São Paulo (SP) – Os principais desafios para ampliar a competitividade do turismo brasileiro dominaram o debate entre os CEOs das três maiores companhias aéreas do país, Latam Airlines, Gol Linhas Aéreas e Azul Linhas Aéreas, durante o Seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), na Casa Lide, na capital paulista.
Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, Celso Ferrer, CEO da Gol Linhas Aéreas, e John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas, convergiram em um ponto central: o Brasil possui potencial para crescer muito mais no turismo, mas enfrenta entraves estruturais, tributários e de coordenação entre os diversos segmentos da atividade.
O painel ocorreu após apresentações de lideranças do setor, entre elas de Vinicius Lummertz, ex-ministro do Turismo, e de Ana Carolina Medeiros, presidente da Abav Nacional, que defenderam uma atuação integrada para fortalecer o turismo como política de desenvolvimento econômico.
Entre os temas mais recorrentes abordados pelos executivos da Latam, Gol e Azul estiveram a conectividade aérea, os custos operacionais, a reforma tributária, a promoção internacional do Brasil e a necessidade de ampliar o mercado doméstico de viagens.
Execução é o problema

Para Jerome Cadier, o principal desafio não está na qualidade dos atrativos brasileiros, mas na incapacidade do setor de converter esse potencial em resultados concretos. “Coletivamente o turismo do Brasil faz um trabalho medíocre”, afirma o executivo ao comparar o desempenho nacional ao de mercados como o Chile, que, segundo ele, registra o dobro de passageiros por habitante em relação ao Brasil.
Na avaliação do CEO da Latam, o país possui uma oferta turística competitiva, mas carece de planejamento de longo prazo e de políticas públicas consistentes.
Cadier também demonstrou preocupação com os impactos da reforma tributária sobre o transporte aéreo, afirmando que a carga tributária da companhia poderá triplicar quando o novo modelo estiver plenamente implementado. “A Latam paga por ano R$ 2 bilhões em impostos hoje. Com a reforma tributária implementada, isso vai passar para R$ 6 bilhões”, declarou.
Falta de incentivos
Celso Ferrer compartilhou preocupações semelhantes ao afirmar que a aviação brasileira viveu uma “década perdida” entre 2010 e 2020, período em que o número de passageiros permaneceu praticamente estagnado.

Segundo o CEO da Gol, a retomada recente foi impulsionada por investimentos em infraestrutura aeroportuária e por mudanças no comportamento dos consumidores após a pandemia. Ainda assim, ele defendeu novas políticas de incentivo para sustentar uma expansão mais robusta. “A próxima onda tem que vir por uma política de desoneração”, afirma.
Ferrer citou programas estaduais de redução do ICMS sobre o combustível de aviação como exemplos de iniciativas que contribuíram para ampliar a conectividade e viabilizar novos destinos turísticos.
O executivo também alertou para os riscos da reforma tributária ao setor e argumentou que o turismo possui um efeito multiplicador sobre a economia que precisa ser considerado nas discussões sobre tributação. “A reforma tributária está ignorando todo o efeito multiplicador do turismo”, pontua.
Mudança de comportamento
John Rodgerson trouxe ao debate uma reflexão sobre os hábitos de consumo dos próprios brasileiros e defendeu uma maior valorização dos destinos nacionais. “O brasileiro não fala bem do Brasil. O brasileiro ganha muito da sua renda dentro do Brasil e gasta seu dinheiro fora do Brasil”, afirma.

Ao abordar o tema das viagens de incentivo, Rodgerson questionou a predominância de destinos internacionais nas campanhas corporativas de premiação. “O grande sonho é ir para Disney. Mas por que nós não podemos ter sonho para conhecer o Nordeste do Brasil, para conhecer o Amazonas?”, questiona.
Para o CEO da Azul, o crescimento do turismo nacional depende da ampliação das viagens domésticas de lazer e do fortalecimento do mercado interno. “O bolo do Brasil vai crescer quando o funcionário da Vale, da Petrobras e do Itaú decidir viajar dentro do Brasil”, disse.
Rodgerson também fez críticas aos custos operacionais da aviação, especialmente ao preço do combustível e à elevada judicialização do setor. “O Brasil tem o combustível mais caro do mundo”, destaca. Segundo ele, o país concentra cerca de 3% dos voos globais, mas responde por aproximadamente 98% dos processos judiciais envolvendo companhias aéreas.
Ação integrada
Apesar das diferentes abordagens, os executivos da Latam, Gol e Azul concordaram que o turismo brasileiro possui espaço para crescer acima dos níveis atuais. A ampliação da conectividade aérea, a melhoria do ambiente regulatório, a redução de custos e uma atuação mais coordenada entre empresas, entidades e governos foram apontadas como fatores essenciais para que o país aproveite melhor seu potencial.
O debate também reforçou um tema presente ao longo de todo o seminário: a necessidade de construir uma agenda integrada para o turismo brasileiro. A proposta foi defendida por Vinicius Lummertz, que sugeriu a criação de uma “União Nacional do Turismo”, reunindo representantes da aviação, hotelaria, cruzeiros, agências, destinos e entidades do setor em torno de objetivos comuns.
Ao final do painel, a avaliação compartilhada pelos CEOs foi de que o Brasil reúne atributos naturais, culturais e estruturais suficientes para ampliar sua participação no mercado global de turismo. Os três concordam, porém, que isso será somente possível desde que consiga transformar seu potencial em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, de forma integrada por todo o setor.

