São Paulo (SP) – O cenário econômico brasileiro para 2027 deve exigir cautela das empresas de locação de veículos, especialmente diante das incertezas fiscais e da perspectiva de manutenção dos juros em patamares elevados. A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (28), durante a Expo Abla 2026, realizada no São Paulo Expo, no painel “Cenário econômico, político e automotivo: o que realmente pode impactar sua locadora nos próximos anos”, que reuniu os economistas Eduardo Giannetti e Marco Antonio Jacob Caruso.
Moderado por Daniel Rittner, diretor de Jornalismo da CNN, o encontro abordou os principais desafios da economia brasileira após as eleições, com destaque para o equilíbrio das contas públicas, o comportamento dos mercados financeiros e as consequências do custo de capital sobre os investimentos das locadoras.
Para Eduardo Giannetti, o próximo governo terá como uma de suas principais responsabilidades apresentar medidas capazes de estabilizar a trajetória da dívida pública. O economista avaliou que a volatilidade observada nos mercados após o processo eleitoral não deve ser interpretada necessariamente como sinal de uma crise prolongada.
“O Brasil tem um encontro marcado com ajuste fiscal”, afirmou Giannetti, ao defender a adoção de medidas econômicas no início do novo mandato.
Segundo ele, o déficit primário estrutural brasileiro está entre 0,5% e 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB, seria necessário alcançar superávits primários de aproximadamente 1,5% a 2% durante alguns anos, o que representaria um ajuste fiscal equivalente a 2% a 2,5% do PIB.
O economista destacou que a credibilidade das medidas anunciadas será tão importante quanto seu conteúdo. Na avaliação dele, a capacidade do governo de administrar as expectativas dos investidores poderá determinar a velocidade de recuperação da confiança, com reflexos sobre o câmbio e as taxas de juros.
Giannetti também recordou a reação negativa dos mercados à eleição presidencial de 2002, seguida pela recuperação dos indicadores econômicos durante os primeiros anos do governo Lula. Para ele, o episódio demonstra que expectativas inicialmente desfavoráveis podem mudar diante de decisões consideradas consistentes pelos agentes econômicos.
Santander prevê juros acima de 12% em 2027
Marco Antonio Jacob Caruso, head de Economia do Santander Brasil, apresentou uma perspectiva mais cautelosa. Segundo o executivo, as dificuldades para promover um ajuste fiscal estrutural são maiores atualmente, principalmente pela rigidez do orçamento federal.
Caruso destacou que aproximadamente 90% das despesas federais são obrigatórias, o que limita a capacidade de redução dos gastos sem alterações mais profundas nas regras orçamentárias.
O economista também apontou a trajetória da dívida pública como um dos principais fatores de preocupação. Segundo as projeções apresentadas, o endividamento bruto brasileiro, atualmente acima de 80% do PIB, poderá alcançar aproximadamente 88% em 2027, caso não ocorram mudanças significativas na política fiscal.
Para o setor de locação, a principal consequência desse cenário é a possibilidade de manutenção do custo de financiamento em níveis elevados, o que afeta diretamente a aquisição e a renovação das frotas.
“Me prepararia para um custo de capital elevado nos próximos quatro anos até que se prove o contrário”, alertou Caruso.
O executivo acrescentou que, embora espere novos cortes na taxa básica de juros, considera difícil que ela fique abaixo de 12% em 2027.
Impactos para as locadoras
As avaliações dos economistas apontam para um ambiente que exigirá maior disciplina financeira das locadoras, especialmente em decisões relacionadas à compra de veículos, à contratação de crédito e ao planejamento de investimentos.
Enquanto Giannetti considera possível uma recuperação da confiança caso o governo apresente medidas fiscais consistentes, Caruso avalia que o mercado financeiro exigirá resultados concretos antes de alterar suas expectativas.
Para o representante do Santander, medidas pontuais de contenção de despesas não serão suficientes caso não modifiquem a trajetória de crescimento da dívida pública.
A discussão também evidenciou a importância da previsibilidade econômica para um setor intensivo em capital, no qual as condições de financiamento influenciam a rentabilidade das operações e a capacidade de renovação dos veículos.
Diante das perspectivas apresentadas, o planejamento financeiro e a avaliação criteriosa dos custos deverão ocupar posição central nas estratégias das locadoras para os próximos anos, sobretudo enquanto persistirem as dúvidas sobre o ajuste fiscal e a trajetória dos juros no Brasil.

