Joy Jibrilu é CEO do Nassau & Paradise Island Promotion Board (NPIPB) desde agosto de 2022, liderando a promoção internacional de Nassau & Paradise Island e o fortalecimento do posicionamento do destino no mercado global de turismo. Primeira bahamense e primeira mulher a ocupar o cargo, foi anteriormente diretora-geral do Ministério do Turismo das Bahamas, entre 2014 e 2022, e diretora de Investimentos da Bahamas Investment Authority. Também passou pelos ministérios das Finanças e de Serviços Financeiros e Investimentos e lecionou Direito Empresarial na University of The Bahamas. É bacharel em Direito pela University of Buckingham, mestre em Educação pelo The College of New Jersey, mestre em Civilização Francesa pela Sorbonne University e bacharel em Literatura Inglesa e Língua Francesa pela York University. Ao longo da carreira, integrou conselhos ligados a turismo, cultura, educação e serviços financeiros.
Com cerca de 10 milhões de passageiros de cruzeiros chegando anualmente às Bahamas, sendo aproximadamente 7 milhões a Nassau, um dos desafios é convencer o viajante de que algumas horas em terra não representam a experiência completa do destino. Cultura, gastronomia, arte, hotelaria, entretenimento, praias, eventos e o Junkanoo entram nessa narrativa. Para o Brasil, há ainda um objetivo capaz de alterar significativamente a escala desse relacionamento: conquistar uma ligação aérea direta com Nassau. Em entrevista ao Brasilturis, Joy Jibrilu explica por que o País passou a ocupar espaço na estratégia do NPIPB, detalha as oportunidades para o trade brasileiro e defende uma Nassau & Paradise Island que vai muito além de sol e mar.
Como o Brasil se posiciona em meio às estratégias de Nassau e Paradise Island?
Durante muito tempo, não tivemos foco no Brasil. Se eu for muito sincera, fomos um pouco acomodados porque os visitantes dos Estados Unidos chegam até nós com muita facilidade. De Nova York, por exemplo, é possível fazer uma viagem curta para Nassau, passar alguns dias e voltar. Como esse mercado funcionava tão naturalmente, não explorávamos suficientemente as possibilidades existentes em outros países.
Agora estamos olhando de maneira muito mais intencional para Brasil, México e Argentina. No caso brasileiro, existem características interessantes, inclusive a diferença do calendário de férias em relação aos Estados Unidos. Isso pode ajudar a distribuir melhor nossa demanda ao longo do ano. Mas há uma questão ainda mais importante: diversificação. Não é saudável para nenhum destino depender excessivamente de um único mercado.
E estamos investindo de verdade nessa aproximação. Nesta viagem, por exemplo, passamos um dia no México, um dia na Argentina e seis dias no Brasil. Estamos encontrando operadores, agentes de viagens e mídia, entendendo quem são os parceiros certos e trabalhando para que o mercado conheça melhor o produto. Não queremos simplesmente fazer publicidade. Queremos construir mercado.
O que falta para o mercado brasileiro ganhar escala?
A conectividade aérea. O maior avanço que poderíamos alcançar seria um voo direto entre o Brasil e Nassau. Isso mudaria completamente o jogo.
É por isso que os resultados que estamos construindo aqui são tão importantes. Quando conversamos com uma companhia aérea, precisamos demonstrar que existe demanda, que estamos presentes no mercado, que operadores estão desenvolvendo produtos e que os números estão crescendo. Já mantemos conversas com companhias que atuam na região e queremos estar preparados quando surgir uma oportunidade.
Veja o exemplo da Copa. Quando começou a voar entre Panamá e Nassau, eram duas frequências semanais. Hoje são seis e, na alta temporada, chegam a sete. Quando as pessoas percebem que conseguem chegar facilmente a um destino, a demanda responde.
Enquanto o voo direto não existe, o brasileiro já conta com alternativas bastante simples. A Copa oferece conexões pelo Panamá e Nassau também está a cerca de meia hora de voo de Miami, com uma oferta muito grande de frequências. O desafio também é de comunicação, porque ainda encontramos pessoas que pensam nas Bahamas como um destino difícil de acessar.
Nesse sentido, combinar Nassau com os Estados Unidos pode ser uma estratégia interessante para o brasileiro?
Muito. E existe uma vantagem que nós mesmos não comunicamos suficientemente durante anos. Nas Bahamas temos o preclearance dos Estados Unidos. O passageiro faz os procedimentos de imigração e alfândega norte-americanos ainda em Nassau e, quando desembarca nos Estados Unidos, chega como se estivesse em um voo doméstico.
Isso significa que um brasileiro pode passar alguns dias nas Bahamas e depois seguir para Miami, Orlando, Nova York ou outro destino norte-americano sem enfrentar todo o processo de imigração na chegada. Em aeroportos como Miami, isso pode representar uma diferença significativa de tempo. É uma combinação muito natural e uma história que precisamos contar melhor.
Ao mesmo tempo, Nassau recebe milhões de passageiros de cruzeiros. Transformar esse visitante em turista de permanência é um dos grandes desafios?
Sem dúvida. Aproximadamente 10 milhões de passageiros de cruzeiros visitam as Bahamas por ano e cerca de 7 milhões passam por Nassau. Muitos ficam quatro horas, voltam para o navio e dizem: “Eu conheço as Bahamas”. E nossa resposta é: não, você ainda não conhece.
O cruzeiro é uma introdução. Queremos que essa pessoa tenha uma boa experiência durante algumas horas e pense: “Preciso voltar”. Porque quando você permanece no destino começa a conhecer nossa cultura, nossa gastronomia, nossa música, nossa história e as pessoas. É completamente diferente.
Para alguém que está vindo do Brasil exclusivamente para as Bahamas, eu recomendaria no mínimo sete dias. Passaria quatro ou cinco em Nassau & Paradise Island e depois faria dois ou três dias em outra ilha. Temos cerca de 700 ilhas e aproximadamente 19 são promovidas ativamente pelo Ministério do Turismo. Você pode pegar um ferry ou um voo doméstico e encontrar uma experiência completamente diferente.
Nassau oferece toda a estrutura, hotéis, restaurantes, vida noturna, cultura e entretenimento. Depois você pode ir para outra ilha e encontrar aquela imagem de uma praia tropical praticamente só para você. São experiências complementares.
Existe uma identificação cultural entre brasileiros e bahamenses?
Muita. Uma delas está na própria forma de viajar. Nós viajamos com pais, filhos, avós, diferentes gerações juntas. Quando o mercado internacional começou a falar tanto sobre viagens multigeracionais, nós pensamos: “Mas sempre fizemos isso”. E vejo algo muito parecido no Brasil.
Há também o Junkanoo, nosso grande festival nacional. Naturalmente, existem pontos de identificação com um país conhecido mundialmente pelo Carnaval. Não são a mesma celebração, mas há música, dança, fantasias e um envolvimento muito forte das comunidades.
E o Junkanoo não começa quando o desfile começa. Os grupos trabalham praticamente o ano inteiro. As fantasias são produzidas à mão e os espaços onde elas são construídas também exercem uma função social. Há crianças que chegam depois da escola, convivem com os integrantes mais velhos e precisam fazer a lição de casa antes de poder trabalhar nas fantasias. É cultura, mas também é comunidade, educação e transmissão de conhecimento entre gerações.
A hotelaria consegue acompanhar essa variedade de perfis de viajantes?
Temos aproximadamente 11 mil quartos de hotel em Nassau & Paradise Island e uma oferta muito diversa. Podemos ir de propriedades extremamente sofisticadas, como Rosewood e Four Seasons Ocean Club, a grandes complexos como Atlantis e Baha Mar, hotéis lifestyle, opções para famílias e pequenos hotéis boutique.
E mesmo os grandes resorts possuem diferentes categorias. Atlantis não é um único produto. Você tem Coral Towers, Royal Towers, Cove e Reef, cada um atendendo a perfis distintos. Em Baha Mar também existem experiências diferentes entre Rosewood, SLS e Grand Hyatt.
Há opções interessantes para famílias que não querem necessariamente permanecer no segmento de luxo. O Comfort Suites, por exemplo, fica ao lado do Atlantis e seus hóspedes podem utilizar as instalações do complexo. Margaritaville e British Colonial também atendem a outros perfis. Essa amplitude é importante porque não queremos que o mercado enxergue Nassau como um destino com apenas uma faixa de produto.
Onde entram os agentes e operadores brasileiros nesse processo?
Em praticamente tudo. Nós não conseguiríamos desenvolver esse mercado sem os agentes de viagens e operadores locais. Não basta chegar ao Brasil e anunciar Nassau & Paradise Island para o consumidor. Precisamos trabalhar a distribuição, ajudar operadores a desenvolver produtos, capacitar os profissionais e proporcionar oportunidades para que conheçam o destino. O agente precisa estar confortável com aquilo que vende.
Também sabemos que Nassau & Paradise Island não será necessariamente o produto certo para todos os viajantes. Por isso, precisamos ser muito direcionados. Temos de identificar quais operadores trabalham com o perfil adequado, quais agências conseguem desenvolver esse consumidor e quais experiências fazem sentido para ele.
Foi assim que outros mercados amadureceram. Quando o agente recebe treinamento, participa de uma viagem de familiarização, entende a hotelaria, conhece as experiências e percebe como chegar, ele passa a vender com outra segurança. É esse relacionamento que queremos construir no Brasil.
Sua própria chegada ao NPIPB também representou uma transformação importante. Você foi a primeira bahamense e a primeira mulher a assumir o cargo de CEO. Como recebeu esse desafio?
No turismo das Bahamas, havia uma espécie de teto de vidro. As pessoas diziam que existia uma posição que um bahamense jamais ocuparia: a de CEO do Nassau & Paradise Island Promotion Board. Quando me ofereceram o cargo, minha primeira reação foi: absolutamente não.
A organização não tinha uma boa reputação entre muitos bahamenses. Existia a percepção de que ela era voltada para estrangeiros e que a própria identidade das Bahamas aparecia pouco no trabalho realizado. O escritório nem sequer ficava nas Bahamas.
Então comecei a fazer perguntas. Perguntei quantos bahamenses a organização havia ajudado a construir uma carreira no turismo. Perguntei se já havia oferecido bolsas de estudo. A resposta foi que ninguém nunca havia pedido. Então perguntei: “Podemos criar bolsas?”. E disseram sim.
Depois perguntei por que não tínhamos um escritório nas Bahamas. Explicaram que havia razões relacionadas à operação nos Estados Unidos. Eu respondi que isso não impedia a existência de um escritório no nosso próprio país. Perguntei novamente: “Podemos ter um?”. E disseram sim. Foi quando percebi que estavam dispostos a conversar e a mudar.
Eu sabia que, se fracassasse, alguém poderia dizer: “Está vendo? É por isso que nunca colocamos uma mulher ou uma bahamense nessa posição”. Existe uma responsabilidade que vem junto com ser a primeira.
Por isso, uma das coisas que mais me orgulham hoje é ver bahamenses dentro da organização, desenvolvendo carreiras e demonstrando que podem realizar esse trabalho. Também mudamos a maneira como nossos parceiros enxergam o NPIPB. Quando convidamos um hotel para participar de uma missão internacional, ele sabe que haverá qualidade, que estaremos diante das pessoas certas e que existe uma estratégia por trás daquela ação.
E mudamos nossa mentalidade. Antes, alguém poderia perguntar: “Por que precisamos ir ao Brasil se já temos visitantes suficientes?”. Minha pergunta é: por que não ir?
A pandemia nos ensinou o risco de depender excessivamente de determinados mercados. Diversificação não é simplesmente uma questão de crescer. É também uma questão de construir uma indústria turística mais resiliente.
Depois desse primeiro movimento no Brasil, qual resultado faria você considerar que a estratégia está funcionando?
Já estamos vendo crescimento e quero que isso continue. E não vou ser modesta demais: se adicionarmos mil visitantes brasileiros no próximo ano, considerarei uma conquista muito importante.
Não é apenas por esses mil viajantes. Esse crescimento nos permite chegar a uma companhia aérea e dizer: “Estamos investindo no Brasil, estamos presentes, o mercado está respondendo e os números estão aumentando”. Isso fortalece nosso argumento para avançar justamente naquilo que pode transformar a relação entre os dois países: o voo direto.
Enquanto isso, continuaremos trabalhando com as conexões existentes, capacitando o trade e contando nossas histórias. Porque ainda encontramos pessoas que conhecem o nome Bahamas, pensam nas praias, talvez até tenham considerado viajar, mas não sabem tudo o que existe além disso.
Quando descobrem a arte, a gastronomia, a cultura, a história, a música, a hotelaria e a facilidade de combinar Nassau com outros destinos, a percepção muda. É exatamente isso que queremos fazer no Brasil.









