sensoriais da bebida.
Turismo de luxo japonês em destaque
A estreia do Japão no Espaço Luxury também pretende apresentar oportunidades do segmento de viagens de alto padrão. Com experiência de aproximadamente três a quatro visitas anuais ao país na última década, Fabio Ota avalia que o destino reúne atributos associados à segurança, à hospitalidade, à gastronomia e à diversidade cultural.
Na avaliação do especialista, a hotelaria de luxo japonesa possui características próprias, marcadas pela discrição, pelo cuidado com os detalhes e pela valorização do atendimento personalizado. Essas particularidades diferenciam a experiência de outros mercados internacionais e representam oportunidades para os profissionais brasileiros que comercializam viagens sofisticadas.
Ota considera que o interesse crescente dos brasileiros pelo Japão ainda revela apenas uma parcela das possibilidades oferecidas pelo destino. Para ele, a combinação entre gastronomia, hospitalidade e experiências culturais exclusivas pode estimular novas viagens e favorecer a descoberta de regiões menos conhecidas.
Nesse contexto, o Saquê Bar funcionará como uma apresentação da diversidade cultural japonesa. A intenção é demonstrar como a bebida pode integrar roteiros turísticos, visitas a produtores, experiências gastronômicas e outras atividades relacionadas às tradições locais.
Reconhecimento internacional
O título de Sake Samurai, recebido por Fabio Ota em 2023, é concedido por produtores japoneses a profissionais que contribuem para divulgar o saquê e a cultura do país internacionalmente. A distinção é reconhecida pelo governo japonês e reúne atualmente 108 homenageados, entre japoneses e estrangeiros.
Mais do que uma homenagem à trajetória profissional, o reconhecimento representa um compromisso contínuo com a promoção da bebida e de suas tradições. A participação no Festuris será uma oportunidade para apresentar esse universo ao mercado turístico brasileiro e aproximar os visitantes de uma experiência associada à identidade cultural do Japão.









