São Paulo (SP) – O mercado brasileiro de locação de veículos deve encerrar 2026 com resultados superiores às projeções iniciais, apesar dos juros elevados e das incertezas econômicas. A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (28), durante a Expo Abla 2026, realizada no São Paulo Expo, em um painel conduzido pelo jornalista Daniel Rittner, com a participação de Marco Aurélio Nazaré, presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Júnior, vice-presidente e presidente eleito para o próximo triênio, e Francine Evelyn, diretora executiva da entidade.
Ao analisar o desempenho do mercado, Paulo Miguel Júnior destacou que o setor apresentou resultados acima das estimativas formuladas no início do ano, quando as perspectivas econômicas apontavam para um cenário de menor crescimento. Segundo o executivo, a demanda por veículos e os investimentos das locadoras superaram as expectativas, com tendência de expansão da frota até dezembro.
O dirigente lembrou que o segmento encerrou 2025 com aproximadamente 1,7 milhão de veículos e espera superar esse patamar em 2026. Para 2027, entretanto, ainda considera prematuro estabelecer projeções, diante das incertezas relacionadas ao ambiente macroeconômico e aos desdobramentos do cenário político.
Um dos fatores que sustentam a atividade, segundo Paulo Miguel, é a capacidade das locadoras de encontrar oportunidades mesmo em períodos de dificuldades econômicas. Isso ocorre porque empresas que precisam preservar capital frequentemente optam por vender suas frotas próprias e contratar serviços terceirizados de mobilidade.
“Quando o dinheiro tá curto, as empresas precisam de caixa, as empresas precisam capitalizar, elas desfazem a frota própria”, explicou.
Juros elevados e oportunidades de mercado
Marco Aurélio Nazaré também abordou os impactos da política fiscal sobre o setor. Segundo o presidente da Abla, a atividade depende de investimentos expressivos em veículos e, por isso, apresenta sensibilidade especial às taxas de juros e às condições de financiamento.
O executivo defendeu a necessidade de ajustes fiscais e maior previsibilidade econômica para favorecer novos investimentos. Na avaliação dele, o equilíbrio das contas públicas é fundamental para reduzir o custo de capital e oferecer melhores condições de planejamento às empresas.
Francine Evelyn, por sua vez, destacou que as restrições de crédito também podem representar oportunidades comerciais para as locadoras. Segundo a diretora executiva, parte dos consumidores recorre ao aluguel não necessariamente por uma mudança de preferência em relação à propriedade, mas pela dificuldade de obter financiamento para comprar um automóvel.
“Muitas dessas pessoas deixam de comprar o carro por falta de acesso ao crédito e buscam as locadoras como solução de mobilidade nesses momentos”, afirmou.
Esse movimento também alcança motoristas de aplicativos, que dependem dos veículos para geração de renda, além de consumidores que necessitam de transporte para atividades cotidianas.
Assinaturas, motos e eletrificação
Outro tema abordado no painel foi a diversificação dos modelos de negócios. Paulo Miguel Júnior apontou o crescimento dos serviços de carros por assinatura, modalidade que oferece acesso ao veículo por períodos prolongados, sem a necessidade de aquisição.
Apesar das perspectivas favoráveis, o presidente eleito alertou para os riscos de inadimplência, especialmente em contratos de 24, 36 ou 48 meses. Segundo ele, as locadoras precisam avaliar cuidadosamente a capacidade financeira dos clientes, uma vez que a recuperação de veículos e sua posterior comercialização no mercado de seminovos podem não compensar eventuais prejuízos.
O executivo também mencionou o avanço da locação de motocicletas, impulsionado pela demanda de profissionais de entregas e pela busca por alternativas de transporte mais acessíveis.
A eletrificação das frotas foi outro destaque. Na avaliação de Paulo Miguel, a entrada de veículos elétricos e híbridos no mercado brasileiro ocorreu em ritmo superior ao esperado, o que exige atenção das locadoras às mudanças nos preços, à depreciação dos automóveis e às novas características da demanda.
Abla alcança mil associadas e aposta em capacitação
Na parte final do debate, Francine Evelyn apresentou os benefícios oferecidos pela Abla às empresas associadas. A entidade atingiu recentemente a marca de mil locadoras, resultado que, segundo a executiva, demonstra a importância da atuação coletiva para obter melhores condições comerciais e maior representatividade institucional.
Entre os diferenciais mencionados estão negociações com montadoras, fornecedores de peças, acessórios e sistemas de rastreamento, além de programas de qualificação profissional.
Francine destacou a atuação da UniAbla, iniciativa dedicada à capacitação de profissionais do setor, com treinamentos específicos sobre vendas, gestão de multas, contratos e atendimento ao cliente.
A diretora também anunciou uma condição especial de associação durante a Expo Abla. As empresas interessadas poderão aderir à entidade sem o pagamento da taxa habitual de filiação, de R$ 1,9 mil, mediante o pagamento apenas da primeira mensalidade.
Ao encerrar o painel, Marco Aurélio Nazaré destacou a importância da cooperação entre as empresas para enfrentar os desafios do mercado.
“Estando juntos, participamos, aprendemos, trocamos experiências e erramos menos”, concluiu o presidente, ao defender a troca de conhecimentos como um dos principais instrumentos de desenvolvimento do setor.

